Não te conheço o teu pote! Não sei onde arrumas O pote! O pote! Não passas de um pote de duas pernas! Estas e outras expressões onde o pote é elemento principal faz ressaltar quão importante foi o pote, os diversos potes, nas ates culinárias de outros tempos e ainda na qualidade de depositário de produtos secos ou conservados em líquidos de várias qualidades e proveniências.
Uma coisa é um pote de três pernas, rechonchudo ou barrigudo na parte superior de boca mais estreita, de ferro, levando uma tampa à moda de boina, outra é um potezinho de porcelana onde se coloca chá (às vezes para enganar bebidas fortes), ou ainda o pote com um rolhão de cortiça de forma a cura das azeitonas não sofrer alterações.
O pote de ferro indispensável para se cozinhar o «galo no pote», ou o famoso pot-au-feu (pote no fogo) cozinhado onde entram carnes variadas, vegetais e temperos guisados durante horas e que é sobejamente apreciado no espaço da cozinha popular francesa. Por cá o pote é muito considerado (apesar das transformações ocorridas) na qualidade de recipiente preparado para suportar horas e horas a premência de fogo destinado a cozer carnes fumadas, leguminosas, vegetais duros e carnes de aves idosas e provenientes de caça grossa. Nesta época os potes ainda povoam os lares e as lareiras de inúmeras casas transmontanas pois é neles que se fazem os afamados rojões e outras vitualhas resultantes da matança do porco.
No domínio dos caldos e das sopas os potes também não largam o seu prestígio a favor de panelas de alumínio, sapientes e salivados experimentadores afiançam serem as sopas roncadas, escornadas e grasnadas muito mais saborosas quando confeccionadas em tais instrumentos, o mesmo dizem as mestras cozinheiras especialistas na sua exposição ao fogo conforme o andamento das cozeduras, especialmente no tocante a ensopados e feitura de arrozes, incluindo o arroz-doce tão celebrado no âmago da cozinha rural portuguesa.
Nos dias de hoje, nos centros urbanos, o pote foi exilado para o sector dos bibelôs, de quando, em quando, limpam-lhe o pó, nunca mais foi esfregado com cinza, em suma ascendeu à categoria de idoso que ocupa espaço, não tem préstimo útil, museologicamente é um semióforo.
Eu conheço casas de comeres onde várias receitas são executadas nos potes, no entanto, mesmo nessas «capelas culinárias» os potes vicejam no oratório porque para vincarem plenamente as suas virtudes obrigam à existência de lume de lenha e dão muito trabalho a lavar. O progresso tem custos, o pote enquanto pote vai desaparecendo pouco a pouco.
