O escritor, poeta e professor José-Alberto Marques faleceu esta quarta-feira, dia 18 de setembro, aos 84 anos. Natural de Torres Novas, residia em Abrantes desde a década de 60, onde foi professor efetivo na Escola D. Miguel de Almeida. Pioneiro da poesia concreta em Portugal, deixa um exímio legado dentro do movimento da poesia experimental e visual no país.
O autor, entre a poesia e o romance, norteou-se pelo experimentalismo. Foi beber o conceito ao Brasil, tendo investigado e estudado esta forma “esquisita” de escrever poesia – a concreta.
Tinha 19 anos, e corria o ano de 1958, quando publicou ‘Solidão’ na Revista dos Finalistas do Colégio Andrade Corvo, em Torres Novas, a sua terra natal. Foi este o primeiro exemplo de poesia concreta (conceito importado do Brasil) a ser publicado em Portugal, ditando e augurando o início de um longo e inédito percurso literário.

Nascido em Torres Novas, a 4 de outubro de 1939, começou por frequentar a licenciatura em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Abandonou o curso por razões económicas, e os seus impulsos literários levaram-no a mudar para um curso de História, que concluiu enquanto deu explicações para amealhar algum dinheiro.
Deu aulas de Português na Escola D. Miguel de Almeida, em Abrantes, tendo ficado radicado em Abrantes desde os anos 60.
Das diversas atividades de intervenção cultural e artística, destacam-se a participação no segundo número da revista Poesia Experimental (1966), Operação 1 (1967) e na Conferência-Objecto (Galeria Quadrante, 1967).
Recebeu o 1º Prémio Nacional de Literatura Infantojuvenil nas comemorações dos 20 anos do 25 de Abril, com o livro A Magia dos Sinais (1996). Em 1996 recebeu a medalha da cidade de Abrantes. Foi diretor da revista Tudo como dantes? (1991-1992).
Privou com “o melhor poeta experimental português”, E. M. Melo e Castro, quando foi colocado na Covilhã como professor e com quem estabeleceu forte amizade. Mas conviveu com muitos outros nomes sonantes como Mário Cesariny, Eduardo Guerra Carneiro ou Luiz Pacheco.
“A minha ambição é sempre escrever o que não há, é sempre buscar na escrita qualquer coisa que nunca pudesse ter sido apresentado ou feito em qualquer parte do mundo”

Em entrevista concedida ao mediotejo.net, contou alguns capítulos da sua vida além do percurso literário: chegou a ser preso político durante a ditadura derivado à sua ideologia política ligada ao Partido Comunista Português, apesar de nunca ter sido militante. Passou pelas instalações da PIDE na rua António Maria Cardoso, em Lisboa; depois esteve um mês na prisão de Caxias.
Quanto às lides políticas, integrou a Assembleia Municipal de Abrantes, eleito pelo PCP, no pós-25 de Abril de 1974, e chegou a concorrer como cabeça de lista pelo distrito de Santarém à Assembleia da República pelo Movimento de Esquerda Socialista (MES) liderado por Jorge Sampaio.
José-Alberto Marques recebeu o 1.º Prémio Nacional de Literatura Infantojuvenil nas comemorações dos 20 anos do 25 de Abril, com o livro ‘A Magia dos Sinais’, em 1996.


A sua obra em livro inclui poesia, ficção, teatro e literatura infanto-juvenil. Da sua extensa bibliografia fazem parte A Face do Tempo (1964), Hoje. Mas (1967), Estórias de Coisas (1971), Aprendizagem do Corpo (1983), Flexões Reflexões (1985), Loendro (1991), Zara (1995), Eu disse que Baudelaire andava a pé (1999), Padrões (1999), Cantologia 1964-1999 (2000), Hiperlíricas (2004) e British Barthes: Poesia (2011).
Organizou com E. M. de Melo e Castro, a Antologia da Poesia Concreta em Portugal (1973). Publicou as obras de ficção Sala Hipóstila (1973), O Elefante de Setrai (1977), Nuvens, no Vale (1985) e As Tiras da Roupa de MacBeth (2001). Mais recentemente NARRATIVYLÍRICA (2016), Épicodrone & etc… (2017) e H. Em 2023 foi lançada uma reedição da obra Zara por ocasião do 30º aniversário da Biblioteca Municipal António Botto, de Abrantes.
A NERVO – Colectivo de Poesia, uma revista de poesia contemporânea produzida na região do Médio Tejo, reagiu à perda do poeta nas redes sociais.
“Deixou-nos hoje o poeta JOSÉ-ALBERTO MARQUES (1939-2024). É com muita tristeza que assinalamos a perda deste poeta que acabara de ser publicado no mais recente número da revista NERVO neste mês de Setembro. Um poeta com uma linguagem única, de enorme originalidade, experimentalismo e liberdade. Pioneiro na poesia experimental e visual, tem uma obra vastíssima, talvez pouco conhecida, e que merece que voltemos a ela e a possamos reler com a qualidade e audácia com que o poeta a escreveu”, pode ler-se, tendo ainda deixado um dos seus últimos poemas publicados e que consta do número 22 da revista, edição de setembro e outubro de 2024.
“colocarei bibliotecas em todos os cantos
cuspirei no chão de todas as repartições
andarei a remos nos cafés
porei os pés em cima das mediocridades
amarei todas as mulheres
sentirei o coração a bater
sofrerei ataques
pedirei esmola
farei teatro na Praça
entrarei nos cafés sem pedir a conta
darei murros
levarei murros
levantarei os muros com as mãos
trarei para junto deles as pessoas
serei perene
serei eterno
acamparei nos cemitérios
irei à missa
destruirei tudo o que for possível
enlouquecerei as pessoas
re-matarei nero
re-matarei hitler
matarei os mitos
não me matarei
logicamente tenho um certo respeito
por mim”
José-Alberto Marques
O jornal mediotejo.net lamenta o falecimento do escritor e endereça as suas mais sentidas condolências à família enlutada.
O corpo de José-Alberto Marques estará em câmara ardente na Capela de Sant’Ana, em Abrantes, a partir das 18h00 desta sexta-feira, dia 20. As exéquias religiosas acontecem na manhã de sábado, pelas 9h30, seguindo para o crematório do Entroncamento, onde será cremado pelas 11h00.

