Paelha galega e sardinhas assadas com feijão-frade eram as receitas culinárias preferidas dos ditadores Franco e Salazar. O preparo galego integra cebolas, pimentos verdes e vermelhos, cogumelos, chouriço, frango, amêijoas, gambas, mexilhões, um pisca de açafrão, tomates e concentrado de tomate, arroz de grãos redondos, ervilhas, caldo de frango, tudo temperado com azeite e caldo de frango. O lusitano compõe-se de sardinhas, frescas, inteiras, limpas, a salada de tomates ornamentada com azeitonas, alho, rodelas de cebola, grãos de sal, de pimenta negra, rodelas e sumo de limão e no tocante ao feijão-frade, além deste, alho pelado, cebola, azeite, vinagre de vinho e um ramos de salsa.

Um e o outro prato são sobejamente conhecidos e extremamente populares ao ponto de terem sido utilizados na propaganda política dos autoritários regimes ibéricos. Se estudarmos os hábitos de outras figuras inimigas da democracia encontramos similitudes a suscitarem curiosos ensaios de diversas matrizes. Uma delas prende-se com a origem de classe das sinistras personagens a denunciar a precariedade de meios e tudo quanto se associa ao acto de satisfazermos a necessidade básica – comer – nos primórdios da sua existência.

Ao contrário dos gebos envernizados, foram-se envernizando à medida da sua ascensão política, daí a preferência por comidas prosaicas, sem grandes preocupações estéticas, que não técnicas, pois confeccionar a preceito a paelha como as sardinhas assadas exige adestramento e grande apuro nas usanças culinárias. Há excepções, uma delas é Fidel Castro amante de sopa de tartaruga, oriundo de uma abastada família de raízes galegas foi educado pelos jesuítas.

Agora, nestes últimos dias da avalanche Trump o americano tem recebido todo o género de desqualificações (inúmeras reveladoras de desconhecimento da realidade americana), procurei saber quais os gostos alimentares do imprevisível Presidente, não encontrei nada de anormal, apetência dentro do padrão da alta burguesia ianque, logo bem distante da dos ditadores. Neste ponto os analistas erraram rotundamente. Um dos seus pratos preferidos é lagosta recheada à bostoniana.

No último número de revista bilingue INTUR escrevi um artigo intitulado – comida e sexo –, porém não lhe associei nenhum ditador apesar de existirem grotescos exemplos, caso do «pai» dos povos e do grande educador. Um e o outro suscitaram fanáticos e furibundos aplausos existindo grande cuidado no ocultamento das práticas sexuais de tão «queridos» guias de mulheres e homens, refiro-me a Estaline e ao querido camarada Mao.

Dos possíveis desvarios sexuais dos ditadores da Jangada de Pedra pouco se sabe. A mulher do ditador de Ferrol seria ríspida e autoritária, mandona a mandar num General, o Botas de Santa Comba executava as ordens da governanta, a Dona Maria, por isso, na falta da criada, ela mandava-o de ir ao galinheiro buscar os ovos postados pelas galinhas. Cumpria diligentemente as ordens, em troca recebia um mimo – um ovo estrelado polvilhado com açúcar escuro – convenientemente cozinhado na sertã. Ele lambia os beiços ante a guloseima e deixava a Dona Maria afagar-lhe os cabelos.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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