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Costuma dizer-se que quem não vota deixa que os outros decidam por si. Esta frase tem particular sentido nas eleições autárquicas, onde por vezes a diferença entre quem perde e quem ganha é decidida por meia dúzia de votos.

Há quatro anos, foram muitos os concelhos onde a abstenção saiu vencedora, com mais de metade dos eleitores a preferir não votar. Tem havido um afastamento crescente entre os cidadãos e a política local, quando estas são as eleições que mais diretamente afetam a vida das comunidades.

Afinal, é nas autárquicas que se decide como são as refeições das escolas, a recolha do lixo, os transportes públicos, o acesso à cultura, ao desporto, a apoios sociais, e a tantos outros bens e serviços que definem a qualidade de vida das populações.

Se ainda não tomou a sua decisão, convidamo-lo a saber mais sobre as candidaturas que vão estar impressas nos boletins de volto, a espreitar as notícias que fomos publicando nos últimos meses no nosso especial Autárquicas 2025, e a ver ou rever no nosso canal de YouTube o debate entre os candidatos do seu município, que organizámos nos 11 concelhos da região do Médio Tejo.

Foi por entendermos que é fundamental para a democracia poder votar em consciência que voltámos a organizar esta ronda de debates. Vote em quem votar, vote informado. Vote até em branco, se não conseguir decidir-se. Mas vote. Não deixe que outros decidam por si.

Quanto vale a fidelidade a um partido?

No domingo não faltarão comentadores a procurar tirar conclusões nacionais sobre eleições locais. Mas a escolha dos eleitores não segue a mesma lógica em eleições legislativas e autárquicas. Enquanto nas primeiras o voto tende a refletir preferências ideológicas e partidárias, nas segundas tem um peso preponderante quem é o candidato. Não é invulgar ter eleitores fiéis ao PSD a votar num candidato da CDU, por exemplo, ou militantes do PS a optarem por dar o seu voto a movimentos independentes de cidadãos.

Há uma relação mais pessoal e concreta entre o eleitor e o eleito – sobretudo nos municípios mais pequenos, onde um candidato é geralmente alguém conhecido da população, e tem de ser um representante próximo, acessível, e não apenas alguém que faz parte de uma máquina partidária. A personalidade, reputação e afinidades, bem como o sucesso profissional em áreas fora da política, são muitas vezes fatores decisivos.

Contudo, o partido que está no poder a nível nacional costuma sair beneficiado nas eleições locais, por haver o entendimento de que será mais fácil obter apoios para os municípios “da mesma cor” – um sinal que Luís Montenegro reforçou no último dia de campanha, quando pediu aos portugueses para “votarem nos candidatos mais alinhados com o Governo”.

O líder do PS insurgiu-se de imediato, considerando o primeiro-ministro cometeu “um crime”. José Luís Carneiro entende que, com essas declarações, Luís Montenegro está “a partidarizar o Estado e a violar o dever de isenção e imparcialidade, que é um dever constitucional”.

Quanto vale o Chega?

Nas legislativas de 18 de maio, o Chega ficou em primeiro lugar em mais de 50 concelhos e passou a segundo partido nacional. Agora, quer fazer história a nível local, e por isso leva a votos 58 dos 60 deputados que ganharam lugar no Parlamento, embora nem todos à presidência de Câmara – vários concorrem à Assembleia Municipal ou integram as listas locais do partido em posições mais modestas.

O Entroncamento, onde em 2021 foi eleito um vereador do partido, poderá ser um dos concelhos a estrear-se com um presidente de Câmara do Chega – por isso foi também a cidade eleita por André Ventura para marcar presença na região, nestes últimos dias de campanha eleitoral.

O Chega candidatou-se pela primeira vez nas eleições autárquicas há quatro anos, tendo eleito 19 membros para vários órgãos, entre vereadores e deputados municipais. Destes, 11 renunciaram aos mandatos ou abandonaram o partido, tendo-se tornado “independentes”.

Vários analistas defendem que o peso do partido depende muito da figura do líder e que, por isso, será difícil ter a nível regional resultados próximos dos obtidos nas eleições legislativas. André Ventura sabe disso, e por isso surgiu em todos os cartazes desta campanha autárquica, ao lado de cada candidato local. Se resultará, só saberemos no próximo domingo.

3 curiosidades sobre estas eleições

  1. Segundo a Lusa, chegamos a estas eleições com 27 municípios (em 308) que nunca mudaram de cor partidária. Na região do Médio Tejo há apenas um caso: o de Mação, governado pelo PSD desde as autárquicas de 1976.
  2. O candidato a presidente de Câmara mais novo da região é João Morgado, do PSD, que tem 25 anos e concorre em Abrantes, onde o PS venceu as últimas eleições com maioria absoluta. Teve por isso direito a uma mensagem especial de Luís Montenegro, no Instagram, e a visita, no último dia de campanha, do eurodeputado Sebastião Bugalho, que também foi o mais jovem eleito nessas funções.
  3. São 53 as candidaturas às eleições autárquicas de 12 de outubro nos 11 municípios do Médio Tejo. PS, PSD (sozinho ou em coligação), CDU e Chega são os únicos partidos que concorrem a todos os concelhos. Há quatro listas independentes na corrida, a par de duas do Livre e do BE, e uma do Volt.

No domingo pode contar connosco para acompanhar minuto a minuto os resultados das eleições. Teremos um liveblog aberto onde iremos atualizando os dados sobre todas as freguesias da região, até que se conclua a contagem nos 11 concelhos do Médio Tejo e possamos saber quem governará cada município nos próximos quatro anos.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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