“Os tempos das cheias do Tejo – II Parte”. Crónica de Fernando Freire

“Espetáculo da Natureza; medonho, terrível e funesto. O rio, não podendo comportar dentro do seu leito mais massa líquida, deitou para fora, alagando os campos marginais sem dó nem piedade. Aqui e além ouvem-se gritos de aflição. São aos pais, as mães e os filhos sem lar e com os haveres perdidos. A água barrenta, revolta e imunda, continua a alagar, cada vez mais, os campos cobrindo a pequena vegetação e deixando a descoberto, apenas, as cúpulas das árvores. Para qualquer parte que nos viremos, em geral, somente se avista um extenso lençol de água. – “Ainda sobe”?… É, a pergunta que se faz a todo o momento; onde um “não” tem tanto valor como um oásis num deserto e um “sim” corta tanto, o coração como espada afiada. Espetam um pequeno pau no chão para verem se de facto, ainda sobe. Os olhares fixam-se nele. E junto com um suspiro doloroso uma frase curta, mas triste: – “Ainda sobe!”.

Então, um pobre homem, apressa-se a retirar os seus parcos haveres de sua casa, onde os deixou estar, até ao último momento, na esperança do que a água desça. Mas não!… Ela ruge ameaçadora batendo de encontro ao limiar da porta tentando tragar-lhe tudo quanto possui.

É horroroso!  Pobres animais indefesos morrem tragados pelas águas no tropel de salvação. Foram esquecidos ou impossíveis de salvar. Um velhote, de olhos fixos na sua casita abraçada por aquele colosso que é a cheia, pensava taciturno na sua situação crítica e, ao mesmo tempo, inultrapassável. Era pobre, sem abrigo … e pelo rosto, tisnado pelo sol de muitos verões, correm lágrimas sentidas humedecendo a espessa e grisalha barba …

Que devemos expulsar os inimigos que nos queiram roubar a nossa independência, nem que para isso se tenha que empregar a força, defendendo os nossos direitos… E então como devemos expulsar esse grande inimigo que se apossa dos nossos lares deteriorando tudo quanto encontra?  Por certo: – o inimigo dos inimigos?” (1)

[Continuação da crónica de https://mediotejo.net/os-tempos-das-cheias-do-tejo-i-parte-por-fernando-freire/ ]

LEVANTAMENTO DAS CHEIAS

A Ponte Romana de Alcântara, junto a Valência de Alcântara foi danificada por uma inundação, tendo sido reparada por ordem do Rei Afonso X. (2)

1550 – 26 de novembro

A cheia foi tão colossal que Frei António de Lisboa pede que as terras da comenda de Almourol fossem anexadas “in perpetuum” aos bens da mesa mestral, como compensação económica dos prejuízos causados por esta cheia. Outrossim, o testamento de D. Martim Gil “A grande cheia do rio Tomar (Nabão): aos 26 dias do mês de novembro de 1550 anos, a uma quinta-feira, cresceu o Rio tanto desta vila de Tomar, não chovendo tanto, que fez a perda seguinte, e caíram as casas declaradas …”

“Manuel António Morato, Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes – nota de rodapé (XXVI) fl. 94 […] em Portugal um dilúvio de água tão espantoso que logo na primeira noite inundaram rios por tal forma que quase todas as pontes caíram pelos seus fundamentos. O Tejo, levou após suas águas muitos edifícios e arvoredos; a cheia deste rio foi julgada a maior do que até então havia notícia. (3)

1572

No reinado de D. Sebastião, (1557-1578), vendo os Religiosos de Tomar que o novo curso do rio Tejo lhes destruía as suas terras do Campo da Cardiga pediram uma provisão ao rei para que se pudesse mudar o Tejo para o seu trajeto original. Alegavam para tal, os freires de Cristo, através do seu D. Prior Fr. Adrião Mendes que só no ano de 1572, devido às cheias do Tejo tinham tido um prejuízo, na Quinta da Cardiga, que chegara à quantia de 1.810$000 réis, quantia avultada para a época. A este pedido respondeu favoravelmente o Desejado através de um alvará régio. Porém, o Tejo não regressaria ao seu percurso original porque a tal se opunham os municípios situados junto ao Tejo, desde Tancos a Santarém. (4)

1590

“… “Dia de Santa Bárbara 4 de dezembro do ano de 739 houve no Tejo uma cheia (na 6ª feira) nunca vista até ali, porque excedeu as maiores que se tinham visto, e havia notícia no discurso de 150 anos, seis palmos em alto; só a uma que ouve pelos anos de 1590 excedeu 4 palmos; as mais que foram quase iguais os ditos seis pouco menos; as quais foram a do São Martinho no ano de 1665, a do Santo Amaro no de 699 e, 3 que ouve no de 708, chamado ano das cheias, por haver 22. Outra houve chamada a cheia do entrudo que foi menos que a de Santo Amaro 3 palmos, outra em dias de maio quase como esta. Na minha cozinha da Quinta de Rio Torto está a marca desta grande cheia nas traves da casa de cima, que o Tejo chegou a lavar a face de baixo. Dia de ano bom de 741 veio uma cheia do Tejo que durou até 5ª feira.” (5)

1597 – 15 de janeiro

Dos tempos filipinos colhe-se uma primeira notícia de cheia… (data do ponto culminante, cota máxima). Essa foi, segundo um testemunho coevo, “a maior que nunca se tinha visto no Ribatejo, com queixas das cidades, vilas e lugares, com chuvas continuas todos os meses, dias e horas” (3)

1618

Consta ter havido enchentes por todo o vale do Tejo (3)

1620

Carta Regia de 7 de outubro aos habitantes da Azinhaga “ … que se não torne a mudar por outra parte … visto o que naturalmente costuma fazer com suas enchentes e inundações, e que não há mais razão para se deixar de temer que trazendo-o como agora dizem, deixe de mudar seu curso outra vez com qualquer ocasião da que havia, agora faz quinze ou vinte anos, em que, costumando; a vir pelo dito lugar, se foi afastando para outra parte. E também considerarão que se mudando a mater do rio do curso que agora levai, se poderá causar algum dano, assim nos campos do mesmo lugar da Azinhaga, como nos circunvizinhos, como aconteceu na mudança que se se fez pela Cardiga.” (6)

1626/1627 – fevereiro

[…] na sessão de Câmara do dia 14 referem-se os oficiais abrantinos ao «tempo que vai tão contrário»; a 17 acordam «que nenhuma (pessoa) passasse em bateiras, salvo os barqueiros das barquas, com pena de dois mil réis»; e a 3 de março é o governo de Lisboa que solicita ao corregedor se informe por toda a comarca sobre as necessidades de cada lugar e perdas havidas com as cheias passadas. Depois, foi tempo de contabilizar e remediar os estragos: a 23 de Maio foram ver os «prejuízos das últimas invernadas» na estrada do Pego (onde as águas tinham feito «grande barroca e cavouco») e nas casas de Jerónimo Temudo Caldeira; a 26 foram ver outra estrada na banda dalém «que estava arruinada com o inverno»; a 6 de Junho uma outra, ao Porto das Pedras, «pela ruina que nela fez o Tejo»; a 16 do mesmo mês foi a vez da estrada e ponte da ribeira da Abrançalha «que levou a invernada, pela falta que faz a esta vila a tal ponte», tendo o conserto desta (em madeira) sido posto na praça em arrematação a 11 de Julho; a 18 de Agosto ainda a Câmara apreciava um requerimento dos rendeiros do Tainho, queixando-se estes das invernadas que lhes tinham levado e destruído o milho, «para pagarem o que lhes couber de levar rendamento» – feita a avaliação apurou-se «que valeria a renda do Tainho, pela perda que o Tejo fez, ao mais 4$500 réis ao todo, isto por este ano de renda». E, como um azar nunca vem só, no final do ano já nova tejada punha em sobressalto as populações ribeirinhas, pelo que a l de janeiro de 1627, volvia o escrivão: «e dou fée que há oito ou dez dias que vão grandes invernadas e o Tejo grande” (3)

1628 a 1631

Sabe-se que … não foram anos calmos no Ribatejo, mas à falta de atas camarárias, não nos chegaram pormenores deles sobre Abrantes. (3)

1636

Neste ano […] já novas inundações vinham causar o pânico geral e semear descontentamento. Assim, no princípio de 1636, registam-se prejuízos avultados nas duas bandas do Tejo, em razão dos quais assentaram os vereadores em 8 de Abril ir vistoriar o Tainho «que estava areado»; e em l de Julho declara-se em Câmara o estado de calamidade da agricultura «pellas enundaçõis que este anno ouve, que foi causa de não aver pão na folha da banda dalém (margem sul), pelo que samearão legumes e milhos noutras partes da mesma parte dalém (…)»1. Teriam ao menos estas novas sementeiras compensado os lavradores e minimizado os danos sofridos? Talvez, mas só minimamente, porque nos começos do Novembro seguinte já as actas camarárias nos dão conta de novas cheias. Com efeito, logo na sessão do dia 4 choviam queixas de graves perturbações no sistema viário dos arrabaldes: com a violência das correntes pluviais, a ponte de Alconchel tinha abatido e havia problemas no rio das Bicas; a 18, a vereação assentava que «se fossem fazer vestorias no ribeiro de Fernão Dias e nas pontes em rezão das cheas e tromentas que houve»; e a 20 de Dezembro rëclamava-se vistoria «à ponte do rio Pombal, por estar empedida por respeito das cheas, com os silvados das ortas que caiam para a dita ponte” (3)

1647 – 5 de setembro

Alvará. Terra que acresceu depois da cheia do Tejo. (7)

1665

“… as mais que foram quase iguais os ditos seis pouco menos; as quais foram a do São Martinho no ano de 1665”. (5)

1669

“… a do Santo Amaro no ano de 1699.(5)

1708 – o ano da 22 cheias

“… e, 3 que ouve no ano de 1708, chamado ano das cheias, por haver 22. (5)

1739 – dezembro

O “Diário” de 8 de dezembro 1739 dá conta que “A 2 de Dezembro deste ano de 1739 principiou a chover muita água, a três que foi 5ª feira se viu encher o Tejo muito, e na 6.ª feira que se contarão quatro, foi uma cheia tão grande que havia mais de 40 anos não fora outra igual […].”

 “Dia de Santa Bárbara 4 de dezembro do ano de 1739 houve no Tejo uma cheia (na 6ª feira) nunca vista até ali, porque excedeu as maiores que se tinham visto, e havia notícia no discurso de 150 anos, seis palmos em alto …” (Arquivo Nacional – Torre do Tombo, Cópia microfilmada. Portugal, Torre do Tombo, mf. 1669)

Dezembro, 3 a 6 – Grandes trombas de água provocam cheia no Tejo – sobretudo nas “Lezírias de Santarém”, perdendo-se numerosos navios fundeados nos rios.

1740 – janeiro

Finais de Janeiro – Grande cheia do Tejo.

1741

“… Dia de ano bom de 741 veio uma cheia do Tejo que durou até 5ª feira. (5)

1755 – novembro

O Rio Tejo que corre da parte do Sul desta freguesia (Praia do Ribatejo) por espaço de seis ou sete dias se viu muito turvo estando o tempo sereno, e se julgava seria efeito de alguma trovoada, que haveria no Reino de Castela; mas experimentando-se no fim deste tempo o Terremoto se julga foi efeito dele. E na ocasião do mesmo Terremoto (…) saltarão as águas do Rio tanto e se moveram de modo que chegaram a cobrir as praias, como se houvera alguma cheia. E o mesmo se observou no Rio Zêzere, que também pela parte do nascente corre ao longo desta freguesia (Praia do Ribatejo). Relato de 18 de fevereiro de 1756, do vigário, Fr. António José da Assumpção. – Inquéritos Paroquias.  

1769- 11 de abril

Existe a marca de cheia na Quinta da Cardiga

1787 – 5 de dezembro

Copiosa chuva no Sardoal durante 44 horas sucessivas. As correntes das ribeiras, engrossando desmesuradamente, destruíram as sementeiras marginais, arrasaram e submergiram lagares e azenhas. Uma nascente que rebentou no cimo d’um monte, despenhando grandes pedras sobre um lagar de azeite, que estava em laboração, aniquilou-o a ponto de não lhe deixar vestígios.

1807 – 26 de novembro – Junot tenta passar o Zêzere entre Constância (Punhete) e a Barquinha. Havia já dois dias que trabalhavam em Punhete para construir uma ponte, onde ela não existia. O rio Zêzere pela sua largura, pela sua profundidade, pela rapidez e força das correntes, que muitas vezes fazia subir trinta pés em poucas horas, engrossou de onze a doze pés durante a noite de 26 para 27, e destruiu todo o trabalho da véspera e que não permitiu recomeçar a construção da ponte. Era impossível a qualquer barco atravessar o caudal. A corrente das águas arrastava-os com grande violência fazendo-os tocar quase o lado oposto da margem do tejo.

1821 – 20 de janeiro

Ocorreu outra grande cheia (8)

1823 – 8 novembro

Relato de cheia

1823 – 2 de fevereiro

“Trinta e quatro dias de copiosas e não interrompidas chuvas, a par de ventos tempestuosos, trouxe à ribeira de Coruche e ao Tejo, uma cheia tão grande, de cuja igual não há memória. Este fatal acontecimento não me é transmitido por informações que muitas vezes são exageradas ou fabulosas (porque o vulgo gosta do maravilhoso) eu sou testemunha ocular, e ontem mesmo não pude passar a Ponte de Vila Nova, distante desta Capital, sete léguas, porque estava submergida, e a cheia passava mais de um côvado próximo das suas guardas. Os valados que contém o Tejo, e formam as suas barreiras, estavam igualmente afogados, e de Norte a Sul, tudo era Tejo, sendo os Montes do Norte, e Sul, as suas barreiras… Alguns homens do campo afogados, perderem-se todas as sementeiras já feitas desde Beirolas, até Abrantes.  (9)

1841 – fevereiro

Relatório e Contas da gerência da Comissão de Auxílios criada por Decreto de 15 de fevereiro de 1841, por ocasião das inundações do Riba Tejo e outros pontos da Província da Estremadura no Inverno de 1840 a 1841, Imprensa Nacional, 1841

1843 – fevereiro

Havendo chegado ao conhecimento de Sua Majestade a Rainha as deploráveis circunstancias de algumas povoações do Ribatejo em consequência da extraordinária cheia, que nestes dias últimos as têm inundado; e Desejando a Mesma Augusta Senhora, em quanto se não dão ulteriores providencias, prover do pronto ás primeiras necessidades dos indivíduos, que mais tem sofrido com esta calamidade, Manda, pela Secretaria d’Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, que o Inspetor do Arsenal de Marinha, faça imediatamente remeter ao Tenente Coronel de Artilheria, Joaquim Januário Lapa, um auxilio de mantimentos, e combustível semelhante ao que esta Repartição se forneceu em Fevereiro de 1841 por um igual acontecimento, a fim de serem pelo dito Tenente Coronel distribuídos, conforme as instruções, que lhe forem dirigidas pelo Ministério do Reino: ficando o mesmo inspetor autorizado a enviar aos pontos, em que se julgue necessário, socorros de Embarcações, e gente, que lhe for requisitada, dando de tudo parte a esta Secretaria d’Estado” (10).

1852 – 19 e 20 de novembro

Portaria ao superintendente das obras do Tejo, sobre as providencias a tomar para evitar os males em ocasião de cheia “… em que descreve a cheia que houve neste rio, na noite de 19 para 20 deste mês; e em que dá parte das providencias que tomara para salvar pessoas e gado, visto ser este o único auxilio que podia prestar aos povos em semelhante crise; e o Mesma Augusta Senhora, avaliando devidamente o conteúdo no dito oficio, Manda louvar o referido Coronel e os seus empregados, pelos bons serviços que prestaram nesta ocasião; e Determina que em casos semelhantes se dirija ele ás autoridades administrativas para estas lhe prestarem os auxílios que ele requisitar, a fim de evitar, quanto possível, os males que as cheias possam fazer; na inteligência de que hoje se dão as ordens convenientes, neste sentido, ao Governador civil de Santarém.”(11)

1853 – 18 a 21 de dezembro

No Rossio ao Sul do Tejo a cheia cobre os 1ºs andares das casas. Inundação, trovoada, chuvas e vento forte provoca avultados prejuízos. A subscrição que se fez para lhes acudir rendeu 137.615 réis, tendo o Governo subsidiado 401.585 réis. Após todas as reparações sobraram 155.130 réis que foram destinados ao Rio de Moinhos para o seu cemitério. (3)

1855 – 18, 19 e 20 de fevereiro

As sucessivas chuvas que começaram em força no dia 13 deram lugar a aparecer o receio do crescimento das águas do Tejo. Em Abrantes na povoação do Rocio trinta edifícios ficaram quasi totalmente arruinados nesta freguesia. Calcula-se acima de mil alqueires as perdas de azeite que o Tejo levou. A Vila de Constância, na parte mais baixa foi vítima da inundação dos dois rios, Tejo e Zêzere: os seus habitantes tiveram de evadir-se pelas janelas e pelos telhados. Os campos de Almeirim, Chamusca, Benavente, Salvaterra, Coruche, etc. foram completamente inundados: as searas, que prometiam ao lavrador uma abundante colheita, foram totalmente aniquiladas. Em Vila Velha de Ródão o rio Tejo atingiu a cota de 84,99 metros. (2)

“Tendo atenção ao que na sua correspondência oficial, Me representa o Governador Civil de Santarém, acerca dos estragos e ruinas proximamente e ocorridos n’aquele Distrito, por efeito das extraordinárias enchentes do Tejo, e subsequente inundação dos campos e povoações adjacentes, e sobre a necessidade e conveniência de prover de remedio ás grandes perdas e danos, que, por ocasião de tamanha calamidade, sofreram muitas famílias e pessoas indigentes, ficando reduzidas muitas d’ellas a um completo estado de pobreza e miséria ; e Desejando Eu aliviar os males de tantos infelizes, que , em suas lamentáveis circunstancias, se fazem dignos de todos os socorros públicos …” (Decreto de 8 de março de 1855).

“… efeito produzido pelas últimas cheias do Tejo nas obras do caminho de ferro de Leste; Há por bem Declarar, que Lhe foi agradável saber que não houve estragos importantes nas ditas obras…” (Portaria de 19 de março de 1855).

Em Santarém, a altura hidrométrica atingiu 7,42m.

Oficio do governador civil de Lisboa ao oficial maior do arquivo para ele e os seus empregados concorreram com alguns donativos para as pessoas pobres que sofreram a inundação dos campos e povoações, pela enchente do Tejo (Arquivo Nacional – Torre do Tombo. Avisos e Ordens, mç. 25, n.º 118)

1856 – 7 de janeiro

Cheia em tudo semelhante à de 1855. (3)

1860 – 23 e 25 de dezembro

Igual á dos anos anteriores (16 metros em Abrantes). (3)

1870 – 13 de dezembro

As águas provocam danos no aterro da avenida da ponte, na margem direita do rio.(3)

1871 – 4 de dezembro

EmSantarém com altura hidrométrica 6,71m

1872- 25 de janeiro

Em Santarém com altura hidrométrica 6,60m

1872 –  de 6, 13, 15 e 16 de fevereiro

Em Santarém com altura hidrométrica 6,85m

Na escala de Rodão a água atinge 16,10 metros e em Abrantes 11,50 metros.(3)

1876 – 6, 7, 8 de dezembro

É a maior cheia conhecida e referenciada com as respetivas marcas. As águas atingiram na ponte de Alcântara uma altura de 35 metros acima do leito do rio. (A capacidade de escoamento estimada para a ponte é de 22.000 m3/s). (29 e 5). Em Vila Velha de Ródão, atingiu uma altura de cerca de 26 metros inundando os terrenos até à cota 86,89 metros. É a cheia mais devastadora na região do baixo Tejo inundando e pondo em perigo haveres e populações de Vila Franca e Valada, refugiando-se estas últimas (mais de 1500) nos pontos altos dada a eminência do perigo. Em Abrantes a cheia atingiu a maior altura desde 1855. No Rocio estão debaixo de água casas tendo morrido alguns animais. Tem aparecido muitas cobras de vários tamanhos dentro dos vapores que andam no Ribatejo. Fogem dos campos e procuram amparo nas embarcações. O Regedor de Valada quando chegaram os primeiros socorros, dizia que tinha perdido tudo e estava desgraçado e esta calamidade o deixará perturbado e sem ânimo. (2)

 “A cheia do Tejo, em Santarém, é uma das mais notáveis de que há noticia. O rio apresenta um aspeto majestoso como se fosse o Amazonas ou o Mississípi. As aguas chegam a Almeirim; isto é, a próximo de uma légua da margem habitual. Os campos de Valada estão literalmente inundados e toda a povoação teve de fugir para as montanhas. Em Muge sucedeu outro tanto…No Pombalinho, ao pé da Chamusca, afundou se um barco que ia para o Reguengo com quatro pessoas, perecendo todas elas.” (Diário Ilustrado, 1876, dezembro, 7, p. 2).  “As águas chegaram até à estação de Abrantes, tende o chefe da estação de pedir socorro, telegrafando ao administrador do concelho que enviasse barcos para salvar o pessoal da estação.” (Diário Ilustrado, 1876, dezembro, 8, p. 2).  Pelo rio abaixo tem vindo muitas cobras até Lisboa. Entraram ontem duas num vapor fundeado na Cova da Piedade. Defronte de Vila Franca de Valada os coelhos e lebres têm-se refugiado nas árvores… Os habitantes de Valada, que se haviam salvado em barcos, vendo anteontem melhorar o tempo voltaram à povoação; mas ao anoitecer começou a água a crescer e a invadir as casas; e eles; tendo de se refugiar nos telhados, começaram a tocar matracas, chocalhos e sinetas, pedindo socorro. Acudiram-lhes os vapores Touro e Pescador, recolhendo-os este último, a bordo do qual ainda estavam ontem. Algumas casas abateram. … A cheia impedia ontem a passagem do comboio para além de Vila Franca. A linha de Norte eslava interrompida entre Vila Franca e Torres Novas. Desde esta estação até ao Porto estava desimpedida. Hoje fica restabelecida a circulação desde Santarém a Gaia, e brevemente estará em toda a linha. Do lado de leste apenas ontem estava interrompido o movimento entre a Praia Ribatejo e a Bemposta.” (Diário Ilustrado, 1876, dezembro, 9, p. 2).  E 23 de dezembro desse ano, o Diário Ilustrado referia que o conde da Atalaia (Vila Nova da Barquinha) de carácter nobre e coração bondoso, converteu o seu palácio de Santa Marta de Monção (em Almeirim), num verdadeiro asilo, e ali abrigava e sustentava mais de 30 pessoas do lugar de Benfica do Ribatejo a quem as cheias levaram habitações e haveres E concluía: “Enternece ver como o venerando ancião prodigaliza aos pobres a alimentação do espírito a par do pão de cada dia” (Diário Ilustrado, 1876, Dezembro, 23, p. 1). Esta cheia atingiu 26,16m em Rodão, 16.32m em Abrantes, 8,28m em Santarém e em Tancos uma altura hidrométrica de 8,70m.

Existe a marca de cheia na Quinta da Cardiga

1877 – 8 de janeiro

O governo teve ontem conhecimento oficial de que no dia 8 a linha de leste conservou se inundada em vários pontos entre Vila Franca e Reguengo e entre Mato de Miranda e Torres Novas. As trincheiras continuam a escorregar e a abater. Entre Mato de Miranda e Torres Novas ao passo que as aguas se elevavam, manifestavam-se estragos importantes, principalmente nos quilómetros 97,400 e 98,200, sendo arrastado o balastro da via, corroídos e abatidos os aterros em toda a largura dos passeios laterais a via, e abrindo-se fendas nos mesmos aterros. Houve apenas circulação de comboios de Torres Novas para cima …

Ontem, ás quatro horas da tarde, desabou sobre a cidade de Lisboa um formidável ciclone. Causou importantes avarias no Tejo. Afundaram se algumas fragatas e outras ficaram com o panne feito em tiras. Escangalharam-se de encontro aos cais alguns botes pequenos … (Diário Ilustrado, 1877, janeiro, 10, p. 3). 

A cheia tem diminuído, porém o tufão de anteontem a tarde destruiu as reparações já feitas entre o Carregado e a ponte do Reguengo; as que se fizeram entre Mato de Miranda e Torres Novas sofreram menos. (Diário Ilustrado, 1877, janeiro, 11, p. 3). 

“Com os últimos temporais abateu uma grande parte da muralha que circunda o Castelo velho do antigo convento de Cristo em Tomar; o resto está cheio de fendas, e ameaça próxima ruina. Parece que se vai mandar apear a muralha e a torre até à altura que não ameaça queda, por isso que a reparação a fazer é muito dispendiosa.” (Diário Ilustrado, 1877, janeiro, 31, p. 1).  A Lei de 6 de abril de 1877, legaliza a despesa feita com os socorros fornecidos ás povoações do Ribatejo, por ocasião das inundações de dezembro de 1876 e janeiro de 1877.

A cota hidrométrica, segundo a Extremadura Portuguesa, de Alberto Pimentel, foi a seguinte: 7.56m Santarém, 7,66m Tancos, 13,50m Abrantes e 19,06m Rodão.

1881 – janeiro

Na escala de Rodão a água atinge 16,80 metros.(3)

“A cheia em Santarém tem diminuído consideravelmente”. (Diário Ilustrado, 1881, janeiro, 31, p. 3).  A revista Ocidente, de 11 de fevereiro de 1881, mostra-nos 3 desenhos naturais de Malhoa sobre as cheias. Segundo Alberto Pimentel, na Extremadura Portuguesa: “Desde que se passa a estação de Sant’Anna, o espetáculo toma uma feição nova, muito mais surpreendente por certo. Árvores verdejantes, laranjeiras e oliveiras surgem, numa grande abundância, em linhas sinuosas, traçando sobre o rio desenhos fantásticos. Algumas das laranjeiras, copadas e viçosas, curvam para a corrente os seus pomos amarelos. Renques de choupos, emergindo do Tejo, estremecem convulsionados

pelo ímpeto das águas, movendo-se como n’uma dança macabra de arvores animalizadas. O telhado d’uma casa, erguido quatro ou cinco palmos acima da corrente, espera, na estúpida imobilidade de um naufrago, o momento de ser completamente submergido. De quando em quando uma ave solitária desdobra serenamente as asas sobre o dilúvio, ao passo que á flor do rio um grande ramo verde passa nadando vigorosamente, levado na onda. Em Santarém, a cidade baixa, a praça da Ribeira, está completamente inundada. Casas brancas e solitárias poisam sobre lagos vidrentos; as janelas fechadas, como na presença de um inimigo terrível. Um outro vapor mandado de Lisboa, e pronto a qualquer aviso, aguarda as ordens do governador civil. Nas Portas do Sol estavam hoje muitas pessoas presenciando o imponente espetáculo da cheia. Vista d’essa altura, a bela ponte que atravessa o Tejo parece uma insignificante linha escura, que a corrente ameaça apagar de um momento para o outro. Entre Santarém e Almeirim parece mediar um oceano. Ao longe, as casas alvejantes de Alpiarça afiguram-se um bando de patos nadando, tal é a velocidade da corrente, e a distancia a que se mostram.”

A cota hidrométrica foi a seguinte: 7.63m Santarém, 7,74m Tancos, 11,55m Abrantes e 17,56m Rodão. (12)

1884 – abril

A cota hidrométrica, segundo a Extremadura Portuguesa, de Alberto Pimentel, foi a seguinte: 7.48m Santarém, 7,46m Tancos, 11,00m Abrantes e 17,16m Rodão.

1885

Em Santarém com altura hidrométrica 7,20m

1895 – 26, 27 de fevereiro e 2 de março

EmSantarém com altura hidrométrica 7,57. Depois de 1876 foi hoje que o Tejo atingiu maior altura. Enche lentamente. O vapor vindo de Lisboa distribuiu mantimentos na Ribeira de Santarém, seguindo para o Pombalinho e Azinhaga. Entre a Estação da Praia do Ribatejo e Tramagal as chuvas inundaram a linha (ferroviária) na extensão de alguns metros.

“O próprio Saragoçano* referindo-se ao temporal interroga: Quando se afastará da nossa Península. Em Ródão (81,95 metros) o rio saiu fora do leito e alastrou-se de forma assustadora. Em Abrantes a água chegou próximo da Igreja e está prestes a inundar a estação do caminho de ferro. Nas estações de Santarém e Azambuja a água invade a linha-férrea. Em Santarém, depois de 1876, o Tejo atingiu a maior. altura. O Tejo encheu até uma altura de 7,57 metros e a miséria é grande na parte baixa do distrito”. 1

Alguns habitantes do Rossio ao Sul do Tejo obtêm abrigo no Convento de Nossa Senhora da Graça (refere-se este facto por ter sido o último serviço que o Convento da Graça prestou à comunidade local. Em Abrantes (Rossio ao Sul do Tejo) a água chegou próximo da Igreja e está prestes a inundar a estação do caminho-de-ferro. 2

“O temporal continua fazendo estragos em vários pontos do país, especialmente nas linhas férreas. Na Beira Baixa as chuvas inundaram ontem a linha próxima de Rodão, chegando a agua até ás portas de Rodão, e promovendo muitas derrocadas.” (Diário Ilustrado, 1895, fevereiro, 28, p. 2).  “SANTARÉM, 24, t. A cheia do Tejo diminuiu regularmente” (Diário Ilustrado, 1895, janeiro, 25, p. 3). A cota hidrométrica, foi a seguinte: 8,03m Santarém, 8.10m Tancos, 13,17 Abrantes e 20,46m Rodão. (12)

1900 – 13 de fevereiro. Uma cheia de grandes proporções inundou parte do Rossio ao Sul do Tejo. A escala de Rodão assinala 16,40 metros.

Famílias são alojadas na Vila de Abrantes. (3). “Os últimos dias foram assinalados por grandes temporais que fizeram sentir a sua ação terrível e destruidora em diversos pontos do país e especialmente no Porto e em Coimbra. —Em Santarém, Moledo, Azambuja também houve sinistros produzidos pelo temporal.” (13)

(Continua)

Fontes:

(1) Jornal “O Moitense” n.º 96, ano de 1944

(2) LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias – 1800-2007”, coleção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009

(3) VIEIRA, José Manuel d’Oliveira, Cronologia das Cheias do Rio Tejo (1550/2010), ano 

(4) BATISTA, Luís. Cardiga ou história de uma quinta (1169-2019 – 1ª ed. Municípios de Entroncamento, Golegã e Vila Nova da Barquinha, 2019)

(5) Arquivo Nacional – Torre do Tombo, Cópia microfilmada. Portugal, Torre do Tombo, mf. 1669)

(6) Carta Régia de 7 de outubro de 1620, D. Filipe II (1598-1621), Livro 1620-1627

(7) Arquivo Nacional – Torre do Tombo, Rui Figueiredo, Registo Geral de Mercês, Mercês da Torre do Tombo, liv. 13, f. 520-520v

(8) Diário do Governo de 21/01/1821.

(9) Diário do Governo, n.º 30, de 04/02/1823, na página 5, ver também Gazeta de Lisboa, n.º 265, 8 de novembro de 1823

(10) Portaria de 20 de fevereiro de 1843, Livro 1843

(11) Portaria de 22 de novembro de 1852, Ministério da Obras Públicas, Livro 1852

(12) PIMENTEL, Alberto, Extremadura Portuguesa, 1908

(13) Diário Ilustrado, p. 3, fevereiro, 14 de 1900.

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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