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No final da campanha de 2023, prevê-se um bom ano de produção de azeite, podendo repor a quebra que existiu na produção do ano passado. Devido à seca, a campanha foi fraca, praticamente não houve azeite, afirmam os produtores. Pelo contrário, de acordo com as previsões agrícolas do Instituto Nacional de Estatística (INE), este ano, a produtividade de azeitona para azeite deverá subir 20%, face ao ano passado.

Apesar da satisfatória produção olivícola, as notícias não são muito animadoras para os consumidores de azeite, devido ao aumento dos preços. Com o Natal à porta, comprar uma garrafa de 75 centilitros de azeite virgem extra obriga a uma despesa superior a 10 euros. As contas são da DECO PROTeste, que revela um aumento do preço na ordem dos 80%. Entre 23 de novembro de 2022 e 22 de novembro de 2023, o azeite aumentou 4,49 euros.

Contudo, por terras do Médio Tejo, ainda se encontram preços mais contidos. Os dois produtores de azeite que o nosso jornal contactou – Azeites Val Escudeiro, na Chaminé, e a Cooperativa de Olivicultores da Freguesia de Alvega, ambos no concelho de Abrantes – vendem o azeite virgem, neste momento, a 9 euros o litro, ou seja, 45 euros um garrafão de cinco litros. Em 2022, os mesmo cinco litros eram vendidos entre 25 e 30 euros.

A explicação para a acentuada subida do preço do azeite prende-se essencialmente com os custos de produção, garante Joaquim Catarrinho, mestre lagareiro da Cooperativa de Olivicultores da Freguesia de Alvega.

“Em vez de comprarmos azeitona a 60 cêntimos o quilo, comprámos a 97 cêntimos, a carga de bagaço em vez de 65 euros passou para 75, cada hora, o transporte das águas russas passou de 65 para 70 euros, o caroço para queimar passou de 13 cêntimos, em 2022, para 20 cêntimos o quilo. O preço da eletricidade e da água fez inflacionar” o preço do produto final, ou seja, do azeite, explicou.

Também Pedro Santos, gestor de produto dos Azeites Val Escudeiro, atribui a subida do preço do azeite aos “custos de produção” à “procura do produto no mercado”, por parte do consumidor interno. Na verdade, os preços são variáveis, dependendo do produtor e da zona do País, havendo quem venda a 55 ou mesmo a 60 euros o garrafão de cinco litros.

“Os custos de produção aumentaram; eletricidade, transportes, custos com pessoal, matéria prima. Houve um aumento geral dos produtos. O preço da azeitona também aumentou para o dobro, às vezes para o triplo”, afirma dando conta que “o clima” também entra nesta equação.

Além disso, outubro foi um mês chuvoso, absorvendo o fruto “muita água. Os rendimentos são mais baixos”, ou seja, quem compra “tem de pagar mais pela azeitona, porque pesa mais” retirando “o mesmo azeite”, logo “o litro de azeite fica mais caro”, explica o gestor de produto.

Foto ilustrativa: Pixabay

Constata-se que preço do azeite aumenta, há vários meses consecutivos e, para já, não há sinais de abrandamento, antes pelo contrário. Certo é que, o défice de produção de azeite a nível internacional têm reflexos em Portugal, permitindo o aumento do preço. Por exemplo, em Espanha a campanha não é boa, e sendo o país vizinho o maior produtor mundial, acaba por definir os preços no mercado.

“A procura do produto é muito grande. Tanto os espanhóis como os italianos tiveram baixa produção. São grandes produtores; no ano passado tiveram 40% da produção e este ano 50%”. Além disso, relembra o gestor de produto, “a certa altura o óleo esteve ao preço do azeite e os clientes em vez de consumirem óleo optaram por azeite”. O preço do óleo, entretanto, baixou “mas as pessoas já não conseguiram voltar ao óleo. Agora consomem azeite; é mais essa quota de mercado que consome mais produto. Tudo isso influencia o preço”, justifica.

Apesar de uma melhor produção a nível nacional em relação ao ano transato, Pedro Santos estima que os preços do azeite vão continuar a subir, ultrapassando os 12 euros por litro, a curto prazo.

Certo é que, o elevado preço no azeite, não retira consumidores ao produto, apenas diminui a exigência no que toca à “qualidade” do azeite, de acordo com o responsável da empresa. “Os clientes procuram preços mais baratos, não procuram grande qualidade”.

No entanto, nos Azeites Val Escudeiro essa tendência nem sempre se nota. “Temos de tudo! Há semanas que vendemos o produto mais caro, há semanas em que vendemos o mais barato. É variável. Depende do cliente; se é consumidor final, se é restauração, se é hotelaria, se é um armazenista”, detalha.

O setor da hotelaria e da restauração é o principal cliente dos Azeites Val Escudeiro, graças ao Canal Horeca, mas Pedro Santos refere que a marca “é procurada também pelo cliente final, conhecida por todo o País pela qualidade” devido essencialmente “à azeitona galega e ao olival tradicional. Por ser azeite extraído a frio, é por aí que nos diferenciamos”.

Além disso, o “cuidado com a higiene e limpeza é fundamental”, sublinha.

A azeitona espera para ser moída no pátio da Cooperativa de Olivicultores da Freguesia de Alvega (Abrantes). Créditos: mediotejo.net

Depois de uma má colheita em 2022, devido essencialmente à situação de seca e a outros fenómenos climáticos extremos no País, por contraditório que possa parecer, este ano, as chuvas de outubro representaram um papel determinante na safra nacional, igualmente pela negativa.

A operação dos lagares de azeite iniciou-se mais cedo devido “ao adiantamento do ciclo vegetativo das oliveiras”, registou o INE.

A colheita iniciou em outubro porque a azeitona parecia madura “mas não amadureceu. Ficou preta, o que é diferente. A cor da azeitona difere do amadurecimento, por dentro estava verde”. Ainda assim, a produção de azeitona aumentou em 40%, segundo o lagareiro de Alvega, que tem recusado comprar azeitona. “Pediram-me 1,5 euros o quilo de azeitona. Então vendia o azeite a que preço?”, interroga.

Alterações climáticas à parte, para Joaquim Catarrinho os produtores e olivicultores “deviam saber que não se deve apanhar azeitona em outubro. Ainda não tem azeite. Este ano tinha muita água, estava muito pesada”.

Assegura que até 10 de novembro, a Cooperativa de Olivicultores da Freguesia de Alvega “não retirou nenhuma percentagem acima de 9,5%. Agora estamos a tirar entre 15% a 16%” de azeite da azeitona que dá entrada no lagar, explica o mestre lagareiro.

No lagar da Cooperativa, onde toda a linha de extração é automatizada, um cesto ventilado (o nome oficial é tegão), suporta 600 quilogramas de azeitona, mas este ano, “em outubro, pesavam 610 a 620 quilos, muito mais pesado. Neste momento, a azeitona não tem água e desfaz-se em azeite”.

Embora, o azeite novo, que agora verte para as cubas de 400 litros para ser envasilhado e pronto para ser consumido, “não é de maior qualidade que o primeiro”, ressalva. Isto porque “neste momento há alguma azeitona misturada que não está tão sã. A primeira saiu entre 3 a 4 décimos e agora tiro entre 8 décimos e 1,2. Tem maior acidez”, reconhece.

O lagareiro que ainda na manhã da nossa visita ao lagar, laborou oito toneladas de azeitona, acredita que o preço estabilizou mas com a inflação “nunca se sabe!”. O lagar da Cooperativa estará a laborar até que os sócios “tragam azeitona para moer. Tem vindo muita gente de Tolosa (Nisa)”.

A oliveira e o azeite fazem parte da essência do Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

Mas Joaquim Catarrinho sabe que o azeite nacional atrai cada vez mais compradores estrangeiros, nomeadamente de Espanha, uma vez que a seca extrema no país vizinho levou à quebra das colheitas e da produção de azeite, e por isso atribui o início da subida de preços do produto ao facto dos espanhóis comprarem azeite e azeitona em Portugal.

Conta que, no final de outubro, “um armazenista ofereceu 8 euros por cada quilo de azeite. Veja lá ao preço que o iria vender”, declara surpreendido.

Lagareiro há mais de 20 anos, confessa nunca ter imaginado que um litro de azeite pudesse, em tão pouco tempo, atingir o preço de 10 euros por litro.

“Em 2019 e 2020 cinco litros de azeite custavam 25 euros. Também é verdade que não me lembro de pagar por um quilo de azeitona 97 cêntimos. É um exagero completo! Em mil quilos, se não tiver pelo menos o rendimento de 15%, a que preço vai ser vendido o azeite? Está estipulado os 45 euros, para ser mais caro não vendo”, vinca. No entanto, afirma que os clientes “levam todo o azeite”.

Em Espanha, o preço do azeite – um dos produtos essenciais na dieta mediterrânica – atingiu níveis recorde nos últimos meses. Sendo o país onde o preço mais subiu, em toda a União Europeia. Em Portugal já cheira a Natal cá, a consoada aproxima-se, onde não faltará o fiel amigo regado com famoso “ouro vegetal”, designação que, na realidade, parece nunca ter feito tanto sentido.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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6 Comments

    1. O azeite não está caro, as pessoas é que são pobres. O trabalho da apanha é muito duro e as vezes em condições atmosféricas penosas. Os fatores de produção subiram todos. Neste momento compensa tratar, cuidar e colher azeitona. A 25 EUR o garrafão não compensa.

  1. Lá temos de voltar ao óleo como antes, mas esse também está caro. Banha de porco derretida, mas engordar os porcos tbm não fica barato!!!!
    Comemos sem azeite, óleo e banha!

  2. Vamos ter de comprar o mínimo, só para percebermos, o último garrafão de azeite que acabei em meados de novembro custou-me 30€, os anteriores foram a 25€, pó que tenho para abrir, penso que a seguir ao Natal, já me custou 75€, ou seja há um ano eram 25, agora 75€, e, atenção, não vai parar até chegar aos 20€/lit, falando de azeite BIO certificado.

  3. ponham se a subir o preço e parem o consumo e depois começam a ficar com ele armazenado para iluminação…..

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