Cumpriram-se esta quarta-feira, dia 10 de julho, 20 anos sobre a morte de Maria de Lourdes Pintasilgo, engenheira e figura política abrantina que foi, até hoje, a única mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em Portugal. A par disso, foi também das primeiras mulheres a formar-se em Engenharia Química (pelo Instituto Superior Técnico), tendo ainda integrado a instalação do movimento internacional Graal, de mulheres cristãs, em Portugal, nos anos 50.
Em Abrantes, no Arquivo Municipal, celebrou-se a humanista e a mulher católica que defendia os mais desfavorecidos, que era pelos direitos da mulher e defensora do seu papel na sociedade. Tudo isto numa tertúlia de homenagem em torno do seu pensamento, do seu modo de estar na vida, dos seus feitos e cargos desempenhados, mas onde também se revelou um lado mais pessoal e familiar, bem como alguns traços de personalidade e ideias muito próprias, que só os mais próximos terão tido o privilégio de conhecer.

Numa organização em parceria entre os Retiros Literários e a Câmara Municipal de Abrantes, partilharam os seus contributos três oradores, em diferentes planos, sobre a vida e obra de Maria de Lourdes Pintasilgo, desde o pensamento ético-político ao seu modo de estar e aos seus ideais, e até a detalhes da sua vida pessoal, familiar e personalidade, bem como a ligação às suas raízes abrantinas.
Raquel Olhicas, vereadora da Câmara Municipal de Abrantes com o pelouro da Ação Social, abriu a sessão referindo-se a um “dia memorável” pela homenagem feita a Maria de Lourdes Pintasilgo, que considerou “uma grande mulher, uma mulher maior, visionária para a época, com um legado extraordinário, nomeadamente ao nível das Ciências Políticas, das Ciências Sociais e Humanas, uma defensora acérrima dos direitos das mulheres e da igualdade de género, que se foi perpetuando até aos dias de hoje”.
Lembrou que no Município existe um departamento de Promoção da Cidadania e Igualdade de Género, a par de um Plano Municipal para a Igualdade e, desde 2021, foi implementado o Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, que visa distinguir as boas práticas de cidadania e a integração de medidas que promovam a igualdade de género em empresas e entidades do concelho de Abrantes, seguindo o seu legado.
Foi também projetado um vídeo produzido pela Associação Feministas em Movimento, em jeito de homenagem “a esta grande entidade que muito nos honra”, concluiu a vereadora Raquel Olhicas.
Na abertura da iniciativa, Maria Luísa Francisco, investigadora da Universidade Nova de Lisboa e responsável da Retiros Literários, entidade promotora desta tertúlia em parceria com a autarquia, disse ser “especial estar num Arquivo, lugar que guarda a memória e alarga horizontes, precisamente na terra onde Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu e celebrar a sua vida, prestando homenagem neste dia em que faz 20 anos que morreu, tinha 74 anos, quando sofreu um ataque cardíaco”.
Deu algumas referências sobre o percurso de Maria de Lourdes Ruivo da Silva Matos Pintasilgo (n.18.01.1930 – m.10.07.2004), engenheira química, dirigente eclesial e política, que foi caso raro na época em que tirou o curso no Instituto Superior Técnico, de Engenharia Química e Industrial, numa turma de 250 alunos entre os quais quatro mulheres – a abrantina era uma delas.
Assumiu cargos de liderança de associações e movimentos, mas também cargos políticos de relevo, pois além de ter sido a única Primeira-Ministra de Portugal, foi também a segunda mulher a exercer tais funções na Europa – e por pouco não foi a primeira, porque Margaret Thatcher só tinha sido eleita no Reino Unido dois meses antes.





Integrou a Unesco, candidatou-se à Presidência da República, foi deputada no Parlamento Europeu. “Foi uma mulher que lutou pelo conceito e pela prática de uma cidadania ativa, inserida numa democracia que desejava que fosse baseada em valores éticos e intrinsecamente democráticos”, adiantou Maria Luísa Francisco.
“Uma mulher livre, diferente, e com uma capacidade de liderança e uma empatia que não deixava ninguém indiferente”, notou a investigadora, crendo que atualmente o seu nome e o seu legado continua a não deixar ninguém indiferente, tendo sido “uma mulher de pensamento e de ação, uma mulher que fez pontes e que sonhou mais além, que sonhou com novas dimensões para trazer novas soluções para os problemas do mundo”.
Dos três oradores presentes, foi a docente e investigadora Marília Carrilho, da Universidade de Évora, quem iniciou a tertúlia com a sua apresentação. A autora do livro “O pensamento ético-político de Maria de Lourdes Pintasilgo – Diálogos com Martin Heidegger e Hans Jonas”, que resulta da tese de doutoramento da académica, abordou a “personalidade inteletual” da Engenheira Pintasilgo, com o tema “a filosofia como estruturante da ação política”, com várias partes de um estudo aprofundado daquele que considera ser um “legado escrito de imenso valor” deixado pela estadista abrantina.

Admitiu ter conhecido apenas Maria de Lourdes Pintasilgo “pelos textos, pelo que ela deixou escrito”, sublinhando as comunicações proferidas a nível nacional ou internacional, afirmando que todas tinham conteúdo e nelas “pensava com os outros pensadores”.
A partir da análise de textos de Maria de Lourdes Pintasilgo, referiu-se aos pensamentos que foi redigindo e produzindo também a partir da filosofia e de outros pensadores, de onde se destacam máximas como “ser com os outros no mundo” e conceitos e reflexões em torno do “individualismo e falta de empatia” na vida em sociedade.
Na parte da defesa das minorias, considerava que “os consensos muitas vezes acabam por dar voz a uma maioria, àquela parte que consegue ter mais voz, e as minorias acabavam por não ser consideradas, o que ela achava injusto”.
Abordando alguns dos livros e autores da biblioteca de Pintasilgo, disse que continha publicações de Gilles Lipovetsky, Martin Heidegger e Hans Jonas, Platão, Simone Weil, entre outros nas áreas da Filosofia, mas também Sociologia e Economia. Enumerou ainda uma série de pensadores e pensadoras em que se inspirava a engenheira e que foi citando: caso de Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Hannah Arendt, Jean-Paul Sartre, Gilles Lipovetsky, Jean Baudrillard, Edgar Morin, Eduardo Lourenço, Emmanuel Mounier, Boaventura de Sousa Santos, entre muitos outros.

Com base na sua tese de doutoramento, que originou o seu livro, falou numa cronologia produzida a partir de conceitos centrais daquilo que é o legado escrito deixado, onde surgem conceitos como o amor, logo nos primeiros textos, mas onde também começam a ressaltar o cuidado, a responsabilidade e liberdade e o agir.
Marília Carrilho fez menção ainda aos conceitos de cuidado e responsabilidade, nomeadamente à ética do cuidado e da responsabilidade, onde associava ao “cuidado de si mesmo, dos outros, da natureza e do futuro”. Já no que concerne ao conceito de responsabilidade, associava ainda a prudência e a regulação, onde os direitos e deveres não se dissociavam, conforme defendia.
Deu ainda conta de alguns livros da autoria de Maria de Lourdes Pintasilgo que estão “quase perdidos”, porque se tratam de edições que não foram reeditadas e recuperadas, livros lançados desde os anos 70 e 80, como “Os Novos Feminismos”, “Sulcos do nosso querer comum”, “As minhas respostas”, “Dimensões da mudança”, baseados em algumas entrevistas que foi cedendo ao longo da vida.
Também mencionou a investigadora o relatório “Para uma Europa dos Direitos Cívicos e Sociais”, do Comité de Sábios presidido por Maria de Lourdes Pintasilgo e publicado em 1996. Daqui “foram dados os primeiros passos para a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia”.
Já Paulo Falcão Tavares, enquanto familiar da homenageada, expressou não ser “especialista” em Maria de Lourdes Pintasilgo, falando da prima da sua mãe de forma “nada politicamente correta”, como o próprio classificou, mostrando algumas fotografias e informações inéditas, mas que revelam “a parte mais intimista e abrantina da sua vida, que é completamente desconhecida”, pois “não está escrita nem registada”.
Trazendo apenas algumas das fotografias que são sua propriedade, e que a Fundação Cuidar o Futuro também não terá, notou que todas aquelas memórias foram captadas em Abrantes.

“Viveu cá [em Abrantes] oito anos. Há uma porção de coisas que li, peço desculpa, mas estão erradas nos livros que foram publicados. Como é o caso de se escrever que ela pertenceu a uma família laica republicana. Republicana, sim. Laica, não”, refutou, referindo que era católica da parte materna da família, tendo sido batizada em Abrantes, em 1930, e frequentado a catequese.
“Um dos meus tios era o seu confidente e explicador, e foi durante praticamente toda a vida dela”, mencionou, referindo-se a Mário Silva Falcão, engenheiro, e seu explicador de Matemática e Física.
“A Engenheira Pintasilgo era uma senhora civil, mas era uma religiosa que não tinha hábito. Tinha uma estrutura de amor a Deus e de evidência cristã muito profunda. E ao longo da sua vida isto foi sempre marcante. A ponto de [o tio José Falcão, economista com ligações ao PCP, que esteve preso em Caxias e foi torturado] dizer que a prima Maria de Lourdes era o Salazar de saias. Claro que este é um comentário caseiro. Nunca viram isto escrito, mas ouvi várias vezes este comentário, justamente pela vida que ela levava”, revelou Paulo Falcão Tavares.
Lembrando que Maria de Lourdes vinha a Abrantes na Páscoa e nas férias grandes de verão, referiu-se à competição entre primos daquela geração e, apontando uma fotografia de família, em que disputavam feitos. “Eram todos grandes figuras e tinham todos profissões e cargos relevantes”, referiu o historiador, indicando ainda um romance que a engenheira teve em Abrantes.

Apontando a uma “família burguesa fortemente tradicional”, afirmou que “quase todos os membros da família Ruivo da Silva eram associados ao regime e pertenciam à PIDE. E a própria Engenheira Pintasilgo, quando vai trabalhar para a CUF nos anos 50, foi com uma cunha da PIDE”.
“Foi uma pessoa que sempre se conseguiu adaptar ao regime e ao clima, com muito cuidado e muita atenção. Mas não foi nunca uma socialista. Esqueçam isso por completo; nunca foi (…) Era uma pessoa estruturalmente clássica, ela detestava liberalidades”, afiançou Paulo Falcão Tavares.
Além disso, conta que no 25 de Abril de 1974, Maria de Lourdes Pintasilgo “pela primeira vez na sua vida, teve medo de ser morta”, quando fizeram o cerco à Assembleia da República.
“O 25 de Abril, para ela, foi uma grande revolução interna, que ela também queria mas não da forma como aconteceu”, deslindou, tendo noção que aquilo que contava ia “um bocadinho em contra-corrente com o que está escrito”.
“Tenho respeito por ela. Foi uma grande figura, mas não foi a melhor figura que Abrantes teve de sempre”, referiu, dando a sua opinião.
Citando parte de uma entrevista de 1975 à RTP, em que Maria de Lourdes Pintasilgo diz “as pessoas não chegam à governação por serem os melhores”, o investigador e familiar diz crer que a prima da mãe chegou a primeira-ministra num “acaso e por sorte”, sabendo aproveitar a oportunidade. “Ela era muito boa, mas talvez não tivesse sido a primeira escolha. E politicamente não foi. Foi uma necessidade. Quando foi primeira-ministra foi numa preparação para uma nova governação”, defende.
Referiu ainda que a engenheira “não acedia a outras decisões que não fossem tomadas por ela”, pois “até negou, quando estava na Unesco, ao Professor Pina de Martins – erudito de Portugal que deixou a maior biblioteca de clássicos portugueses – fazer uma edição dos mesmos”, no intuito de divulgar a cultura portuguesa internacionalmente. “Ela realmente foi uma pessoa do mundo, mas teve as suas pequenas quezílias, os seus pequenos nãos”, adiantou.



Referindo-se ao facto de ela não ter ligação ao Partido Socialista, Paulo Falcão Tavares menciona que, quando em 1985 Mário Soares ganhou as eleições, Maria de Lourdes estava a ouvir o anúncio dos resultados das eleições em casa e ficou muito afetada ao saber que só teve 7% dos votos. “A partir desse dia, e durante muito tempo, entrou em depressão”, afiança o familiar abrantino.
“Era uma mulher livre que falava daquilo que bem entendia”, sublinhou, indicando ser esta uma prova de que não pertencia ao partido.
Referindo-se a um artigo publicado por um dos primos de Maria de Lourdes Pintassilgo no jornal Primeira Linha, frisou que esta viveu em Lisboa com a avó e a mãe, mas saltou depois para outro tema que gerou alguma inquietação na sala.
“A prima Pintasilgo era uma pessoa muito dada a cunhas. Gostava de cunhas, de telefonar, pedir. Era muito à portuguesa”, disse, contando que também o pai de Paulo Falcão Tavares se deslocou a São Bento quando esta era governante para que ela publicasse um decreto-lei.
Outro dado acrescentado por Falcão Tavares prende-se com a admiração que a engenheira tinha pelo Professor Salazar, sendo que este a descrevia como “um peixinho vermelho em água benta”.




Abordando uma reflexão em família sobre o facto de ter sido dado ao antigo Colégio de Fátima o nome Escola Básica Maria de Lourdes Pintasilgo, o familiar diz estar certo que “a Maria de Lourdes, se fosse viva, não quereria o nome associado àquela escola. Porque tudo o que fosse substituir o nome ao Colégio Nossa Senhora de Fátima pelo nome dela, ela consideraria uma heresia. Nisso ela seria intransigente”.
“Acho muito bem que se faça uma homenagem ou se recupere a casa dela, inclusivamente”, assumiu, mas discordando da mudança de toponímia de Rua do Brasil e dos Oleiros para Rua Maria de Lourdes Pintasilgo, considerando que, do ponto de vista patrimonial, é um erro absoluto (…) Os topónimos, principalmente os históricos, devem-se manter porque fazem parte da história da cidade. Será que não havia outra artéria, uma avenida grande, para pôr o nome dela? Claro que havia”.
Paulo Falcão Tavares referiu ainda o facto de a engenheira, no exercício do seu cargo político, ter exigido ao Estado Português que alugasse um Rolls-Royce para a transportar, algo que a família achava criticável.
Já a terminar a sua apresentação, lançou uma frase de Maria de Lourdes: “Fiz de Deus o centro da minha vida. Não sei quem é. Por isso o escolhi.” Uma afirmação que diz traduzir a sua dedicação em prol dos outros, independentemente da sua condição. “Ela entregou a sua vida e a sua obra a todos nós e não foi só àqueles que ela achava que eram do seu partido. Foi uma religiosa (…) Escolheu a causa do próximo (…) É a grande mensagem que deixou, e acho que por isto é que ela é grande. Não é pelos cargos que desempenhou, onde esteve, o que fez”, defendeu o investigador.

Por fim, após informações “inéditas” e surpreendentes para a plateia – que até gerou perplexidade e debate intenso entre a dimensão pública e a privada da vida de Maria de Lourdes Pintasilgo – e encerrando os trabalhos, a investigadora Maria Luísa Francisco abordou a “mulher que viveu com intensidade e coerência, que não escondeu a sua fé, e que deixou um legado”, lembrando que um dos seus lemas era “cuidar o futuro”, contribuindo para “a melhoria da qualidade de vida, defendendo a centralidade da pessoa e dos direitos humanos, o sentido de responsabilidade, a ética e as questões ambientais”.
Deixou um “contributo emocional”, falando da engenheira que regeu a sua vida pelo evangelho, através do qual queria alcançar um mundo melhor. Falou do empenho, dedicação e convicção com que desempenhou cargos de liderança e responsabilidade, não por desejar protagonismos mas “pelo desejo de servir o outro e de intervir na sociedade”.

“A sua ação governativa, tal como o resto da sua vida, ficou marcada por uma liderança dialogante e pela forma como se empenhou nas causas sociais, que sempre orientaram a sua vida social e política. Foi uma mulher independente, criadora, criativa, que lutou pelo conceito e pela prática de uma cidadania ativa, baseada nos valores éticos e democráticos. Independentemente de todas as críticas, é certo que Maria de Lourdes Pintasilgo deixou uma marca impossível de apagar na democracia portuguesa. Pouca gente sabe que o ordenado mínimo nacional teve a sua mão enquanto Secretária de Estado da Segurança Social e, depois, enquanto Ministra dos Assuntos Sociais em 1974/1975”, deu conta.
Por outro lado, entende que a política queria “transformar a sociedade com o objetivo da mudança real na vida das pessoas” e, pessoalmente, diz ter-se identificado com esses objetivos, tendo-se tornado sua seguidora.
GALERIA
“Hoje, 20 anos depois, quero assumir publicamente que vou avançar com alguns projetos adiados mas nela inspirados. Estou grata pelo testemunho que foi a vida de Maria de Lourdes Pintasilgo, que continua a encorajar-nos nos momentos mais difíceis, e continuo a acreditar que ainda existe um nível de esperança para a Humanidade, e para um futuro com dignidade. Porque se todos soubermos cuidar do presente, fazendo a diferença onde estamos, com as nossas ações diárias, com a nossa cidadania ativa, responsável e ética, estaremos sim a cuidar do futuro”, terminou Maria Luísa Francisco.
Na ocasião, também foi ouvido o testemunho da empresária Natália Margarido, à frente da empresa Margarido’s, a entidade vencedora do primeiro Prémio MLP em 2023, que se emocionou ao identificar-se com os ideais e propósitos da ilustre engenheira e política abrantina, nomeadamente pela defesa dos direitos da mulher e pelas medidas em prol da igualdade de género e consequente impulso para uma melhor qualidade de vida e futuro.
Casa onde nasceu Maria de Lourdes Pintasilgo ainda sem destino definido
Passaram oito anos desde que a Câmara Municipal de Abrantes aprovou a compra da casa onde nasceu a engenheira no ano de 1930, no coração do centro histórico da cidade, sita na antiga Rua dos Oleiros e do Brasil – hoje, Rua Maria de Lourdes Pintasilgo –, mesmo ao lado do edifício dos Paços do Concelho. Porém, o imóvel continua por requalificar e não existe ainda um projeto concreto destinado para o local, confirmou ao mediotejo.net a vereadora Raquel Olhicas, responsável pelo pelouro da Ação Social.

“Para já não há nada definido para aquele edifício. Inicialmente estava previsto um projeto na área da violência doméstica, mas chegou também a ser equacionado um projeto na área da inovação social. Mas não está nada definido até ao momento”, explicou Raquel Olhicas.
No passado, o objetivo seria requalificar um edifício em estado degradado e dar-lhe um novo uso, perpetuando também o legado da política que se preocupou com as causas sociais e o respeito pelos direitos das mulheres.


Conforme noticiado pelo nosso jornal, previa-se um projeto relacionado com apoio a vítimas de violência doméstica ou similar, dentro do trabalho desenvolvido pela Rede Especializada de Intervenção na Violência do município, mas garantindo a autarquia não se tratar de uma casa-abrigo.
O imóvel, um prédio com dois pisos, foi adquirido pelo valor de 23 mil euros, após aprovação em reunião de executivo camarário do dia 21 de junho de 2016, assunto levado a discussão por Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Ação Social na autarquia que então era presidida por Maria do Céu Albuquerque.
Mantendo vivo o legado desta figura de destaque do panorama político e social português, o Município de Abrantes tem promovido ao longo dos anos algumas iniciativas evocativas e de homenagem a Maria de Lourdes Pintasilgo, destacando-se algumas tertúlias e palestras comemorativas, mas também homenagens, como a mais recente atribuição do seu nome ao novo centro escolar que nasceu da requalificação do antigo Colégio de Fátima, no centro da cidade.
Por ocasião da inauguração do novo centro escolar a que a humanista dá o nome, no ano passado, também Paula Barros, responsável pela Fundação Cuidar o Futuro (fundação concebida por Maria de Lourdes Pintasilgo) deixou o desafio para que a casa onde nasceu a mulher-referência abrantina fosse convertida e aproveitada para criar no centro histórico um Museu Cuidar o Futuro, que “a homenageie mas que seja esta semente para pensar o mundo, um mundo mais sustentável”.




Refira-se que a autarquia também instituiu, entre 2021 e 2022, o Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, um prémio municipal bianual, que visa distinguir entidades ou empresas pelas suas boas práticas e adoção de medidas de promoção da igualdade e não discriminação. A empresa Margarido & Margarido venceu a primeira edição deste prémio em 2023.
Segundo o regulamento, o prémio consiste na atribuição de um montante pecuniário no valor de 500,00€, sendo também atribuído um certificado de mérito a confirmar que a entidade distinguida é reconhecida como um dos melhores locais do concelho de Abrantes para trabalhar no que diz respeito a igualdade de género e não discriminação.











Parabéns pela reportagem. Existe uma imprecisão no relato aqui apresentado: o confidente e explicador da Engª Maria de Lourdes foi o Engº Mário M. e Silva Falcão (tambem abrantino), citado alias pela senhora Primeira Ministra no seu livro de memórias. Não foi o seu parente, Dr. José M. e Silva Falcão, como está escrito. Eu referi na apresentação memorial o nome do meu tio Engº Mário M. e Silva Falcão como o confidente de toda a sua vida, e explicador de matemática e fisica. Obrigado.
Boa tarde.
Agradeço o seu esclarecimento. Já se encontra retificado no texto.
Com os melhores cumprimentos,
Joana Rita Santos
Maria de Lourdes Pintasilgo trabalhou no Centro de Investigação da Companhia União Fabril (CUF) antes de se tornar presidente da República. Ela foi engenheira química de formação e começou sua carreira profissional na CUF, onde contribuiu para a pesquisa e desenvolvimento industrial. Esta experiência na CUF foi parte importante de sua trajetória antes de entrar na vida política e eventualmente se tornar a primeira e única mulher a ocupar a presidência de Portugal até hoje.
A reportagem pareceu boa, defrontando-se briosamente com o viés do dr. Paulo Falcão Tavares. é verdade que a engª Maria de Lourdes Pintasilgo foi religiosa e não laica, chegando a fundar em Portugal o grupo do Santo Graal. Tinha uma personalidade forte, corajosa e leal, sendo um evidente desprimor a afirmação falsa de que era “um Salazar com saias”. Funcionou nas antípodas da Opus Dei , defendendo a emancipação da mulher e os seus direitos , nomeadamente, defendendo-a na violência doméstica e na liberdade reprodutiva e social.
Não foi filiada no Partido Socialista, isso nunca foi afirmado em lado nenhum, mas inscreveu as suas posições no centro esquerda e na esquerda não comunista , possuindo um desejo de mudar a sociedade no que ela tinha de injusta, desigual e opressiva como é caraterística de toda a esquerda.
Finalmente, a sua personalidade escrupulosa impedia-a de usar cunhas . O episódio em que o nome do meu pai é referido é verdadeiro, merecendo os maiores elogios por se tratar de um ato da
mais elementar justiça para com os técnicos superiores farmacêuticos de Patologia Clínica; tal como o meu pai, a senhora engenheira era uma mulher de uma grandeza ímpar.
Obrigado.