OS populares que aproveitaram o Dia da Espiga para socializar junto à nascente do Almonda, em Torres Novas, foram visitados e identificados pela GNR após uma denúncia de “invasão de propriedade privada”. O movimento Um Coletivo, que organizou o convívio, diz que o espaço é público, e a concelhia do BE manifestou “indignação” pela “atitude intimidatória perpetrada pela empresa Renova”, que vedou o local há alguns anos, reclamando o espaço como seu.
“A Renova continua a dizer que a água da nascente é privada, que lhes pertence, e nós continuamos a dizer que a água de qualquer rio é pública e como tal qualquer cidadão que queira dar um mergulho na nascente pode fazê-lo à vontade, independentemente do que a Renova diz”, reagiu o movimento Um Coletivo na sua página online, organização que convidou a população a passar o Dia da Espiga junto à nascente do Almonda, na zona de Zibreira.
“Esta quinta-feira, Dia da Espiga, estaremos na nascente a assinalar que os rios e as suas nascentes devem ser de todos, e usados para proveito de todos. O rio Almonda e a sua respetiva nascente também terão de ser. Contamos contigo”, convidou o movimento ‘Um Coletivo’, para assinala um dia em convívio e tradição, com apanha da espiga, picnic e mergulhos na nascente do Almonda.
A situação não é nova, tendo a empresa Renova – Fábrica de Papel do Almonda, sediada em Torres Novas, instaurado em 2023 uma participação criminal por “vandalização” e “invasão de propriedade privada” contra vários cidadãos que passaram o ‘Dia da Espiga’, feriado municipal em Torres Novas, junto à nascente do Rio Almonda, onde a empresa capta a água para a sua laboração.
Os 12 cidadãos acusados afirmaram em sua defesa estarem legitimamente em espaço público e o que é certo é que o Ministério Público mandou arquivar por falta de provas a participação movida pela empresa Renova.




Este ano surge nova denúncia de invasão privada, o que motivou a ida da GNR ao local, por duas vezes, disse ao mediotejo.net Pedro Ferreira, do Um Coletivo.
“Estiveram no local duas patrulhas da GNR, que disseram ter recebido uma denúncia de invasão de propriedade privada. uma da Golegã, cerca das 17h00, que nos ouviu e foi embora, e outra que veio mais tarde, de Alcanena, cerca das 18h40, e que começou a fotografar os carros ali estacionados e a identificar a pessoas. Umas aceitaram ser identificadas e outras não, mas ninguém foi detido e o convício fez-se com cerca de 20 a 30 pessoas, que por lai passaram o dia. Foi mais uma tentativa de intimidação”, afirmou Pedro Ferreira.
Em comunicado, a concelhia do Bloco de Esquerda (BE) de Torres Novas manifestou a sua “indignação” com o que afirmou ser uma “atitude intimidatória perpetrada pela empresa Renova”.
“Pouco antes de completar um ano da queixa apresentada pela empresa Renova contra 12 cidadãos, o Ministério Público arquiva este processo. Falhou esta tentativa de intimidação para que se desista de visitar e desfrutar da nascente do Almonda, um bem público de todas e todos”. Refere o BE na nota enviada às redações.
“À semelhança do que aconteceu nos últimos dois anos, o coletivo ambientalista “Um Coletivo” voltou a organizar um evento junto à nascente, no dia 9 de maio, Dia da Espiga e feriado municipal. As pessoas compareceram no local sem se intimidarem com as ações anteriores da Renova. No entanto, surpreendentemente, por volta da hora de almoço, dois militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) do posto da Golegã apareceram no local e, após analisarem a situação, abandonaram o local sem tomar qualquer medida”, indica o BE.




Segundo a concelhia torrejana daquele partido, “horas mais tarde, outros dois militares da GNR, desta vez do posto de Alcanena, foram ao local e procederam à identificação dos cidadãos presentes sob a alegação que estariam a cometer o crime de invasão de propriedade privada”, tendo indicado que, “na origem de ambas as deslocações da GNR, estiveram queixas da Renova”.
Para o BE, “é importante relembrar que, em 2021, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) declarou que a água é pública”, tendo afirmado que a empresa Renova “tentou intimidar” a população.
“Mais uma vez, a empresa tentou intimidar a população que quer usufruir da nascente do rio Almonda, demonstrando um total desprezo pela vontade dos torrejanos e inclusive pela decisão da Assembleia Municipal que aprovou, apenas com uma abstenção, uma Recomendação à Câmara, para que aquele local seja arranjado e de acesso para todos. A Renova opta pela intimidação e repressão e não se coíbe de usar indevidamente e de forma abusiva o sistema judicial”, pode ler-se no comunicado.

Tendo feito notar que “o rio é do povo!”, o Bloco de Esquerda manifestou “solidariedade para com os cidadãos e cidadãs identificados e continuará, como até aqui, a acompanhar todo o processo e a exigir, nomeadamente da Câmara Municipal uma posição clara e firme que conduza à resolução definitiva desta situação”.
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