Créditos: James Orr / Unsplash

Cá em casa estamos todos bem, pelo menos no que diz respeito à saúde física. Li algures que os psiquiatras já vieram dizer que durante este período de isolamento é normal falarmos com as plantas e os animais domésticos e, por isso, acho que a nível mental também estamos bem. Ainda assim, nem as plantas nem os peixes nos respondem, o que está a deixar-nos preocupados.

Outra preocupação digna de registo é a quantidade e variedade de comida disponível no frigorífico. As miúdas estão sempre com fome – e é certinho que pedem sempre aquilo que os adultos se esqueceram de encomendar – e eu e o pai delas estamos sempre a petiscar, o que me leva a acreditar na teoria do vamos ficar todos gordos, malucos e tesos.

E isto porque estamos os 4 confinados ao nosso pequeno T3, 2 em teletrabalho, 2 com energia extra, todos fartinhos desta clausura inesperada, das notícias assustadoras da pandemia, das birras e da falta de paciência. Resta-nos aguentar, e ficar em casa.

Agora mesmo, enquanto estendia a roupa ao sol, dei conta que está um dia fantástico lá fora. As árvores da praceta em frente já começaram a florir e oiço pássaros cujo canto não reconheço. A natureza segue, portanto, com as suas rotinas, completamente imune às bichezas que andam por aí e à nossa ausência. Felizmente não depende de nós para continuar. Para a natureza, todos os dias da semana são e sempre foram iguais. Segunda, quinta, sexta, tanto lhe faz. Mas e a nós, o que no resta quando nos perdemos na contagem?

Um dia levamos as crianças à escola, e no dia seguinte já não. Um dia brincamos com elas no parque, e no dia seguinte o portão está fechado a cadeado. Um dia paramos na pastelaria do bairro para lanchar, e no dia seguinte já não. Um dia vamos às compras normalmente, e no dia seguinte há um polícia à porta do supermercado.

Interromperam-se todas essas rotinas, indispensáveis mas cansativas, de que passávamos os dias a reclamar: natação às segundas, karaté às terças, yoga às quartas e música às sextas, compras e passeios ao fim de semana. A correria é agora diferente.

Há que conciliar reuniões à distância enquanto a mais velha faz os deveres e a mais nova lê um livro, ou enquanto ambas veem um filme, saltam no sofá ou vão para a janela cumprimentar quem passa, pedindo-lhes também que fiquem em casa. Há que limpar, aspirar e cozinhar enquanto fazemos ou atendemos telefonemas e isso enquanto lhes pedimos a elas que falem baixo, estejam quietas, não gritem, parem de desarrumar. Nenhum de nós vai alguma vez esquecer estes dias.

São tempos novos e estranhos, carregados de medos e incertezas, mas também feitos de histórias felizes. Histórias de pessoas que se oferecem para ajudar vizinhos ou desconhecidos, pessoas que saem para as varandas e terraços para apanhar sol e se cumprimentam, pessoas que todos os dias batem palmas à janela aos profissionais de saúde, pessoas que oferecem máscaras e gel desinfetante a quem precisa, pessoas que fazem doações generosas a hospitais e a outras instituições semelhantes, pessoas que se põem a produzir viseiras gratuitamente, gente que oferece online aquilo que pode: música, livros, aulas, workshops. As redes sociais, nascidas muito antes da internet, são na verdade isto mesmo: partilha.

Por agora, isto e os sonhos que o futuro há-de afinar, é quanto nos basta.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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