“Personagens florais nas calendas de maio”. Foto: DR

Até tempos não muito distantes, em Portugal, a entrada de maio era assinalada pela construção de efígies antropomorfas feitas de palha e ornamentadas com folhagens e flores ou incorporada por indivíduos, igualmente cobertos de ramos e arbustos florais, encarnando assim a força da vegetação ou personificando as suas míticas manifestações.

Bonecos e personagens vivos (quase sempre crianças e jovens) proliferavam, em tempos idos, nestes tempos míticos das calendas de maio. Avatares primaveris, figurando entre nós as forças da natureza. Rapazes e raparigas, jovens e adolescentes, feitos símbolos vivos do poder fecundante e fertilizante de uma vegetação que desabrocha.

Eu amei quem nunca amara

Nem tal intento tivera

Fui amar o rei das flores

No centro da Primavera

Já Gil Vicente, no Auto da Lusitânia, canta “o mayo, mensageiro do sol”, da seguinte forma:

Este hé mayo, o mayo hé este

 Este hé mayo e floresce

 Este hé mayo, a dar rosas

Este hé mayo, das formosas

Este hé mayo e floresce

Este hé mayo, mayo das flores

 Este hé mayo, das amorosas

Este hé mayo e floresce

Em terras algarvias, manhã de maio chegada, logo a petizada, desperta, saía em correria para a rua, para constatar, ao vivo, a chegada dos maios às janelas ou aos postigos das portas. Monos construídos durante a noite, quantas vezes a partir do travesseiro da cama. De saia, casaco e chapéu, profusamente enfeitados de flores.

Estes eram expostos à porta das habitações, de currais e palheiros, em caminhos e fazendas. E isto constituía, obviamente, pretexto ideal para os inevitáveis bailaricos.

Isso refere o Almanaque Enciclopédico, quando assinala, significativamente, a respeito do 1º de Maio, ser o mesmo festejado em todo o país e, acrescentando depois que, no Algarve, onde a festa dura três dias, “em todas as casas se faz uma boneca de palha de centeio {a maia} em torno da qual há danças durante toda a noite1”

Ou, ainda, o Jornal A Vanguarda, em 1881, em que, para lá de confirmar os três dias de festividade algarvia e a omnipresença do costume, caracteriza a maia deste modo: “uma boneca de palha de centeio, farelos e trapos, que vestem de branco e cercam de flores, colocada no meio da casa, de modo a que seja vista da rua”2.

No entanto, Guilherme Felgueiras (em 1949), fala-nos de “moças vestidas de branco, coroadas de flores, sentadas num espaço de trono ou acocoradas nas esteiras em frente às residências, esperando que os mancebos, de alma enfeitiçada, (…) as estrelassem com mancheias de pétalas”3. E, num outro registo, que parece problematizar ainda mais a situação, o citado Almanaque de Lembranças refere, em 1863, a existência, em Lagos, de uma procissão de um “rapaz a cavalo ornado de flores e joias“4.

A conclusão, pouco menos que inevitável, é que terão coexistido, aí, diversas variantes, que se conjugavam para fazer desta zona do país uma região onde estes costumes eram frequentes e diversificados, mantendo-se os mesmos por todo o século XIX e perpetuando-se, com dinâmica significativa, pelo menos, até meados de século XX.

Não deixa, contudo, de ser percetível, nalguns casos, uma transição das representações vivas para a construção de bonecos, como fator decorrente da decadência do costume. Em Alcoutim, por exemplo, onde, à semelhança do modelo de que vimos falando, era hábito “improvisar um trono onde era colocada uma boneca vestida de branco e ornamentada de joias, fitas, flores e ramagens” é-nos dito que, em tempos idos, “se utilizava uma rapariga de dez a doze anos”.

Inquestionável parece ter sido o facto deste costume, de personificar a natureza fértil e desabrochante, atingir ainda em finais do século XIX e inícios de novecentos, forte intensidade, correspondendo a um hábito arreigado de evidente popularidade.

Em certas terras, cada rua tinha a sua maia. As próprias mães, como vimos, faziam muitas vezes questão da sua filha constituir a mais bonita e melhor ataviada, daqui resultando até, nalguns casos, discussões e desavenças.

E se era assim no Algarve, as planícies alentejanas irão dar continuidade a estas práticas singulares, projetando-se as mesmas, depois, para norte, por terras das Beiras e impregnando, finalmente, as regiões alto-durienses, especialmente minhotas.

Delas nos fala o Almanach de Lembranças de 1862, como envolvendo crianças de ambos os sexos (embora principalmente meninas) enfeitando o, assim denominado, maio pequenino, vestido este de branco, “contornando-lhe de flores a cabeça e o peito e sentando-o numa cadeira colocada sobre uma mesa, igualmente ornamentada”.

Também em Benavente, onde perdurou até aos anos sessenta, a maia era uma menina vestida de branco (aproveitando-se para isso, muitas vezes, a roupa interior das mulheres) coroada de flores e sentada numa cadeira enfeitada, na rua, em frente à porta, acolitada por várias companheiras que pediam, a quem passava, um tostãozinho p’rá maia5!

Porém, no concelho do Gavião, mais precisamente na freguesia de Margem, era pelas ruas da aldeia que os grupos de raparigas cantavam o maio, enfeitado este com grinaldas de flores e arcos floridos nas mãos.

O mesmo parece ter acontecido nos últimos anos da sobrevivência do costume, em Portalegre, em que as raparigas vestidas de branco abandonam o trono florido e (embora continuem vestidas de branco e enfeitadas de coroas, pulseiras e cordões de malmequeres e outras flores, predominantemente amarelas) partem, agora, em busca de oferendas domiciliárias, cantado alegremente e animando assim, como os seus grupos, as ruas e largos da cidade.

Mas, em terras do Alentejo, o mais comum era mesmo, como vimos mostrando (e acontecia igualmente em Elvas, em inícios do século XX), “Vestir-se uma rapariga de branco, enfeitar-se com flores e assentar-se numa esteira colocada à porta da casa. O rapazio pedia, então, aos transeuntes “esmola para a Maia” e as raparigas, assentadas em redor d’ella, entoavam cantigas em seu louvor, ao som do pandeiro. Do que ajuntavam compunham uma merenda que comiam ao anoitecer”6.

Não obstante, sabe-se que, à semelhança de Lagos, em muitas zonas do norte e das Beiras era, sim, um rapaz (o maio ou o maio-moço), igualmente enfeitado de giestas, que desempenhava esta função.

É neste sentido que Veiga de Oliveira argumenta a propósito que, na Beira Interior e em Trás-os-Montes “são rapazes {que desempenham esse papel} enquanto nas províncias do sul são raparigas”7. E pese embora a situação de Lagos e de Beja (onde coexistem as duas situações), a dominância feminina é evidente no sul do país.

O mesmo se não poderá dizer, em rigor, da realidade centro/norte onde se registam, afinal, numerosas exceções, não só na zona beirã de influência da Bacia do Tejo (a exemplo da própria capital e dos concelhos do Sardoal ou Mação) como ainda em Turquel, na Póvoa de Lanhoso, em Viseu ou em Vouzela, embora (pelo menos face aos dados conhecidos), não suficientes para evitar que predominem aí, apesar de tudo, os atores masculinos.

No Fundão, por exemplo, o dito, “todo vestido de folhas verdes”, percorria ainda as ruas, em inícios do século XX, arrastando, atrás de si, o rapazio eufórico. Isso não obsta, contudo, que uma referência pouco anterior nos informe que, também aí, “as crianças do sexo feminino se apresentassem com grinaldas de flores na cabeça a que chamavam capelas”8. Na Sertã, Oleiros, Castelo Branco e Proença-a-Nova eram, tanto quanto se sabe, apenas rapazes que, enfeitados com as inevitáveis giestas, andavam pelas ruas “a pedir p´rós maios ou, mais prosaicamente, p’rós rapazes das giestas”9.

Segundo Jaime Dias, era possível ainda em meados de novecentos, um pouco por toda a Beira Baixa, deparar assim com grupos de rapazes que, naquele dia, iam para o campo, “cobriam um deles dos pés à cabeça com flores de giestas e voltavam, depois para as povoações, cantado e dançando”10.

Em Trás-os-Montes, elegiam igualmente um raparigo {entenda-se um rapaz transvestido} que “afestoavam dos pés à cabeça com flores de giestas”. Aqui eram as raparigas que dançavam em torno dele e, alegremente, cantavam:

Também no Ribatejo central, em tempos idos, bandos de rapazes acompanhavam o maio-moço, enfeitado este com flores e, iam de porta em porta, pedir pró maio. Em Lisboa, em que se lhes chamava maios pequeninos eram essencialmente crianças do sexo masculino que através das névoas do tempo nos surgem a representar estes papéis. De acordo com os periódicos da época “arraiados, estes, de malmequeres e papoilas (…) correndo meia cidade com um grande séquito de rapaziada a pedir dez réis p’ró prato”11.

Curiosamente, no Minho (onde as maias eram, essencialmente, ornamentações florais), era à beira das estradas que se colocavam “uma menina e um menino (…) deitados numa caminha de flores e verdura, com um prato ao pé, para os passageiros deitarem a sua esmola”12. Como nos confirma, aliás, Feliciano de Castilho, testemunha direta de século e meio atrás; “as mimosas maias (…) tão arraiadas e airosas, que à orla dos caminhos se encontram cumprimentando os viajantes”13.

Poder-se-á dizer, afinal, terem constituído, as maias/maios, enquanto personagens vivas, jovens e adolescentes, um modelo bastante frequente entre nós, se tivermos em conta o conjunto do país.

E se em Trás-os-Montes, era o tal raparigo que, coberto de flores e seguido de moços ou crianças, percorria em procissão as ruas das povoações (revelando assim a persistência tentacular do omnipresente modelo paradigmático beirão), a versão feminina surgindo esporadicamente no norte, inclusive no Minho, (a tal menina vestida de branco, coroada de flores e sentada num trono igualmente florido, sujeito venerando de danças e cantares), era não só, como dissemos, claramente mais frequente no sul, como, aliás, apresentava, aí, contornos de predomínio bem mais homogéneos.

Hoje, de um declínio quase absoluto, saliência para os “concursos de maias” que alguns municípios algarvios levam a efeito e para a situação vestigial (que a institucionalização vai substituindo) persistente em certas zonas dos Açores; principalmente em São Miguel e na ilha Terceira.

*Almanaque Enciclopédico, dirigido por Eça de Queirós, 1897.

2 Tradições Poéticas do Algarve; as Festas das Maias; in Jornal A Vanguarda de 27 de Maio de 1881..

3 Guilherme Felgueiras, Da Nossa Gente: Dos seus Costumes e Tradições; As Maias e os Maios-Moços, Mensários das Casas do Povo, n.º 34 e 35, 1949, p.13.

4 Almanach de Lembranças para 1863, op. cit., p. 130.

5 Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, Vol. VIII, Lisboa, INCM, p. 269.

6 Que se compõe, normalmente, de requeijão, pão e café; in Tomás Pires Investigações Etnográficas, Revista Lusitana, vol. XI, Porto, p. 264.

7 Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, D. Quixote, Lisboa, 1984, p. 100.

8 Adolfo Coelho, Obras Etnográficas, volume 1: Festas, Costumes e Outras Matérias para Uma Etnografia de Portugal, D. Quixote, Lisboa, 1993, p. 304.

9 José Germano da Cunha, Apontamentos para a História do Concelho do Fundão, p. 182.

10 Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, Vol. III, C. M. de Idanha-a-Nova, Lisboa, 1942, p. 241

11 Revista Universal Lisboeta, p. 491..

12 Almanach de Lembranças para 1855.

13 António Feliciano de Castilho, op. cit. pp. 320 a 322.

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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