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Depois de ler a crónica, mais uma vez brilhante, do Miguel Esteves Cardoso, que termina com as frases
“A culpa e a vergonha são inteiramente nossas”
Vou acabar por ver, claro, mas não só não me desculpo, como tenho pena de ser assim”
refleti que nós, os “comuns mortais” que também temos consciência, arranjamos desculpas mais ou menos aceitáveis para acompanhar o Campeonato Mundial de Futebol. 

Perdoamo-nos a nós e à organização porque a portugalidade (sobretudo a do futebol) fala mais alto. Ganhar ou perder não nos aquece ou arrefece particularmente mas é assim. É aquilo que toda a gente sabe.

No início deste polémico mundial, os que gostam de futebol mais ou menos, hão-de se ter perguntado pelo menos uma vez: “Faço boicote e não vejo um único jogo ou apoio a seleção do meu país e faço vista grossa aos atentados do país promotor aos direitos humanos?”

Hoje surgiu-me a resposta na escola, muito naturalmente, ao ceder um bocadinho de tempo das minhas aulas de Matemática à possibilidade de assistir, com a minha direção de turma, ao torneio interno de futebol, onde alguns dos meus alunos jogavam. 

E eu, completamente leiga em futebol, tirei algumas conclusões. A primeira e óbvia, foi que valeu a pena “perder” uma aula de Matemática para ver o sorriso dos meus alunos quando viram a turma a torcer por eles. 

A segunda, veio da observação (a possível entre a escrita deste texto que não queria que me fugisse da mente e o acompanhamento da partida) de que, em muitas escolas e comunidades deste país com queda para o futebol, continua a promover-se a saúde física e o espírito de competição saudável. 

E é incrível constatar, mais uma vez, que as regras do futebol andam cada vez mais a par das regras de cidadania, do fairplay e do jogo em equipa. Os miúdos têm a noção dos outros jogadores em campo, levantam a cabeça da bola, escolhem posições e partilham uma estratégia.

Também por isso é que devemos apoiar o futebol neste Mundial. Porque este desporto é ” rei”, é “povo”, chega a todos e faz sonhar mas também ensina.

Os jogadores grandes são referências incontornáveis, mas são os  professores de Educação Física e os treinadores locais que instilam as boas práticas e põem os nossos filhos e os nossos alunos a mexer. São abnegados treinadores e técnicos, que estão nas escolas e  clubes de futebol regionais por um desígnio maior do que o dinheiro que, eventualmente, recebem, que treinam e levam a jogar os rapazes e raparigas todos os fins de semana com um objetivo claro: serem melhores. Isso, só por si, é algo que temos de valorizar.

Todos os miúdos sonham, secretamente, ser um Cristiano Ronaldo pelo exemplo a todos os níveis, desde a ética desportiva, ao amor pelo futebol, passando pela desenvoltura com que comunica em inglês e cuja admiração por ele nos leva a perdoar certas facadinhas gramaticais. Como, de resto, jamais perdoaremos a “websummitarianas” de segunda categoria cuja mensagem não chega aos calcanhares da do nosso capitão. 

Volto ao início.

Hoje, na minha escola, a equipa dos meus alunos perdeu mas eles ganharam… e eu também. Ganhei o dia e ganhei-os a eles mais um bocadinho. Aqui fica o meu ato de contrição.

Joana Ramos

Professora de matemática, deputada municipal e intermunicipal, com o bichinho da rádio e da escrita (embora adormecidos). Mãe de dois adolescentes, vivo no Sardoal mas sou beirã e já corri o país. Reflexiva, emotiva e idealista. Vou perdendo as ilusões mas mantenho princípios.

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