Não, nada disso, o leitor não irá ler opiniões e motejos sobre o polvo e seus filhos associados a tramoias e golpes financeiros, prosaicamente trago a terreiro aquele molusco de oito braços, daí ser chamada octópode, enquanto vivo a provocar gritinhos nas meninas casadoiras caso um dos seus braços se enrosque nos seus níveos ou morenos suportes das mãos.

Como escrevi numa crónica saída no mês de Agosto passado, polvos monstruosos povoam a literatura, o cinema, as representações pictóricas, na adolescência impressionou-me um polvo gigantesco saído da imaginação de Júlio Verne fecundo escritor praticamente desconhecido nos dias de agora.

A cabeça do polvo possui um bico córneo, os tentáculos as «arrepiantes» ventosas, a sua carne branca e fina enriquece numerosas criações culinárias. É aconselhável a ser previamente bem batida, depois branqueada, a seguir preparada de igual modo à do lavagante, asseguram os grandes chefes. As mulheres Mestras da ruralidade portuguesa afastadas do brilho dos chefes, também assentam violentas batidas nos polvos, a seguir ousam trabalhá-los nas várias cozeduras, desde assados a guisados, implicando-os ainda nas frituras, nos estufados, até nas grelhas, a sós ou em companhia de fungos, frutas, legumes, tubérculos e raízes.

No Norte os polvos fritos em polme delicado deram e dão fama as múltiplas casas de comeres, no Centro e Sul assados e em caldeiradas, no Sul as suas ovas são muito apreciadas, nos Açores é grande a fama de polvo guisado em vinho de cheiro (morangueiro), pessoalmente, nada tenho contra uma das sete cozeduras, apenas me interessa se chega à mesa bem preparado.

Em Cabo Verde, na ilha de Santiago, ganhei graves momentos de prazer ao degustar rabos de polvo estufados num molho de magníficos aromas e sabores na companhia de arroz branco. No Gabão impera a cozinha de estirpe francesa, por isso o polvo à Provençal é iguaria nos restaurantes de maior categoria da capital. Mais perto, sugiro uma escapa até à Galiza, nessa região o polvo é marca comestível emblemática. Álvaro Cunqueiro e Pepe Iglésias salientam-se como autores de obras onde o polvo é elogiado na qualidade de alimento de pobres e ricos, especialmente na sua fórmula mais prosaica, o polvo à moda da feira.

Nesses ajuntamentos de pessoas com o intuito de comerciarem, o polvo aparecia sobre as mesas de ocasião cortado às rodelas, a ressumar alguma água em escudelas de madeira, tenro, polvilhado com grãos de sal e pitadas de colorau. Uma pitança de primeira grandeza a suscitar vinho seivoso procedente dos parrais galegos. Por cá encontramos o polvo à moda da feira nos restaurantes especializados em comida espanhola e casas de tapas. É tudo uma questão de procurar.

Deixo de lado outras peregrinações polveiras, vou degustar filetes de polvo frito em amigável casamento com arroz e com feijão vermelho. Antes, uma salada de pontas de polvo em vinagreta. E espero que me aproveite.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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