(Pedra de Armas - Foto e design de Pérsio Basso)

Dom José Manoel da Câmara, nasceu na Atalaia em 25 de dezembro de 1686 (segundo testemunho, aparentemente incontroverso, do prior ao tempo de Atalaia, Bernardo Marques de Carvalho, conforme consta das Inquirições paroquiais de 1758) e morreu nesta mesma vila em 9 de julho de 1758. Foi nomeado cardeal em 9 de março de 1754 e foi o segundo Patriarca de Lisboa. Era filho dos quartos condes de Atalaia. Os seus restos mortais encontram-se sepultados no altar-mor da Igreja de Atalaia. Contemos a sua história de vida e o significado da sua pedra de armas.

Originalmente, esta pedra de armas foi concebida para a Casa do Patriarca de Atalaia. Esta Casa sofreu grandes alterações deste a sua construção que é próxima dos finais do séc. XVII, pois o Conde Lourenuo Magalotti, escrivão do Príncipe Cosme de Médicis, 3° Grão-Duque da Toscana, na segunda quinzena de fevereiro de 1669, passou nesta vila e na sua descrição conta-nos: “ … as povoações que se encontram de Lisboa a Tomar são: … Santarém, Golegã e Atalaia, fora da qual se vê por acabar um grande palácio quadrado de boa e nobre arquitetura, e que é do conde D. Álvaro Manuel de Noronha, 4.º Conde de Atalaia, que tem por título o nome da dita povoação.”

O palácio de Atalaia teria também os seus jardins anexos. Na vila de Atalaia reza uma lenda, ainda hoje presente, que a mina, com um teto em abóbada, que existe próxima da Capela do Senhor Jesus da Ajuda é um túnel construído pelos mouros e que o mesmo vai até ao Castelo de Almourol e que serviria de contacto entre a ilha de Almourol e a Atalaia, cujo topónimo significa “monte donde se pode vigiar ou atalaiar ou pequena torre levantada em alguma eminência para vigiar os inimigos”.

Há relatos de vários personagens que dizem que lá entraram, mas que a partir de determinada altura havia a perda de oxigénio e o regresso era imperativo. Não colocando em crise estes factos, é mais concebível a teoria que esta mina servia para irrigar o frondoso jardim situado do lado nascente do palácio, atual Casa do Patriarca, onde foram encontradas várias calhas para irrigação.

Assim, o jardim teria origem em zona arborizada que ocuparia o território onde depois de 1832 (data da escritura de aquisição da propriedade para tal fim) foi feito o atual cemitério (em consequência do decreto de 21 de setembro de 1835, e de 8 de outubro do mesmo ano, uma das primeiras iniciativas do Governo liberal, que ordenava que o cemitério paroquial ficasse a pelo menos a 143m ou 200 passos, de distância das mais adjacentes habitações). Até então os nossos antepassados eram sepultados dentro da própria Igreja ou no seu adro, como sucedeu na Atalaia e em Tancos.

Sepultar os defuntos dentro dos templos era, para a nossa sociedade predominantemente católica, um imperativo religioso. Numa população devota é fácil de entender que os restos mortais dos seus entes queridos fossem sepultados nos locais de culto ou à sua beira. Ficavam, para o povo cristão, eternamente sob a proteção de Deus.

(Pintura do Séc. XVIII – Igreja de Atalaia)

Junto do cemitério existiu ainda o pombal real, do qual já não restam vestígios. Em declive suave a zona ajardinada estender-se-ia até ao palácio dos condes que ainda conserva resquícios de um frondoso jardim. Os extensos jardins que rodeavam o palácio estão hoje mais pequenos, mas a sua traça exterior foi mantida e preservada pelo gosto de quem, ao longo dos tempos, tentou não esquecer a história.

Aconteceu que em 1935, foi removida e instalada no portão principal da Quinta do Gaio, no Cartaxo, propriedade de D. Maria do Carmo de Castro Infante da Câmara.

Em 2021, familiares do segundo Cardeal Patriarca de Lisboa ofereceram à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha este testemunho histórico, para que pudesse voltar à povoação de Atalaia. Todo o procedimento de retirada da pedra de armas e seu depósito no monumento nacional foi celebrado em 25 de março de 2021, por protocolo, entre os familiares e a Câmara Municipal.

A pedra de armas é uma rica fonte de informações. Tem a particularidade de relevar: a identidade e o universo sociocultural de seu titular. É, portanto, registo e memória.

O desenho da pedra de armas foi concebido como uma representação de formas em alto relevo sobre uma superfície de pedra perfeitamente esculpida.

É registo e memória de documento autêntico que transmite uma determinada época da história de Portugal e do antigo concelho de Atalaia.  

A pedra de as armas de Dom José Manoel fala-nos da sua fé, mas também do cunho da sua família, o ducado de Atalaia.

Neste brasão aparece-nos o galero (chapéu), saindo de dois cordões que trazem quinze borlas de cada lado sobre um escudo de armas.

Do ponto de vista da heráldica eclesiástica foi esculpido com os elementos principais das armas-de-fé: o chapéu e as borlas, em número de quinze, identificando-o como cardeal.

Do ponto de vista social esta pedra de armas identifica-o com a nobreza, com expressão social do seu status. Vê-se a coroa de Conde de Atalaia que inicia o brasão desta família: escudo esquartelado, no 1.° e 4.°, em campo de púrpura, um côto de aguia, de ouro, empunhando, com uma mão de homem, uma espada guarnecida de ouro; no 2.º e 3.°, de prata, um leão de púrpura, armado.

Recordo que a vila de Atalaia tem:

Foral de 1222, de Pedro Ferreiro;

Carta de 1302 de D. Dinis;

Carta de 1303 de D. Dinis;

Carta de 1307 de D. Dinis;

Carta de 1325 de D. Afonso IV;

Carta de 1328 de D. Afonso IV;

Foral de D. Manuel, de 2 de novembro de 1514.

A vila de Atalaia era local de encruzilhada, de movimentação de pessoas e de mercadorias que circulavam por via terrestre ou fluvial até à Barquinha, que só se tornou concelho, devido a este apogeu comercial, em 1836.

Era, à data do domínio Filipino, também grande pela importância que o Conde de Atalaia tinha no Reino. A nobreza Atalaiense era referenciada como do “mejor del Reyno”. A sua influência era política e financeira com largo domínio sobre vários territórios em Portugal. Igualmente, uma curiosa relação escrita em Madrid em meados da década de 1630, relata-nos a procura dos “bons partidos” entre a nobreza portuguesa informando “sobre os casamentos que há em Portugal” sem olvidar o título, a varonia, a sua idade, as suas rendas e o número dos seus vassalos. Segundo a descrição estavam então desembaraçados o Marquês de Ferreira, os Condes de Monsanto, da Calheta e de Atalaia todos eles nobres do melhor do reino que quer dizer, poder, riqueza e nobreza. (La entrada que en el reino de Portugal hizo S.C.R. de Don Philippe, Lisboa, 1583, fls. 105).

As preponderantes casas nobres nacionais também estavam representadas ao nível das prelaturas, ocupando cadeiras episcopais como foi o caso do nosso cardeal D. Manoel, quarto filho dos condes de Atalaia.

Na Igreja Católica os eclesiásticos com brasão usavam um galero (chapéu de asa larga usado pelo clero, com cordões terminados em borlas que ficavam sobre o peito. Tem a sua origem nos chapéus de peregrino. Utiliza-se em heráldica eclesiástica desde o século XIV, substituindo as mitras nos escudos)

D. José Manoel, porque foi cardeal, usava 15 borlas como podemos ver na pedra de armas revinda. Por outro lado, D. José Manoel, enquanto bispo, usava 6 borlas, conforme podemos vislumbrar no seu tombo da quinta do Vale Seixo.

(Tombo da Quinta do Vale Seixo – Coleção da Casa do Patriarca)

D. José Manoel também foi provedor da Santa Casa de Atalaia cujos alojamentos, atualmente, se encontram em ruínas. A mesma situava-se em frente ao Palácio. O primeiro documento que se conhece é o alvará de D. Filipe I, de 15 de fevereiro de 1588, confirmando o Compromisso da Misericórdia de Atalaia. Outrossim, no inquérito paroquial de 1758, o prior de Atalaia, Bernardo Marques de Carvalho às questões: 10. Se tem hospital, quem o administra, e que renda tem? Se tem Casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas cousas? Respondeu: “Tão bem tem casa de Misericórdia de que são Provedores alternativos o Ex.mo Sr. Cardeal Patriarca, e o Ex.mo Sr. Marquês de Tancos, e tem anexo um Hospital para os passageiros, e Casa para todo o Religioso que vai de passagem pedir para pernoitar, cuja renda líquida é cada ano trinta mil reis e teve seu princípio no ano de mil, quinhentos, oitenta e oito.”.

Relevante é o facto da Igreja de Atalaia (com D. José Manoel) ser o único lugar fora da cidade de Lisboa a ter uma sepultura de Cardeal Patriarca.

Sobrevivendo, no ano seguinte ao da sua nomeação, ao terrível terramoto de 1755 – que desfez grande parte da cidade de Lisboa e reduziu a cinzas a igreja patriarcal – foi este prelado laborioso em tomar as exequíveis prevenções para atenuar tantos desastres que uns após outros ocorreram.

Os historiadores referem que o cardeal foi muito louvado pelo zelo com que acudiu, entre o ruir da cidade, às necessidades espirituais da população pois esta ajuizava com um castigo do céu a imensa catástrofe.

Um dia Sebastião de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, interroga o Cardeal Patriarca se os mortos devem ser enterrados em valas comuns ou metidos em batelões e lançados ao mar. O Cardeal num gesto de grande sabedoria e de saúde pública advoga pela última hipótese. O Cardeal opta, à época, por uma solução sanitária, lúcida e determinada.

(D. José Manoel, pintura a óleo, coleção privada dos familiares dos condes de Atalaia e de Tancos. Monumento funerário)

O rei D. José e o Marquês de Pombal acreditavam que os jesuítas eram uma ameaça para o poder absoluto do rei. Com claro domínio das esferas da corte, das missões, do ensino (detinham a posse da primeira rede de educação em Portugal, a rede de colégios da Companhia de Jesus), da cultura intelectual, etc. despertou a Companhia de Jesus desconfianças aos políticos reinantes. À data, para os aniquilar, existiam pesadas acusações sobre os jesuítas, incriminações que se baseavam em factos propositadamente desmesurados para descrédito da Companhia tendo como claro fito que o patriarca os molestasse e perseguisse, decerto a instâncias do Marquês de Pombal que já lhes proibira que pregassem na igreja patriarcal, depois de serem proibidos de pregar na capela real. No princípio de junho tentou o Marquês arrancar ao patriarca uma ordem violenta de persecução sobre eles, a de suspender os jesuítas de confessar e pregar na diocese de Lisboa. O Marquês dirigiu-se ao paço patriarcal e ali instou por semelhante decisão, recorrendo a todos os meios que lhe inspirava a sua perversidade. Os termos da ordem prelatícia acusam iniludivelmente a coação: “Por justos motivos, que nos são presentes e muito do serviço de Deus e do público, havemos por suspensos do exercício de confessar e pregar em todo nosso patriarcado aos Padres da Companhia de Jesus, por ora, enquanto não ordenarmos o contrário. …”. Esta ordem tem a data de 7 de junho de 1758 (Coleção dos Negócios de Roma, p. I, pág. 59).

Vemos que o patriarca não especificava os motivos, e dava à sua resolução carácter transitório. Esta coação desgostou profundamente D. José Manoel que “veio a ares para o palácio da sua casa na vila de Atalaia”, e apressou-lhe talvez a morte.

Aqui, na Atalaia, a sua sobrinha, D. Constança Manuel, a Marquesa de Tancos, foi sem dúvida uma das pessoas que o amparou e confortou na dor e na doença durante um período de três anos, vindo a falecer nesta vila em 9 de julho de 1758.

O túmulo de D. José da Câmara encontra-se no interior da Igreja de Atalaia junto à Capela-Mor. A sua sobrinha, para demonstrar a sua gratidão ao Patriarca, honrou-o na morte com a construção de uma sumptuosa sepultura no lugar mais nobre da Igreja, junto do altar mor. A obra poderá ser do arquiteto Mateus Vicente de Oliveira ou do arquiteto Joaquim de Oliveira, a quem é atribuído a obra da Igreja das Mercês em Lisboa, construída entre 1753-1803. O túmulo é em pedra da região, em forma de capela, envolvendo um arco cego de fundo talhado onde encrava a pequena arca tumular. Sobre o arco há um agradável conjunto com o símbolo de armas do patriarca, arma dos manoeis, com a teara e dois ramos patriarcais. Nas histolibatas leões rompantes. No monumento consta, em latim, a seguinte inscrição e da qual se dá a devida tradução: “D. José. Manoel I, Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana, Patriarca da Santa Igreja de Lisboa. Regeu o Patriarcado durante 4 anos, 1 mês e 19 dias. Viveu 72 anos, 6 meses e 14 dias. Faleceu no ano do Senhor 1758, no dia 9 do mês de julho. Descanse em paz.

Post Scriptum

O troço da coluna do antigo Pelourinho de Atalaia voltou para as mãos da comunidade atalaiense no dia 15 de agosto de 2021, quase um século após a sua saída (encontrava-se depositado no Convento de Cristo, em Tomar). Esta peça manuelina está instalada num espaço que representa a nossa memória e identidade, o Centro Comunitário de Atalaia.

No dia 14 de maio de 2022 regressa a Pedra de Armas, uma obra representativa dos antigos Condes de Atalaia, que vai ser instalada na Igreja Matriz de Atalaia, monumento nacional, recentemente requalificada com nova instalação elétrica, reabilitação de pavimentos e pintura. Dou por concluso um trabalho árduo, mas dignificante, ademais para quem desempenhando um cargo autárquico tem a obrigação de devolver às futuras gerações o património dos nossos antepassados. A todos quantos cooperaram para repristinar a história de Atalaia, o meu eterno Bem-Haja!

Fernando Freire

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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2 Comentários

  1. Excelente trabalho o do Ilustre Historiador Fernando Freire para elevação da importância da Região que administra.

  2. Que maravilhoso trabalho
    Fiquei encantada
    Parabéns senhor presidente
    Que a inauguração seja um sucesso
    Os meus cumprimentos

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