Terminou, mais uma vez, o corpo central das comemorações do 25 de Abril. Mais ou menos grandiosas, mais ou menos alargadas, as mesmas fazem perpetuar a memória em declínio de uma data crucial na nossa historiologia moderna.
Hoje, passadas mais de quatro décadas justifica-se, no entanto, uma reflexão sobre os meios e os modos da celebração que, recorrentemente, vimos desenvolvendo.
É importante celebrar datas que simbolizam valores que a cidadania exige? É, com certeza.
É importante não deixar cair no esquecimento imperativos históricos e vivências hoje obsoletos, mas cuja rejeição custou a vida a diversos homens e mulheres? É, naturalmente.
Preferiria, contudo, que Abril, mais que comemorado, pudesse ser essencialmente vivido. Mais que celebrado, pudesse ser sentido. Que a liberdade que Abril abriu (tanto de opinião, como de expressão) fosse, hoje (tanto tempo passado), objeto da mais plena materialização. E a tolerância face à diferença, bem mais ampla e habitual.
Não como pressuposto conceptual, esclareça-se, mas como critério corrente e utilitário. Que se percebesse que o direito à liberdade, não constitui o enviesado direito dos outros pensarem como nós! Mas de pensarem, se for caso disso, de forma diferente. Contrária, se necessário.
Que se percebesse, de uma vez por todas, que o direito à liberdade de opinião está, naturalmente, associado ao respetivo dever: o de respeitar a opinião dos outros. E respeitar a opinião dos outros não é, apenas, aceitar que os outros tenham opinião. Também não é necessariamente segui-la. Mas reconhecê-la como um direito; inequívoco e respeitável.
Gostaria que se percebesse que se Abril criou condições para alguma coisa foi, efetivamente, para que possamos pensar pela nossa cabeça. Afinal (arriscar-me-ia a dizer) é melhor pensarmos mal, pela nossa cabeça que, bem, pela cabeça dos outros. Pois, assim, estamos sempre a tempo de mudar; conforme evoluam os respetivos dados de análise. E não mudaremos como um catavento; de acordo com as dominâncias de respectivos gurus. Ou de acordo com pressupostos operativos de uma qualquer causa ideológica ou partidária. Outros gurus, afinal.
É, por tudo isto, que as celebrações de Abril me deixam sempre um certo gosto amargo e redundante. Até que ponto não seria melhor aproveitar a institucionalização da memória para criar condições de refletir sobre o percurso de mudança que Abril catalisou? E que é hoje, como se sabe, submetida a novos desafios. Éticos e morais, políticos e culturais.
Afinal, até que ponto as diversas gerações (a começar por nós próprios que nos reputamos de “geração de Abril”) interiorizam hoje, como coisa corrente, os modernos valores emergentes? Como os direitos da Terra, dos mais velhos, dos animais, dos gays, dos muçulmanos, dos negros, dos migrantes; dos “outros” afinal.
Até que ponto (para lá das ações comemoratórias) não deveríamos optar por iniciativas refletivas e formativas em que Abril servisse, essencialmente, como matriz enformadora de anteriores e modernas vivências e valores; na sua aplicabilidade aos modernos imperativos de cidadania? Aprendendo a ver os “outros” (novos ou velhos, cristãos ou muçulmanos, brancos ou pretos, hétero ou homossexuais, do Benfica ou do Sporting) como alguém que nos merece tanto respeito como aquele que deles exigimos.
Até que ponto esta não devia ser uma oportunidade de nos confrontar com os défices democráticos que ainda hoje, infelizmente, carregamos. Lembremo-nos da discriminação das populações muçulmanas em muitos países da Europa e da América. Dos diversos radicalismos que nos envolvem. Dos episódios racistas que, frequentemente, vêm a lume. Das intolerâncias que, tantas vezes, eclodem entre nós. Particularmente significativo (até pela irrelevância do tema) lembremo-nos dos ódios exacerbados que emanam de certos tele debates desportivos.
Enfim! Quatro décadas e meia depois, a nossa aprendizagem democrática está ainda longe de ser plena. Afinal, vivemos muito tempo numa situação de regime autoritário que não nos permitiu o direto a liberdades de expressão, de opinião e afins. Enquanto outros países europeus dispuseram de largas décadas de aprendizagem. E quando, finalmente, as obtivemos, encontrámo-nos enredados num processo de lutas partidárias; aceso e turbulento.
Na verdade, a nossa experiência libertária aconteceu num período muito pouco propenso à reflexão. E à interiorização, gradual, dos nossos pressupostos de cidadania. Foi uma aprendizagem desenvolvida não com os outros mas por oposição aos outros. Ainda hoje sofremos as respetivas consequências. Enquanto assim for, Abril corre o risco (pesem embora as repetidas celebrações e as festivas palavras de ordem) de nunca se vir, verdadeiramente, a concretizar. Passada que seja esta geração, tudo se pode vir a resumir, gradualmente, a um mero ritual anual, formal e institucional, em que um punhado de idosos se arrastam periodicamente a uma determinada praça pública, prestando solitárias homenagens que o tempo cristalizou.
Enquanto o mundo muda em redor.
