Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?
(Fernando Pessoa)
Todos os anos, no terceiro fim de semana de Julho, a minha aldeia põe-se ainda mais bonita: muros caiados de branco, folhas de palmeira nas Fontes, casquilhos e cordéis de flores de todas as cores a cruzar ruas e largos. Durante 4 dias, a contar de sexta e até à segunda-feira seguinte, interrompe-se a rotina e a quietude: o fim de semana é de festa e alegria.
Os preparativos começam manhã cedo na recolha de rama de eucalipto, que sem ela não cheira a festa, para os últimos arranjos no Largo, arraial devidamente enfeitado e iluminado para o arranque dos festejos. Na aparelhagem já passam os sucessos populares do costume e assim será em modo repeat até ao fim da festa, exceção feita à tarde de domingo, momento em que decorre a missa e a procissão.
As arcas começam a ser atestadas, há testes de luz e som, penduram-se as últimas bandeirinhas, desempoeiram-se mesas e cadeiras, aos poucos vai chegando quem vive longe. Que comece a festa!
No sábado de manhã solteiros e casados dão pontapés na bola e nas canelas, à tarde há torneios de cartas e passeios de motorizada e à tardinha aviam-se bandejas de caracóis e pires de tremoços, cerveja gelada e senhas para os jantares. Há trabalho de sobra para todos.
Limpezas, refeições, serviço de mesas, caixas e balcões: as escalas são feitas com antecedência e em cada dia há pelo menos quatro equipas de voluntários a assegurar o tanto que há para fazer. O mesmo se passa em torno da Igreja, que a celebração também é religiosa. Sem espírito comunitário não há festa.
De sábado para domingo há quem não vá à cama. Do arraial segue-se para o Peditório da Manta, percurso feito de casa em casa, coisa para demorar a manhã inteira, novos e velhos a comandar a fanfarra, do Parreiral ao Cimo da Bica.
À tarde celebra-se a missa em honra da padroeira da aldeia, a Senhora da Luz, que percorre algumas ruas em procissão, e só depois é chegada a hora da venda dos produtos das fogaças, tudo caseiro. Dos fornos a lenha saem deliciosas tigeladas, ‘ferraduras’ e bolos da ‘porta do forno, cavacas, ‘beijinhos’ e suspiros. Não falta o pão caseiro, o mel, os queijinhos frescos ou os ‘da tábua’.
Ao final da tarde sobe o rancho ao palco, a grande atração dos avós, enquanto os gaiatos desenrolam rifas na quermesse e fazem fila para os insufláveis. Ao serão o bailarico repete-se, hoje sem o espetáculo, os apertos ou a genica dos dias anteriores.
E eis que chega, finalmente, a segunda feira da festa, o dia em que toda a aldeia se une na tarefa de preparar e servir a sua já famosa chanfana. Quem chega não parte sem a provar, que à boa maneira portuguesa há sempre lugar para mais um.
As cabras, as batatas, os pepinos e tomates, o azeite, o tempo e a dedicação, tudo é oferecido. Está-nos na alma esta vontade de bem receber, esta alegria de ver o salão encher-se, esta disponibilidade para participar, ajudar, fazer a festa e coroá-la com o melhor que temos: os produtos da terra e o afeto sincero, ainda que por vezes tímido e disfarçado.
É o jogo da vassoura que encerra oficialmente os festejos; findo este improvisa-se uma espécie de karaoke, ninguém liga à desafinação, vai-se à cozinha buscar as sobras, partilham-se os restos e o cansaço, o sono e os últimos cartuchos, que a aparelhagem vai ser desligada. A missão está cumprida, para o ano há mais.
