Em 33 anos, de 1852 a 1885, verificaram-se 45 cheias. Este número demonstra como eram recorrentes nos tempos de outrora. Foto: CMVNB

Nesta terra há um rio antigo de saudade
Que nos dá vida e sonho e encantamento
E a paz que o campo tem e a verdade
De quem vive outro sítio outro momento
….
E o Sol e a gente e o campo e a cidade
E a cheia, esse chão de água a cobrir tudo
E a alma imensa de um povo sem idade
Não mudes tu meu povo, que eu não mudo

E doce e forte e sereno ao mesmo tempo
Como os cavalos ao longe ao pôr-do-sol
Existe aqui um tempo que é eterno
Na lenda e no feitiço do Almourol
(Poema de Pedro Barroso)

Foto: CMVNB

Uma cheia coincide com a ocorrência de um aumento rápido e anormal do caudal médio de um curso de água, com consequências sobre as suas margens sob a forma de alagamento temporário dos terrenos e interferência sobre o uso do solo.

Uma inundação, por definição, é o fluxo anormal de águas torrenciais a determinados locais que provocam o mesmo fenómeno de alagamento (TELHADO, 2006).

Em Portugal Continental existem, atualmente, 22 zonas com riscos significativos de inundação de acordo com os planos de gestão de riscos de inundação.

As cheias mais significativas ocorrem essencialmente nas bacias hidrográficas dos grandes e médios rios como o Tejo, o Douro e o Sado.

A presente crónica versa os tempos das cheias do rio Tejo. Este rio germina na serra de Albarracin, a uma altitude de 1593 metros. O leito e as suas águas palmilham 1070 Km, aproximadamente, até desembocar no Mar da Palha. Com esta dimensão este é o rio mais vasto da nossa Península Ibérica. A ele vem confluir inúmeros rios, ribeiras e regatos.

Importa recordar a inexistência de obstáculos criados pelo homem até meados do século XX, tempo em que as suas águas fluíam livremente. Porém, tal paradigma foi interrompido com a introdução de barragens: a de Alcântara (Espanha), a de Belver, e do Fratel, e, no rio Zêzere, a do Cabril, a da Bouçã e a de Castelo de Bode. 

Este longo trajeto ou curso das águas livres, em tempos de forte pluviosidade, passou a ser contido ou represada. Isto sem prejuízo das águas desviadas por transvases, no final do século XX, para outras bacias hidrográficas, respondendo a carências hídricas de regiões de Espanha.

Recordo que o desenvolvimento económico que sobreveio após a II guerra mundial veio acarretar uma grande procura de energia elétrica, que ainda hoje se mantém, e que teve como consequência a construção de diversas barragens hidroelétricas na bacia destes rios peninsulares. Esta situação veio a concorrer, de sobremaneira, para a mudança do regime hidrológico dos rios refreando as recorrentes cheias ou inundações, pelo armazenamento ou contenção a montante e a sua consequente regularização de caudais com especial enfoque nos últimos anos devido à falta de pluviosidade.

Foto: CMVNB

Hoje temos outros fatores que influenciam de sobremaneira os temporais e as cheias. Os episódios muito chuvosos, em especial os eventos de precipitação intensa, constituem um dos mais graves riscos naturais existentes em Portugal (FRAGOSO, 2004). As precipitações intensas são fenómenos meteorológicos característicos do período do outono à primavera, embora possam ocorrer em qualquer altura do ano.

As precipitações intensas podem ser originadas por fenómenos meteorológicos distintos, dividindo-se em dois grandes tipos: precipitações moderadas e prolongadas e precipitações muito fortes de curta duração (superior a 5 mm ou l/m2 por hora).

Segundo, o mesmo autor, as precipitações moderadas e prolongadas devem-se ao atravessamento sucessivo de sistemas frontais associados a núcleos de baixa pressão, que, no caso de Portugal, têm a sua formação ou desenvolvimento no Oceano Atlântico. Originam longos períodos de precipitação, por vezes com a duração de vários dias, conduzindo à saturação dos solos, e proporcionado a formação de cheias, com todas as consequências associadas.

Podem ser considerados como elementos essenciais para o desencadeamento das precipitações intensas:

– Circulação depressionária das baixas camadas condicionada por núcleo de baixas pressões centrados na bacia atlântica ibero-marroquina (ou nas suas proximidades);

– Presença de uma massa de ar quente e húmida nas baixas camadas da troposfera;

– Forte instabilidade convectiva (no período antecedente dos eventos torrenciais).

As condições que acima se destacam podem ser observadas em contextos muito diversos, nomeadamente, no que se refere à dinâmica atmosférica na média e alta troposfera. Outros aspetos do contexto atmosférico poderão também assumir, em situações particulares, uma importância decisiva como fatores favoráveis ao desenvolvimento dos fenómenos convectivos no sudoeste da Península Ibérica e nas suas margens.

No concelho da Barquinha as áreas frequentes de cheias e inundações, devido ao vários fenómenos atmosféricos, verificavam-se ao longo do curso dos rios que banham este concelho, com maior expressão na zona de confluência do Tejo e Zêzere, mas também ao longo do ribeiro das Gatas, de Vale Marques e das ribeiras da Fonte Santa, Seival, Tancos, Vale do Seixo, Ponte da Pedra e Santa Catarina.

Foto: José Neves

Temos um território de matriz rural com existência de elementos naturais determinantes para o seu desenvolvimento. Temos boa e má vizinhança das margens do Tejo.  À cautela, os nossos antepassados em Tancos edificaram um cais capaz de resistir e sobressair de cheias até 7 metros de altura. O rio Tejo, após deixar o vale de Tancos, começa a correr pela lezíria na Barquinha. As casas aqui afastam-se naturalmente do leito para fugir às cheias então recorrentes e sazonais. Os locais mais afastados do leito e com maior altitude, possibilitam uma maior segurança aos povoamentos instalados, como acontece no Pedregoso e na Quinta da Lameira que possuem cotas a rondarem as máximas de cheias conhecidas. Rememoro que as grandes cheias chegam à Ponte da Pedra, limite do atual concelho do Entroncamento.

O tecido urbano de Barquinha define-se para sul de um planalto, em direção ao rio, num traçado urbano em forma de cone. A zona mais densa e consolidada corresponde ao núcleo mais antigo da Vila, as denominadas “zonas baixas”, locais onde se verificavam as habituais cheias e bem perto dos antigos cais que ali foram presentes. Neste quarteirão podemos vivificar as lajes de pedra calcária guarnecendo os pavimentos dos pisos térreos, vestígios da adaptação local à vivência das inundações que, frequentemente, e com a sua adversidade beijavam a vila.

Se durante a estiagem o rio Tejo serpeia por campinas, na ocasião das grandes cheias aquelas campinas também se cobrem de água, e o vale da lezíria ostenta então o magnifico aspeto de um vasto lago desde a Barquinha, Cardiga, Chamusca, Santarém até ao Mar da Palha.

As cheias ou inundações que aconteceram no Tejo semearam desilusão, desfizeram lares, devastaram campos, caminhos, pontes e circunscreveram povoações inteiras à penúria e, muitas vezes, à fome. Mas se provocaram estes danos também trouxeram prosperidade à agricultura, quando os nateiros fertilizadores abraçaram os campos da borda d’água para estes acolherem as sementes onde germinava o pão nosso de cada dia.

As cheias eram, em geral, proveitosas aos solos e delas derivava a abundância destes. Cheias que eram uma bênção, tal como no rio Nilo, no Egipto, pois com a fertilização dos campos nasciam os denominados “nateiros” nos quais se produziam abundantes cereais e produtos hortícolas.

As cheias aconteciam quase sempre entre outubro e março, período de grande pluviosidade ocasião em que engrossava e extravasava o leito do Tejo. Raramente ocorriam de março por diante. Por exemplo, das 45 cheias que tiveram lugar desde 1852 até 1885, apenas 9 sobrevieram em tempo menos oportuno, abril a setembro, sendo ainda assim os prejuízos por estas causados largamente compensados pelos benefícios das 34 restantes.

Por exemplo, em 33 anos, de 1852 a 1885, verificaram-se 45 cheias.1 Este número demonstra como eram recorrentes nos tempos de outrora.

INVENTARIAR o número de cheias ocorridas na Barquinha é uma tarefa hercúlea face aos documentos históricos existentes e às recorrentes inundações que aqui ocorriam. Este trabalho nunca foi feito e, embora reconhecendo que existem algumas lacunas, deverá ser iniciado. Tarefa que procurarei fazer dentro do limitado tempo disponível por razões profissionais.

No século XX as 10 maiores cheias2 foram as seguintes:

Como podemos observar, a cheia de 1979, a maior do século XX, decorreu essencialmente nos dias 10 a 13 de fevereiro: “Só ultrapassada pela de 1876. Rebentamento dos diques de Valada, do Mouchão do Inglês e dos Vinte. Afetadas as captações e a estação de bombagem da água destinada a Lisboa dado a destruição do dique de Valada. Seis mil desalojados no concelho de Abrantes. A gare dos caminhos de ferro ficou completamente alagada, atingindo os dez metros na sala de espera. Colapso no abastecimento de água a Lisboa e cortes na luz. Forças militares e militarizadas foram mobilizadas na sua totalidade. Dez mil pessoas evacuadas, povoações isoladas e gado e culturas perdidos no balanço da catástrofe no dia 13. A Barragem do Fratel debitava 11.042 m3/s (pico) na madrugada do dia 11. Os desalojados de Valada que seguiam de comboio para Santarém tiveram que nele pernoitar pois a via-férrea estava alagada. O Dique dos Vinte teve cinco rombos, dos quais um de cerca de 100 metros. Autotanques dos bombeiros distribuíram água à população de Lisboa. O Caudal de cheia estimado em Santarém é de 15.000 m3/s.” 3

“Bombeiros, forças militares e militarizadas foram mobilizadas na sua totalidade. Na Freguesia de S. Miguel do Rio Torto a água chegou a entrar no cemitério. Os valores das águas em Abrantes chegam próximo dos 16 metros. O ministro da Administração Interna, Dr. António Gonçalves Ribeiro, visitou oficialmente nos dias 12 e 13 de fevereiro a região para se inteirar dos prejuízos causados pela cheia. No dia 17 de fevereiro, pelo mesmo motivo, o ministro da Indústria e Tecnologia, Eng.º António Batista Cardoso e Cunha visita o concelho. No dia 4 de março o Presidente da República, general António Ramalho Eanes e os ministros da das Obras Publicas e da Indústria e Tecnologia, Dr. Orlindo Almeida Pina e Eng.º Álvaro Roque de Pinto Bissaia Barreto, visitam oficialmente o Rossio ao Sul do Tejo para se inteiraram dos prejuízos causados pela cheia. Em Rio de Moinhos, militares retiram os moradores das suas casas”4

Com cerca de 6.000 desalojados para o concelho de Abrantes. As areias acabaram com as culturas da época e com as vinhas.

O Correio do Ribatejo, na edição de 16/2/1979, conta-nos: “O Presidente da República  dirigiu operações de socorro em Valada…O drama atingiu proporções incalculáveis…Gigantesca operação de salvamento …Dez mil pessoas evacuadas para Santarém, Abrantes, Cartaxo e outros locais. Nas operações de socorro participaram helicópteros das Forças Armadas, unidades de Tancos, de Abrantes, da Marinha, das Forças de Segurança e da Escola Pratica de Cavalaria de Santarém … não foi apenas “o cavalo branco”, nome que os homens da Borda d’água dão à enxurrada, quando a enchente galopa desenfreada pelas terras ribeirinhas. Foi manada em tropel, demolidora e bravia, tudo arrasando e desfazendo na mais dramática emergência. Valha-nos a certeza de que a solidariedade não é uma palavra vã, de que por toda a parte os homens deram as mãos, acudindo aos que a tragédia maltratou, ameaçando, quando não fazendo perder, vidas e haveres.”

Podemos ver aqui reportagens da RTP sobre esta grande cheia.

Existem marcas de cheia da Direcção-Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos (DGRAH), na Quinta da Cardiga e em Vila Nova da Barquinha que sinalizam esta gigante cheia.

1 Revista de Obras Públicas e Minas / Associação de Engenheiros Civis Portugueses. – Lisboa, ano XIV Tomo XIV, Imprensa Nacional, pág.68, 1885.

2 MADEIRA, Cristina. Cheias e inundações do rio Tejo em Abrantes, Territorium,  2005

3 LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias – 1800-2007”, coleção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009

4 VIEIRA, José Manuel d’Oliveira, Cronologia das Cheias do Rio Tejo {1550/2010}

(CONTINUA) …

Os tempos das cheias do Tejo – Inventário – II Parte)

Fernando Freire

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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1 Comentário

  1. Crónica de significativo VALOR para a compreensão do percurso físico e temporal do RIO TEJO e do modo e condições e VIDA das GENTES ribeirinhas ao longo dos séculos, até aos nossos dias e com enormes DESAFIOS como em todos os TEMPOS, igualmente, para o futuro.

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