Todas as semanas somos confrontados com relatos dramáticos de resgates de emigrantes no Mediterrâneo, viajando em condições sub-humanas de segurança e empilhados como sardinhas, quais navios negreiros dos nossos dias. São a face visível de um drama em várias fases, de que visualizamos, apenas, os incidentes terminais. Terminais em absoluto, aliás, para muitas destas pessoas.
Dá isto, depois, origem a acaloradas discussões entre os partidários de uma maior abertura migratória e outros que veem aí males visíveis e invisíveis, que justificam o seu não acolhimento. E, enquanto isso, dezenas vão morrendo no percurso. No mar e não só.
Milhares enganados por ”agentes” sem escrúpulos, perdendo o que têm e que não têm e, quantas vezes, vendo morrer na praia o ideal paradisíaco (ou visto como tal) que, tão desesperadamente, buscam.
Alegam-se, num noutro sentido, inseguranças, radicalismos, choques culturais e pressupostos económicos que xenofobias diversas enquadram. Não se vislumbrando, contudo, contornos de possível solução.
Dentro dos respetivos pressupostos ideológicos e tendo o cuidado de apontar argumentos que, mesmo que tecnocratas, não fogem daquilo a que podemos chamar o politicamente correto. Vamos, então, na medida do necessário ser politicamente incorreto, e colocar as questões, nuas e cruas, que situação exige.
Existe um incremento, potencial, de insegurança resultante de uma sociedade cada vez mais pluricultural? Existe.
E isso é mais evidente se, tais multiculturalidades, incluírem um número considerável de populações muçulmanas? Provavelmente.
Devemos então fechar as nossas fronteiras às populações pobres que de África e de Ásia demandam a Europa (como, do sul da América, demandam o norte), em condições miseráveis, muitas delas nunca chegando a chegar? Não!
Devemos abrir, incondicionalmente, as mesmas a tais populações que, pelo Mediterrâneo e Atlântico, chegam à Europa provocando melhores condições de vida? Também não.
Será que devemos impedi-los de atracar nos portos europeus? Não!
Deixá-los atracar e depois repatria-los? Mais uma vez, não!
Então, o que devemos fazer?
Naturalmente, criar condições para que os mesmos não sejam obrigados a emigrar em massa. Apenas isso!
O que passa, naturalmente, por ajudá-los a melhorar as suas míseras condições de vida. Nos seus países!
Mesmo sabendo que esta será, sempre, uma solução a médio e longo prazo. E que implicará sempre, de alguma maneira, uma redistribuição diferente da riqueza mundial.
E, obviamente, não obstará a uma continuidade migratória imediata.
Mas, pelo menos, que não continuemos eternamente a contribuir (nem que seja por inação) para o avolumar dos enormes fluxos migratórios atuais. Nos quais, por caridade, nos dispomos a receber alguns indivíduos.
E, por caridade, lhes permitimos trabalhar nas ocupações que já não queremos. Satisfazendo, assim, duas necessidades: o reforço conveniente do nossa imagem caritativa e o ocupar de atividades laborais que estão na base da pirâmide social e, que nas sociedades modernas (ou vistas como tal), carecem de preenchimento.
Mas, continuamos, a não encarar, sequer, o problema essencial. Fazendo desta problemática migratória uma fatalidade: dramática mas, de alguma forma, vista como inevitável. Afinal, como vimos, dá sempre jeito.
De facto, quando vemos os dirigentes das maiores potências militares e economias mundiais, caminhando impassíveis para o suicídio ambiental e provocando alegremente horrendos conflitos bélicos (apenas por vaidades pessoais ou escarninhos interesses de grupo) o que podemos, mesmo, esperar?
