‘Património e arte sacra de Vila Nova da Barquinha’. Foto: Fernando Freire

No dia 14 de maio de 2022 regressou à Atalaia, Vila Nova da Barquinha, a sua Pedra de Armas, uma obra representativa dos antigos Condes de Atalaia, que ficou instalada na Igreja Matriz de Atalaia junto do altar mor, tema já abordado em crónica publicada AQUI, Para que este episódio fosse possível muito contribuiu o empenho de Dona Maria do Carmo de Castro Infante da Câmara, Dona Maria Manuela de Albuquerque d’Orey Manoel, condessa de Atalaia e seus filhos, Bernardo, Diogo e Francisco. 

Aquando do depósito da pedra armas na Igreja da Atalaia, pela palavra de Francisco d’ Orey Manoel, em representação da família, foi prometida a doação, ao Museu Diocesano de Santarém (MDS), do quadro, pintura a óleo sobre tela com 223,8cm x 145,5cm, retrato do Cardeal Dom José Manoel da Câmara, 1685-1758. Contudo, haveria que proceder ao seu restauro.

Tal trabalho veio a ser realizado pela empresa Água de Cal, entre maio a novembro de 2023. Precisamente a mesma empresa que se encontra, atualmente, a recuperar a Igreja de Tancos, um projeto da Junta de Freguesia de Tancos e do Município de Vila Nova da Barquinha.

Memoro que o MDS, tem como Diretor o padre Joaquim Ganhão, e é um espaço fundamental para a conservação e exposição de um vasto património de arte sacra da Diocese de Santarém.

No que diz respeito ao concelho da Barquinha é depositário do retábulo da Igreja da Misericórdia de Tancos, atribuível a Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão, pintura a óleo sobre madeira de carvalho do Báltico e madeira entalhada, dourada e pintada, século XVI (finais) / século XVII (inícios), da paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Tancos.

Este retábulo maneirista encontrava-se num dos anexos da Igreja de NS da Conceição, em Tancos. Proveniente da igreja da Misericórdia da mesma localidade, que em 1875 já estava extinta, permaneceu à mercê das frequentes cheias do rio Tejo, e aquartelamento de militares pontoneiros, até ser entregue à Paróquia no ano de 1946. A deslocação deste conjunto de nove pinturas para a igreja matriz não incluiu a remontagem do retábulo, pelo que, o acentuar dos processos de degradação originou graves problemas de estabilidade do suporte e desgastes significativos da camada pictórica. Uma intervenção exaustiva, realizada pelo Centro de Conservação e Restauro da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, e a exposição no Museu Diocesano, devolveram a este importante conjunto, a dignidade que há muito se almejava. [Fonte: MDS]

O retábulo maneirista de Tancos, pintura a óleo sobre madeira de carvalho do Báltico e madeira entalhada, dourada e pintada, denominado “Calvário” ou “Contemplação da Paixão de Cristo”, tem nove painéis, com os temas a Visitação, ao centro possivelmente um sacrário, e a Flagelação; no segundo registo o Beijo de Judas, a Última Ceia e o Senhor da Cana Verde e no terceiro Ecce Homo, o Calvário e Cristo a caminho do Calvário, tendo os dois laterais remate curvo.

Outrossim, o MDS já teve em exposição Santa Ana ou NS do Reclamador (alt. 60 cm), Séc. XVI (?), da paróquia da Barquinha, tendo a mesma escultura regressado ao seu local de culto.

Alguma controvérsia tem gerado a sua denominação havendo quem defenda que é Santa Ana outros que é NS Reclamador.

Inclino-me que a bela escultura seja NS Reclamador pois no Ribatejo o culto mariano, com esta invocação, NS do Reclamador, é presente em Casais – Tomar, já existente no ano de 1390.

A primeira infraestrutura de apoio conhecida para o caminho de Santiago na região seria a ermida da Nossa Senhora do Reclamador (Rocamadour), na Barquinha, pequeno espaço de liturgia e de meditação e albergue de peregrinos. A primeira referência à ermida tem data do reinado de Dom Manuel e diz respeito à sua administração “…das capellas que se acharão na leitura D’El Rei D. Manuel”. Inventário dos Bens eclesiásticos pertencentes ao padroado real ordenado em julho de 1573 por D. Sebastião. [Fontes Documentais Portuguesas III, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1971]

Ora, Casais-Tomar e Barquinha são sítios que estão precisamente localizados no Caminho de Santiago do Sul pelo que a análise de estruturas de longa duração inscritas na natureza, no caso concreto destas duas capelas, não estão ali por mero acaso. Serão memórias dos nossos antepassados e dos caminhos ou vias da sua fé que provém dos primórdios da nacionalidade.

A imagem de vulto lavrada em pedra, NS Reclamador, com decoração polícroma e dourada, é plausivelmente datável do século XV ou século XVI, talvez de Diogo Pires-o-Velho que se notabilizou no campo da escultura, na cidade de Coimbra, executando inúmeras esculturas de NS com o Menino ao colo.

Memoro, também, que o MDS procedeu ao restauro de duas magnificas obras de pintura, óleo sobre madeira de carvalho, ambas da paróquia de NS Remédios da Moita do Norte, Vila Nova da Barquinha:

– Adoração dos Reis Magos, século XVI (segunda metade/finais), 13,9 cm X 0,88 cm;

– Calvário, século XVI, 12,2 cm X 1,06 cm.

A pintura anónima a óleo Adoração dos Reis Magos, é feita sobre madeira de carvalho, século XVI (segunda metade/finais).

A pintura “Calvário” integra, atualmente, a exposição “Tesouro do Reis. Obras-primas do Terra Sancta Museum”, patente ao público na Fundação Gulbenkian, Lisboa.

O interesse deste “Calvário”, c. 1550-1557:

– Apresenta Cristo crucificado que ocupa o primeiro plano com relevo para o lugar do Calvário, em segundo plano a parte ocidental da Cidade Santa, onde podemos vislumbrar a Porta de Jafa, a Torre de David e o Bairro Arménio. “ … Dominada pela representação de Cristo crucificado, que ocupa todo o primeiro plano, esta pintura evoca e sintetiza as horas finais da paixão do Redentor. Partindo da narrativa contida no Evangelho segundo São Lucas (Lc 23.30-45), completa-a com referências e alusões a passagens de São Marcos (Mc 15, 33-34), São Mateus (Mt 27, 45-46) e São João (Jo 19, 33-34).

Christus patiens, sofredor e resignado, Jesus surge cravado sobre uma crux immisa, cujo eixo vertical divide a composição em duas partes. Sem qualquer companhia no alto do Calvário, mostra o olhar melancólico e ausente de quem se sente entregue a si próprio. Exames laboratoriais revelaram que, na origem, tinha a boca entreaberta; tal indica estarmos perante a representação visual do momento subsequente àquele em que o Filho interpelou o Pai, perguntando-lhe porque O abandonara (Mt 27, 45-46; Mc 15,33-34), ou seja, o instante em que proferiu as Suas palavras finais.

Do Seu flanco, jorra abundante efusão de sangue, o que parece ser um anacronismo, pois essa perfuração só ocorreu depois da morte (cf. Jo 19, 33-35); esse erro terá sido, todavia, propositado, de modo a permitir uma leitura eucarística da pintura, relacionável com a veneração nórdica do Santo Sangue. Em torno da base da cruz vêem-se, entretanto, alguns ossos humanos espalhados, nomeadamente uma caveira; tal vem lembrar uma tradição antiga, segundo a qual Adão terá sido sepultado no mesmo monte onde ocorreria o suplício do Salvador.

Jesus é assim exibido como Novo Adão que, todavia, não conhecerá a corrupção dos mortos, estando destinando à ressurreição … O painel de Moita do Norte aparenta, ter sido concebido no terceiro quartel do século XVI, datação compaginável com a da igreja de NS dos Remédios, de onde proveio e onde já se guardava em 1911. A localidade da Mouta [já consta dos Tombos da Ordem de Cristo, Comendas do Médio Tejo, 1504-1510]. Era uma das aldeias do então concelho da Atalaia.

Desse território eram donatários desde 1542 os descendentes de D. Fradique Manoel (c. 1500 – 1564) e de D. Maria de Ataíde. Não custa crer, assim, que a execução da obra tenha recebido o patrocínio dos futuros Condes da Atalaia, fazendo talvez parte do primitivo retábulo dessa povoação” [In Catálogo da Catedral e Museu Diocesano de Santarém, Ruy Ventura, 2021].

Do património e arte sacra ficam por recuperar, ao que tenho conhecimento, um retábulo de talha dourada seiscentista que alberga a imagem NS Conceição, padroeira da igreja de Tancos, e duas pinturas sobre telas do século XVII (finais) ou XVIII (início), figura de São João Batista e uma Pietà, com 1,22mX0,97m, de que se desconhecem os autores. Estas duas últimas obras encontram-se na sacristia da Igreja da Atalaia e estariam colocadas nos dois altares laterais deste monumento nacional.   

Mas voltemos ao óleo sobre tela – Retrato do Cardeal, de D. José Manoel da Câmara …

Aconteceu que no dia 8 de dezembro fui a Santarém. Após gentil convite da Dra. Eva Neves, num carro elétrico e acompanhado pelo Provedor da Barquinha, Hélder Silva, e por um membro da Fábrica da Igreja da Atalaia, António Bernardo, fomos assistir à cerimónia de apresentação da pintura “D. José Manoel, 2.º Cardeal-Patriarca de Lisboa”, no MDS.

Era palestrante Pedro Flor, Professor Auxiliar com Agregação em História da Arte Moderna na Universidade Aberta e investigador integrado no Instituto de História da Arte da NOVA. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem coordenado vários projetos de investigação financiados e tem publicado vários livros e artigos no âmbito da sua área de investigação, nomeadamente a arte do Retrato no período moderno e os Estudos de Lisboa. É académico Correspondente da Academia Portuguesa da História, e, atualmente, o Presidente da Associação Portuguesa de Historiadores da Arte.

O palestrante falou, em síntese, que D. José Manoel da Câmara foi um descendente dos Condes de Atalaia. A linhagem dos Condes de Atalaia remonta a época medieval, ao reinado de D. Afonso V ou até a época anterior. Esta família cedo se entrelaçou com a da Casa real, seja por via do contacto direto na corte, seja por via eclesiástica, dado que alguns membros dos Manoeis desempenhavam funções na hierarquia da igreja, dando como exemplo que D. Frei João Manoel foi Bispo da Guarda e de Ceuta.

O Conde de Atalaia é um título de nobreza de Portugal criado a primeira vez pelo rei D. Afonso V, em 21 de dezembro de 1466. Anos mais tarde, já no reinado de Filipe II de Espanha, voltou-se a conceder, em 1583, este título a D. Francisco Manoel Ataíde (1565-1624), descendente dos Senhores de Salvaterra e de Tancos pelo lado paterno e dos Condes da Castanheira (neto de D. António de Ataíde – tença de 350.000 rs.  Tal como sucedia ao tempo, os filhos segundos e terceiros enveredam pelas carreiras eclesiásticas. Tal foi o caso de D. João Manoel (c. 1572-1633), irmão do Conde de Atalaia que foi Bispo-Conde de Coimbra: Bispo de Viseu: Arcebispo de Vice-Rei de Portugal.

No séc. XVII, um dos membros que mais se destaca na História de Portugal é o 4,° Conde de Atalaia: D. Luís Manoel de Távora (1645-1706) que desempenhou várias funções relevantes durante as Guerras da Restauração e pertenceu ao Conselho de Estado e ao Conselho de Guerra de D. Pedro II – Embaixador Extraordinário a Saboia (1675), e Governador da Torre de Belém (1681). Casou duas vezes: com D. Maria Madalena de Noronha de Sousa (1643-1675), filha de D. Francisco de Sousa, 3.° Conde de Prado e 1.° Marquês de Minas e com D. Francisca Leonor de Mendonça Câmara, filha de Manuel Luís Baltazar da Câmara, 1.° Conde da Ribeira Grande.

O cardeal D. José fez os seus estudos no Colégio de S. Pedro, em Coimbra onde tomou o hábito. Foi Deão e Reitor da Capela Real desde 1710. Em 1716 foi membro do Colégio dos Principais da Patriarcal de Lisboa. Foi Juiz Supremo Tribunal da Inquisição de Lisboa e membro da Junta dos Três Estados.

D. José Manoel da Câmara foi criado Cardeal-Presbítero em 1747, tendo recebido em Lisboa o barrete cardinalício. Em 9 de Março de 1754, assume o cargo de Cardeal-Patriarca de Lisboa, deixado vago por morte de D. Tomás de Almeida. Cumpridas várias formalidades, dá entrada solene em Lisboa em 7 de setembro de 1754.

Habitava o Palácio dos Condes de Atalaia a S. Cristóvão, junto do Castelo de S. Jorge e depois de 1754 passou a morar no Palácio dos Marqueses de Niza a S. Roque, junto ao Bairro Alto. Quando se deu o terramoto de 1755 era aqui que estava tendo sobrevivido ao sinistro.

Após o terramoto de 1755 viveu na Quinta de D. Elena ao Vale do Pereiro (freguesia de S. Mamede), mais tarde Quinta dos Padres da Congregação do Oratório de S. Filipe Nery, depois Quinta de Diogo de Mendonça (Quinta das Águias) à Junqueira até 1758 (quase até à sua morte) uma vez que veio morrer à Atalaia.

Em 24/07/1758, existe o seu inventário dos bens e por ocasião do testamento deixado ao irmão, D. João Manuel de Noronha, 1.° Marquês de Tancos, e ao sobrinho D. Duarte da Câmara, casado com D. Constança Manoel. Nesse rol, ainda inédito, consta uma belíssima livraria e um recheio de assinalável qualidade, digno da condição de D. José Manoel, contudo não existe qualquer alusão a pinturas de retrato.

O retrato que a partir de 8/12/2023 fica depositada no MDS é um retrato de poder, como o demonstra o anel da sua mão direita e as suas vestes de púrpura. Há um livro no retrato com a sua pedra de armas que o identifica com a nobreza, com expressão social do seu status bem como sendo cardeal usava chapéu de asa larga, com cordões de 15 borlas que ficavam sobre o peito.

O retrato que serviu de modelo ao pintor (até agora desconhecido, e grande artista pelas pincelados com características peculiares como as rendas) seria de o Retrato de Jacques- Bénigne Bossuet, por Pierre Drevet, 1723, imagem abaixo.

O rei D. José e o Marquês de Pombal acreditavam que os jesuítas eram uma ameaça para o poder absoluto do rei. Com claro domínio das esferas da corte, das missões, do ensino (detinham a posse da primeira rede de educação em Portugal, a rede de colégios da Companhia de Jesus), da cultura intelectual, etc. despertou a Companhia de Jesus desconfianças aos políticos reinantes. À data, para os aniquilar, existiam pesadas acusações sobre os jesuítas, incriminações que se baseavam em factos propositadamente desmesurados para descrédito da Companhia tendo como claro fito que o patriarca os molestasse e perseguisse, decerto a instâncias do Marquês de Pombal que já lhes proibira que pregassem na igreja patriarcal, depois de serem proibidos de pregar na capela real. No princípio de junho tentou o Marquês arrancar ao patriarca uma ordem violenta de persecução sobre eles, a de suspender os jesuítas de confessar e pregar na diocese de Lisboa. O Marquês dirigiu-se ao paço patriarcal e ali instou por semelhante decisão, recorrendo a todos os meios que lhe inspirava a sua perversidade. Os termos da ordem prelatícia acusam iniludivelmente a coação: “Por justos motivos, que nos são presentes e muito do serviço de Deus e do público, havemos por suspensos do exercício de confessar e pregar em todo nosso patriarcado aos Padres da Companhia de Jesus, por ora, enquanto não ordenarmos o contrário. …”. Esta ordem tem a data de 7 de junho de 1758 (Coleção dos Negócios de Roma, p. I, pág. 59).

Vemos que o patriarca não especificava os motivos, e dava à sua resolução carácter transitório. Esta coação desgostou profundamente D. José Manoel que “veio a ares para o palácio da sua casa na vila de Atalaia”, e apressou-lhe talvez a morte.

Aqui, na Atalaia, a sua sobrinha, D. Constança Manuel, a Marquesa de Tancos, foi sem dúvida uma das pessoas que o amparou e confortou na dor e na doença durante um período de três anos, vindo a falecer nesta vila em 9 de julho de 1758.

A sua sobrinha, Dona Constança Manoel, Marquesa de Tancos, para demonstrar a sua gratidão honrou-o na morte com a construção de uma sumptuosa sepultura no lugar mais nobre da Igreja da Atalaia. A obra poderá ser do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira ou do arquiteto Joaquim de Oliveira, a quem é atribuído a obra da Igreja das Mercês em Lisboa, construída entre 1753-1803. [SOALHEIRO, João e BASTOS, Celina – Os Patriarcas de Lisboa, Alêthea, 2009]

É o único Cardeal que não está sepultado no Panteão dos Cardeais, por razões de incompatibilidade com o Marquês de Pombal.

No seu discurso, e em nome da Família Manoel, Francisco d’Orey Manoel, começo por saudar o Senhor D. José Traquina, Bispo de Santarém, o Senhor Padre Joaquim Ganhão, Diretor do Museu Diocesano de Santarém e a Dra. Eva Neves, conservadora daquele Museu e todas as pessoas ali presentes, referindo que: “Queremos enaltecer a excelente organização destas comemorações, desejando também dar os parabéns pelo trabalho de restauro levado a cabo pela empresa Água de Cal, que contou com uma competente equipa, coordenada pela Dra. Inês Magalhães.

Por outro lado, não podemos deixar de agradecer ao Professor Doutor Pedro Flor que, através da palestra que nos apresentou, deu-nos a conhecer aspetos muito significativos sobre este “retrato oficial”, representando D. José Manoel, segundo Cardeal-Patriarca de Lisboa, cujos restos mortais se encontram sepultados na bela Igreja a Atalaia. Destaco apenas uma novidade: a identificação da gravura que serviu de inspiração para o pintor executar o “cenário” deste quadro. A água-forte selecionada exibe a imagem de Jacques Bénigne Bossuet, bispo de Meaux a qual foi gravada por Pigeot, tendo por base a pintura original, executada por Rigaud.

Este Museu Diocesano expõe diversas peças de arte, representativas de várias localidades que fazem parte de múltiplas paróquias da Diocese de Santarém. Neste domínio, permitam-me que seja destacado o retábulo da antiga Igreja da Misericórdia de Tancos, conjunto pictórico que foi magistralmente recuperado e que aqui se encontra preservado e exposto para a fruição do público. Toda a família Manoel ficou sensibilizada com esta medida, uma vez que, por um lado, permitiu salvar património significativo, mas também porque a Misericórdia da Tancos foi fundada em 1585, por intermédio direto de D. Francisco Manoel de Ataíde, 1º conde de Atalaia, que aí exerceu funções de Provedor, sendo que, mais tarde, também foi eleito para Provedor da Misericórdia de Lisboa.

E, constatando que um dos princípios que norteou a estrutura deste Museu foi expor peças de várias localidades desta região, foi determinado pela nossa Mãe — Maria Manuela de Albuquerque d’Orey Manoel — que também a Vila da Atalaia poderia ficar aqui representada, através duma peça significativa.

Então, os contactos foram estabelecidos, com o intuito de doar a grande pintura que representa D. José Manoel, insigne personagem que era filho do 4º conde de Atalaia. Mas, apesar desta origem familiar, a sua vida nem sempre se revelou fácil, uma vez que foi perseguido pelo marquês de Pombal. Assim, teve de se retirar de Lisboa, passando a residir na casa da vila da Atalaia. E foi nessa localidade que foi sepultado em 1758, na emblemática Igreja da Atalaia.

Para mais elementos relacionados com este prelado e sobre a Família Manoel, poderão ser consultados diversos documentos e publicações, destacando agora os estudos mais recentes, como:

– o livro Epítome da Família Manoel, obra escrita pelo meu irmão Diogo, a qual foi editada em 2020;

– as múltiplas investigações levadas a cabo pelo Dr. Fernando Freire, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha;

– ou ainda o trabalho que foi apresentado o ano passado, intitulado A Casa do Patriarca, na Atalaia, escrito pelos investigadores Lourenço Correia de Matos e João Bernardo Galvão Teles, estudo que foi patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha.

Regressando ao quadro, poderemos referir que quem vier visitar este Museu, passará a poder contemplar esta excelente representação artística. Dada a qualidade técnica que o artista empregou nesta pintura, é possível constatar que os olhos azuis de D. José Manoel seguem cada um dos visitantes, quando estes circulam diante da tela.

O “diálogo” entre observador e retratado poderá ser estabelecido, sempre que for levada a cabo uma análise mais atenta. E, para que essa comunicação se estabeleça, parece que será importante recorrer a dois níveis de intermediários.

Um será num plano mais terreno, numa esfera mais humana. Para tal, temos de apelar, tanto ao talentoso artista, como ao personagem retratado, solicitando-lhes que nos esclareçam qual é o sentido dos diversos elementos que fazem parte desta representação.

Desde logo, podemos realçar que o prelado se apresenta com ricas vestes de seda vermelho-carmesim, valorizadas com requintados bordados, além do solidéu na cabeça e, na mão esquerda, segura o barrete cardinalício. Na sua mão direita, D. José Manoel exibe o anel que, para além de ser um objetivo decorativo e símbolo de autoridade, também servia de sinete pessoal, permitindo-lhe lacrar a documentação e, desta forma, introduzir uma validação suplementar às mensagens que emanava.

Por outro lado, este Cardeal-Patriarca exibe um livro, cuja encadernação armoriada apresenta o seu brasão, o qual inclui as armas da família Manoel, sobrepostas pelo tradicional chapéu cardinalício (designado por galero), acompanhado das 30 borlas, distribuídas em redor do brasão; 15 dum lado, e 15 na posição oposta.

E prosseguindo com a observação, verificamos que a cena é valorizada com a presença:

– Duma credência entalhada e dourada, onde aparece a representação de um elemento antropomórfico.

– Duma cadeira de braços, símbolo do poder que é exercido por qualquer Cardeal-Patriarca.

– E de grandes colunas que nos lembram que o Templo Cristão tem de estar assente em fundações sólidas e em fortes estruturas, para que esta edificação permaneça estável.

Passarei, agora, a descrever o segundo intermediário da comunicação que poderá ser estabelecida com o retratado, sempre que o observador tiver capacidade de levar a cabo uma análise mais profunda e refletida diante desta obra de arte.

E, para ser possível implementar este diálogo, já não no plano terreno, mas antes ao nível metafísico, será importante constatar que a pintura inclui a presença dum intenso vendaval que faz movimentar o cenário, constituído por cortinas e suas borlas, sendo que estes elementos são fortemente agitados e revolvidos com violência. Mas, ao penetrar no edifício, este vento, que representará a dimensão transcendental, parece transformar-se numa suave brisa que inspira este Príncipe da Igreja. E, duma forma suave, Deus faz-se presente, transbordando o nosso espírito e transportando-nos para um ambiente sereno; assim, revela-Se como Deus do amor supremo e cheio de compaixão.

Mas não queria terminar esta pequena intervenção, sem deixar registada uma curiosidade. Os olhos de D. José, os tais que nos acompanham quando circulamos diante desta tela, também possuem a tonalidade azul, tal como acontece com os olhos de seu irmão Francisco Manoel (1697-1763), o qual foi cónego oratoriano, e que está representado numa pintura conservada no Palácio das Necessidades, onde, atualmente, funciona o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Para finalizar, fazemos votos de que este Museu possa continuar a contribuir para o crescimento espiritual de cada um, bem como para o desenvolvimento artístico da população, prosseguindo um trabalho de defesa e valorização dos bens culturais. Bem hajam.

Com a doação desta obra ao MDS fica a paróquia da Atalaia ali bem representada.  A obra poderá ser apreciada no corredor nobre onde estão os retratos de reis portugueses que apoiaram o Seminário Patriarcal de Santarém, bem como os retratos dos cinco primeiros patriarcas de Lisboa.

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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3 Comments

  1. Texto extraordinário, que retrata bem a cerimónia de entrega do quadro, a conferência do Prof. Pedro Flor é que disponibiliza outras referências a peças de artes do concelho de Vila Nova da Barquinha.

  2. Excelente! Obrigado ao Dr. Fernando Freire por mais este registo da nossa história de Portugal

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