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O dia 15 de novembro de 1970 calhou a um domingo. Carregou-se o carro de gente e de batatas, couves, cebolas, laranjas, romãs e vinho, tudo bem arrumadinho, na bagageira e sobre o tejadilho, rumo à cidade. Na aldeia ficou Olívia, 38 anos acabados de fazer, a braços com panos, varas e baldes para a apanha da azeitona, que era tempo dela e os anos não eram de fartura. Tinha três filhos ainda pequenos, genica e precisão de trabalhar, fosse no que fosse, como se habituara desde menina. 

Assim viu fazer a mãe, desgraçada, com o marido doente e três crianças de colo para sustentar. Ai, tu sabes lá, diz-me ela, fomos criados aos trambolhões, a gente acordava de manhãzinha e nem pai nem mãe. Conta-me tudo ao telefone, surpreendida por ter tempo e vontade de a ouvir. O meu pai esteve 7 anos internado num sanatório, nunca o fomos ver e quando ele voltou a gente nem o conhecia. 

Trabalhou no pinhal, por essas barrocas afora, explica-me ela, a puxar pinheiros gordos e altos, pinho valente, nos arrozais de Vila Franca, Salvaterra e Carrasqueira e no Centro de Saúde de Carvalhal, mas isso já foi depois de ficar viúva, precisa, a fazer limpezas e a ajudar a enfermeira. Antes, com 10 anos mal contados, já servia em casas abastadas para ajudar a família, mãe e dois irmãos. Hoje ninguém sabe o que é ir para a cama com fome, afirma, e ainda bem, em certas coisas estamos melhor agora do que antigamente.

Foi justamente para lhe pedir que me ajudasse a encarreirar umas lengalengas antigas que lhe liguei. Ó Ti Olívia, e como é que é aquela do ‘chouriço isso isso’? Oiço primeiro a gargalhada e só depois a ladainha, acompanho-a aqui e ali, ela ri-se ainda mais com a minha má prestação, desconfia do meu interesse em cantigas sobre enchidos e repete tudo, mais uma vez, agora mais devagar, para se certificar que apontei direitinho.

Estava de volta dos bordados, ainda hoje não liguei a televisão, confidencia-me. É assim que se entretém, agora que deixou de poder ir até à horta e também se desfez de todas as galinhas, dividindo o tempo, incomensurável e incerto, entre naperons, colchas, toalhas e flores. Cólios, chuva de prata e alegrias; tantas alegrias me nascem no quintal e tanta tristeza tive eu na minha vida. 

Tento adiantar a conversa, mas ela, expedita, volta atrás. Já por duas vezes me fui finando, ri-se, evocando as memórias do dia em que um homem nu, com uma faltinha (cognitiva), lhe entrou casa adentro e, maltratando-a, lhe pregou um susto de morte; e de quando, num hospital da capital, foi preciso concertar-lhe a mecânica do coração. Felizmente não falou do acidente.

Agora, às vezes, ando ali de volta dos canteiros e digo que não quero chegar aos 90, já são muitos, mas digo baixinho para ninguém ouvir. Rimo-nos as duas, pois, ainda que a sua malandrice me comova. Sei que tem planos para terminar uma toalha de renda para a mesa da sala e promete-me que não morrerá sem me oferecer um bordado feito por si. Umas flores bonitas, penso. Alegrias

Não sei como são as flores que crescem teimosamente no quintal da Ti Olívia, não lhes conheço as cores nem os cheiros, tenho de ir saber como são, mas acredito que não se trata de um mero acaso. Todos os anos há alegrias e invadir o pátio da mulher que, apesar de tudo, vê sempre o copo meio cheio. Olívia Maria Justina. Ti Olívia.

O dia 15 de novembro de 1970 calhou a um domingo. Carregou-se o carro de gente e de batatas, couves, cebolas, laranjas, romãs e vinho, tudo bem arrumadinho, na bagageira e sobre o tejadilho, rumo à cidade. Foi nesse dia, sobre o qual passaram já 50 anos, que a Ti Olívia perdeu, de repente, à entrada de Alpiarça, o marido, a filha mais velha, o filho do meio, o filho mais novo, a mãe, três sobrinhos, uma cunhada. Nove pessoas. Em menos de nada.

Ouve-se o som de uma buzina, uma e outra vez, cada vez mais perto. Não desligues que eu venho já, pede-me ela, é a queijeira, acrescenta sem hesitar. Voltou num instante, de facto, mais um um saquinho de bolachas de mel, embora prefira as de batata-doce, que hoje já acabaram. E nisto fala-me do tanto que os vizinhos lhe oferecem, em géneros e em afetos, e parece espantada com isso de toda a gente lhe querer bem. Como se se esquecesse da sua própria bondade. Não se sente sozinha, nem esquecida ou desamparada, é grata aos sobrinhos, aos amigos, à aldeia e ao Lar do Sardoal. Há elogios amiúde, risos e paródia. 

Não desligamos sem que me pergunte por uma amiga comum, a Filipa, que conheceu durante o último internamento em Lisboa já lá vai um ano. Não é a primeira vez que o faz e sei que é um cuidado genuíno, uma preocupação real, um bem-querer. 

Em vez de cristalizar as mágoas, ainda que não possa nem queira apagar o passado, a Ti Olívia agradece o presente e a vida que tem. Chama-se sabedoria e gratidão. E ainda que tenha começado por me dizer que estava com’ó tempo, que é como quem diz a modos que farrusca, tenho cá para mim que o outono jamais derrotará a Ti Olívia.

Quando muito, de vez em quando lá aparecerá uma nuvem ou outra, um prenúncio de mau tempo, uma tristeza feita chuva miudinha como aquela que começou a cair na aldeia quando nos despedimos, mas nunca, quero crer, um aguaceiro, uma trovoada, um temporal. 

Pressinto-o porque descobri que a gratidão é mais do que uma virtude, é um jardim onde crescem flores, muitas e viçosas, daquelas que adubamos com o bem que fazemos uns aos outros e não exigem outra rega senão a facilidade de lhes darmos tempo e afeto.

Um quintal tal qual o da Ti Olívia, terreno fértil e generoso onde crescem alegrias de todos os tamanhos e cores, ano após ano, todas as primaveras, por mais duro que tenha sido o inverno.

Berta Silva Lopes

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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