Na caminhada de ontem à noite pelas ruas da aldeia as minhas filhas contaram 11 osgas. Repito: 11 osgas. On-ze. Mais de uma dezena delas, grandes, pequenas, algumas bebés ainda, todas nojentas. Que me desculpem os leitores que simpatizam com a espécie, mas não suporto tal bicho. As lagartixas ainda tolero, mas as osgas dão me um nojo imenso. Por mim, liquidava-as todas.
As miúdas não compreendem, repreendem-me, às vezes até dizem que são fofinhas. Fofinhas, imagine-se. Como assim? Deve faltar pouco para me dizerem que querem adotar uma, aposto. Fico com arrepios só de pensar. Acho-as asquerosas, terrivelmente perturbadoras e imprevisíveis, as sonsas, sempre a fingir que não fazem mal a ninguém.
Ao serão é vê-las aos montes, coladas às paredes e junto aos beirados, sempre de olhos bem abertos, atentas a todos os nossos passos. Eu cá não consigo ignorá-las, sobretudo dentro de casa. Vai que me caem na cara durante o sono?
Há que meter ordem nestas meninas; ou saem a bem ou faz-se uso da vassoura e do chinelo. Dito assim parece fácil, como se eu não hesitasse um minuto acerca das minhas reais intenções e elas compreendessem os motivos do despejo. O problema é que elas nem sempre percebem a mensagem à primeira e apanhá-las também não é fácil. Sobretudo se as minhas filhas estiverem a assistir, e ruidosamente a torcer pela osga, o que a mim, claro está, me acobarda ainda mais.
Foge!
Foge!
Só que ela não foge, e mesmo que se mova uns centímetros logo volta a parar. E ali fica, indiferente ao meu desconcerto, aos gritos das miúdas e à má sorte de ter nascido tão feia. Resta-me, pois, ordenar-lhes que fiquem por ali a tomar conta do bicho enquanto eu engulo a vergonha e vou chamar alguém com mais pontaria do que eu.
A avó costuma ser boa nisto. A maior parte das vezes consegue que elas voltem para a natureza inteiras e bem de saúde, sob os vivas triunfantes das netas; ou, mais raramente, ligeiramente aleijadas.
Às vezes, por serem teimosas, ficam sem o rabo, mas acabei de ler agora mesmo que a cauda das osgas, usada para armazenar gordura e água, volta a crescer. Também li que o rabo continua a mover-se depois de separado do corpo para desviar a atenção dos predadores da osga em fuga. Descobri ainda que a espécie mais comum em Portugal é a osga-moura e que uma das suas características mais distintivas são as patas, responsáveis pela capacidade que têm para desafiar a gravidade e trepar qualquer superfície, e outra o facto de não terem pálpebras móveis nos olhos.
Quanto a curiosidades, fiquei também a saber que há osgas de diferentes tonalidades (algumas conseguem até mudar de cor) e que todas são capazes de permanecer em pé e abanar as caudas. Mais: são completamente inofensivas para o ser humano, além de se alimentarem de insetos como mosquitos, aranhas e formigas, esses sim, potencialmente mais perigosos. Foi-se-me a coragem para continuar com as matanças, pronto.
No Havai, por exemplo, as osgas são sinal de boa sorte e na Tailândia acredita-se que ouvir o som de uma osga sete vezes seguidas é bom augúrio. Não fazia ideia de que as osgas emitiam sons. Pensando bem, deveria ter feito a pesquisa antes de ter começado a escrever estas linhas. Agora é tarde, segue assim.
