Estejam os leitores descansados – não vou abordar o histórico dos ovos de Páscoa – muito menos os porquês de eles se impuserem na nossa toada pascal colocando em desvantagem sinos e sinetas de tão valiosas e representações do nosso património imaterial e material. Nada disso. Nós por cá, a maioria, aproveitava a quadra de exaltação religiosa em torno da Paixão para comer, beber, chuchar, sorver, mastigar ovos, fossem dentro da nomenclatura fornal, quando se utiliza o vocábulo Ovo, significa de galinha, fossem de pata, de perua, de toda a sorte de pássaras e pardalocas. Ovos e ovinhos bebidos às escondidas, ovos batidos com açúcar e cerveja, aguardente ou vinho para concederem peito e músculo a organismos fracos, ovos chuchados ainda quentes mal acabados de brotarem dos cus das galinhas (os chuchadores exímios na função só contavam com eles após deglutirem tal como os furões seus rivais conheciam os locais do agachamento das poedeiras trazendo grossas zangas às donas), eram ensejo para repararem corpos e concederem fortaleza aos rapazes tocadores e bailadores nas festividades da Páscoa.
Se no Nordeste Transmontano os ovos foram e são essenciais na confeção (agora, na maioria dos casos fabricam-se) de folares, pela cor do folar sabia-se quem o tinha feito, também entravam nos comeres da efeméride, especialmente no tocante a doces de colher e bolos, especialmente o pão-de-ló.
Todos sabemos quão importantes são os ovos nas economias domésticas, numa aflição, num imprevisto, os ovos possibilitam conceber preparos culinários de variadíssimos géneros, seja na qualidade de elemento principal das refeições, seja no que tange a acompanhamentos permitindo desafogo e vitais composições a toda a hora, a todo o momento, daí a fama alcançada por cozinheiras e cozinheiros no criarem receitas de ovos. Uma breve consulta a receituários de todos os tamanhos e paragens o comprovam sejam os célebres ovos rotos de registo castelhano, sejam os deliciosos ovos de cem anos criação chinesa que apreciei uma vez cuja receita obriga a fadigas e paciência pois comem-se a partir do terceiro mês do início da construção da receita, sejam os escalfados de várias formas, sejam os fritos que inspiraram Velasquez a pintar a velha a fritá-los, os ovos partidos, os ovos em meia-cozedura, a possibilitarem grandes alegrias palatais e a desmesuras de comilões de ovos cozidos frios, em frituras leves e pesadas, em vinagreta ou em fio.
O leitor, mesmo o menos adestrado nas práticas de fazer comida, certamente, já tentou cozinhar uma omelete sem ficar como um pneu, sim espalmada cujo conteúdo não engrole ou espapace, caso tenha conseguido está no ponto de passar à categoria dos empadões e/ou pastelões. Está no bom caminho. Assim, inúmeros profissionais iniciaram as suas criações fazem parte do reduzido núcleo de receitas escolhidas pelo engenho e opulência. Pense em ovos escalfados em caviar! Deixo-lhe a admiração porque um ovo estrelado à puta pobre em determinadas circunstâncias pode satisfazer uma rainha, e ovos escalfado à arquiduquesa servidos ao pequeno-almoço a seguir a uma ressaca aconchegam mas não retiram a má disposição. Boa Páscoa e muitos ovos na travessa, no prato, no pão, em cima de uma folha de alface, ou chuchados sem mais, sem menos.

