O título desta crónica no quotidiano das pessoas vale como advertência, como chamada de voltar à realidade, como palmatoada sem a palmatória, quantas vezes pronunciada contra o visado de forma a quem a ouvir em redor o castigar lembrando-lhe a origem ou estatuto social.

Ora, este – pôr no seu lugar – no tocante à restauração é um termo técnico englobando o conjunto de operações no restaurante antes da organização propriamente dita de cada tarefa, o que na sala significa pôr as mesas devidamente ataviadas e suas adjacências, e na cozinha conferir e acantonar no seu lugar os ingredientes e utensílios indispensáveis à confecção de cada um dos pratos constantes da ementa.

De uma forma geral compete ao aprendiz assegurar a conveniente apresentação dos legumes, dos ramos de cheiros, cortar as cebolas e picar as salsas. Por seu turno cabe ao chefe ou quem desempenhe funções dessa talha na equipa preparar e confeccionar molhos, compotas, caldos, sopas, carnes, peixes e sobremesas de forma ordenada e apresentadas no seu lugar.

Obviamente, esta disciplina em variadíssimos restaurantes e casas de comeres não é cumprida mormente quando o gerente ou proprietário alheio às funções não se coloca no seu devido lugar intrometendo-se no desempenho de cada elemento da equipa originando distorções de vulto no bom desenrolar do serviço.

Certamente, o leitor já verificou quão desagradável e ineficaz é ver os alheios à disciplina na cozinha e na sala «meterem a foice em seara alheia» só porque são os «patrões» revelando falta de senso, isto porque quando as coisas correm mal são lestos a atribuírem as culpas aos profissionais sabedores sobre qual é o seu lugar.

As quebras na disciplina originam desconforto na equipa dando azo a repentinas saídas principalmente quando os envolvidos gozam de sólido prestígio no universo da restauração, não vou dar exemplos disso mesmo, no entanto é público e notório o «afundamento» de inúmeros restaurantes por tais razões.

Um restaurante leva muito tempo a impor-se, porém basta um desaguisado na sala ou na cozinha para fenecer, é longa a lista dos desaparecidos porque a falta de sentido do lugar ocupado por cada um redunda em desastre.

A melhor forma de «castigar» o restaurante é deixar de o frequentar, por assim ser não sou peco na matéria, desde o me terem «enganado» no preço de um vinho, servirem-me fataça dizendo ser corvina, perca falsamente chamada cherne, pratos mal confeccionados, até à inclusão na conta de matérias não consumidas (vulgo entradas) possuo um forte rol de casos a justificarem o referido abandono. Acredito que o leitor também os terá, por essa evidência sugiro-lhe proceder como eu.

 

  1. A última suspensão de refeiçoar durante um ano em determinado restaurante aconteceu porque o prato de bacalhau revelava incongruências de ter sido confeccionado conforme ditava a receita nomeada na carta de comeres.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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