No próximo domingo, 18 de janeiro, passam 96 anos sobre o nascimento de Maria de Lourdes Pintassilgo, em Abrantes. Nesse dia, os portugueses irão também às urnas escolher o próximo Presidente da República. E há precisamente 40 anos, Pintasilgo surgia no boletim de voto das Presidenciais, ao lado de outros quatro candidatos: Freitas do Amaral, Mário Soares, Salgado Zenha e Ângelo Veloso.

Os resultados dessas eleições, realizadas a 26 de janeiro de 1986, ditariam a necessidade de realizar uma segunda volta entre Soares e Freitas, que viria a ficar para a história como uma das eleições mais disputadas de sempre. Esse era um resultado que ninguém poderia antever apenas três meses antes, quando ainda era Maria de Lourdes Pintassilgo que liderava as intenções de voto em todas as sondagens.

A ex-primeira ministra, que se candidatou como independente, surgiu sempre em primeiro lugar na escolha dos portugueses durante quase um ano, mas acabaria por ser vítima de jogos políticos de bastidores, com os partidos que ponderavam apoiá-la a mudarem de ideias perante uma de duas ameaças: a vitória de Freitas do Amaral, que era o candidato unificador da direita; ou a vitória de Mário Soares, apresentado como a “opção possível” da esquerda, que acabava de sair de um dos governos mais impopulares de sempre e iniciou a corrida com apenas 6% de intenções de voto, mas viria a revelar na campanha a fibra de que era feito.

Maria de Lourdes Pintassilgo acabaria por ver a “vitória certa” escapar-lhe em poucas semanas – e acabou por ficar em último lugar, com apenas 7,38% dos votos.

Créditos: Arquivo Ephemera

Quando Pintassilgo apresentou a sua candidatura, cerca de um ano antes das eleições, não foi “pedir licença” ou garantir apoios de partidos, e esse viria a revelar-se um erro fatal. Apresentou-se como independente e queria sê-lo, verdadeiramente. Num dos debates com os seus adversários haveria mesmo de dizer: “Não sou membro de nenhum partido, nunca fui e não penso vir a ser.”

Viviam-se os últimos dias do general Ramalho Eanes na Presidência, com os “eanistas” a ganharem força criando um novo partido político (PRD), que se estreou logo com 45 deputados na Assembleia da República. Maria de Lourdes Pintassilgo era muito próxima de Eanes, tendo sido por ele nomeada primeira-ministra no V Governo Constitucional. Foi depois nomeada conselheira do Presidente, pelo que o apoio à sua candidatura era assumido com naturalidade.

Até outubro de 1985, Pintassilgo liderou todas as sondagens (dados a vermelho)

Mas o apoio que parecia certo nunca viria a concretizar-se. A “culpa” foi, em parte, de Mário Soares. O ex-primeiro ministro do Bloco Central, rosto de tempos difíceis e de austeridade, tinha apenas 6% de intenções de voto quando anunciou a sua candidatura à Presidência da República, mas de mês para mês foi ganhando terreno a Maria de Lurdes Pintassilgo e a Ângelo Veloso, candidato do PCP. À direita, PSD e CDS uniram-se em torno de Freitas do Amaral, que fez uma campanha histórica. Ainda assim, no final de outubro de 1985, a pouco mais de três meses das eleições, Freitas surgia em segundo lugar nas sondagens – atrás de Pintassilgo. Em terceiro lugar, Soares aproximava-se cada vez mais de um objetivo que, poucos meses antes, parecia impossível.

Com o apoio à direita clarificado, era à esquerda que havia decisões a tomar. O PCP, que havia indicado a possibilidade de desistência de Ângelo Veloso a favor de Pintassilgo, começou a temer que a engenheira não fosse capaz de superar Soares. Eanes mantinha-se em silêncio, comentando-se nos bastidores que o PRD ponderava apresentar outro candidato. Além disso, ganhava peso a opinião de alguns setores mais conservadores, que não via com bons olhos a possibilidade de ter uma mulher como Comandante Supremo das Forças Armadas.

E foi assim que, em novembro de 1985, os “eanistas” lançaram na corrida Salgado Zenha – aquele que tinha sido fundador do PS, e nº 2 dos socialistas durante muitos anos, era visto como o único candidato capaz de ombrear com Soares. Álvaro Cunhal concordou, e o PCP acabaria por anunciar a desistência de Ângelo Veloso e apelar ao voto em Zenha.

De repente, Maria de Lourdes Pintassilgo perdia duas grandes bases de apoio. Zenha disparou nas sondagens mas, arrancando tão tarde, só por milagre conseguiria vencer entre os candidatos à esquerda. Acabou, contudo, em segundo lugar, com uns honrosos 20 por cento. Mário Soares conquistou 25% dos votos e os 46% de Diogo Freitas do Amaral não foram suficientes para o eleger à primeira volta.

A segunda volta das Presidenciais foram marcadas para 16 de fevereiro e o confronto Soares-Freitas ficou para a história como um dos mais disputados de sempre. Mário Soares acabaria por ter até comunistas a aceitar “engolir sapos” para o eleger, e a esquerda unida veio a dar-lhe a vitória, com 51,18% dos votos, contra os 48,82% de Freitas do Amaral.

E Pintassilgo? Apesar de desmoralizada com a pouca expressividade dos votos (ela já previa perder, mas esperava ter pelo menos 15 a 20%, e não os 7% com que viria a terminar a corrida presidencial), prosseguiu a sua missão política, sempre como independente. Primeiro como deputada no Parlamento Europeu, entre 1987 e 1989, integrada no Grupo Socialista; depois, entre 1992 a 1994, como presidente do Grupo de Peritos do Conselho da Europa sobre Igualdade e Democracia; e entre 1992 e 1997, foi presidente da Comissão Mundial Independente sobre a População e Qualidade de Vida, tendo ainda integrado vários grupos de trabalho na UNESCO e na ONU na área dos Direitos Humanos.

Até ao final da sua vida, bateu-se sempre pela melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos, pela igualdade e pela democracia.

Casa onde nasceu Maria de Lourdes Pintasilgo ainda sem projeto definido

Passaram 10 anos desde que a Câmara Municipal de Abrantes comprou a casa onde nasceu Maria de Lourdes Pintassilgo, em 1930. O imóvel, situado no centro histórico da cidade, na antiga Rua dos Oleiros e do Brasil – hoje, Rua Maria de Lourdes Pintasilgo – continua por requalificar. Quando foi aprovada a compra do edifício por 23 mil euros, e tal como o mediotejo.net noticiou, havia a intenção de criar um projeto de apoio a vítimas de violência doméstica, dentro do trabalho desenvolvido pela Rede Especializada de Intervenção na Violência do município, e perpetuando também o legado de Maria de Lourdes Pintassilgo, que tanto se bateu pelas causas sociais e pelo respeito pelos direitos das mulheres. Contudo, essa ideia terá sido posta de parte. Por ocasião da inauguração do centro escolar que recebeu o seu nome, na sequência da compra do antigo Colégio de Fátima pela autarquia, Paula Barros, responsável pela Fundação Cuidar o Futuro (idealizada por Pintasilgo) deixou o desafio para que aquela casa pudesse tornar-se num “Museu Cuidar o Futuro”, promovendo diálogos e abrindo espaço para pensar o mundo.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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