Foto: mediotejo.net

Há línguas que nascem da necessidade de comunicar. Outras surgem precisamente do contrário: da necessidade de esconder o que se diz dos ouvidos alheios. O minderico nasceu assim. Entre vendedores de mantas, negociações e viagens ao Alentejo, criou-se, há mais de dois séculos, uma forma muito própria de falar que hoje é um dos símbolos identitários de Minde, no concelho de Alcanena.

Foi precisamente essa herança linguística que esteve em destaque na tarde de quinta-feira, 11 de junho, na Biblioteca Municipal de Alcanena, durante a apresentação de “O Terraizinho Penostra”, a tradução para minderico de O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, da autoria de Maria Alzira Roque Gameiro.

A edição, promovida pelo Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (CAORG) com o apoio do Município de Alcanena, recupera um dos mais universais clássicos da literatura para lhe dar uma nova expressão, profundamente enraizada na cultura local.

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Integrada na programação do Festival Literário de Alcanena (FALA), a sessão foi mais do que a apresentação de um livro. Foi um exercício de memória coletiva, de afirmação cultural e de resistência contra o esquecimento.

“O minderico é um pouco indecifrável, até para nós mindericos”, confessou Maria Alzira Roque Gameiro perante a plateia. “Não se sabe bem quando começou. Só no século XVIII é que se começam a ver escritos, em jornais.”

A tradutora descreveu o processo como um desafio exigente. “Foram 10 meses de intenso trabalho. Houve uma tarde em que escrevi uma linha, não consegui escrever mais”, recordou.

A dificuldade não residia apenas na tradução literal do texto, mas sobretudo na tentativa de preservar a essência da obra original. “Eu não sou linguista… Eu traduzi isto com muita atenção, três ou quatro vezes, para ver se conseguia encontrar termos no minderico para transmitir aquilo que o Saint-Exupéry queria dizer”, explicou.

A tarefa revelou-se ainda mais complexa devido às particularidades desta forma de expressão e à dimensão reduzida do seu vocabulário. “O minderico é pobre, tem cerca de 3000 ou 4000 vocábulos (…). Foi muito difícil (…).”

Nem todos os conceitos têm equivalência direta. “Por exemplo, o verbo sentar não existe em minderico. Não existe uma palavra que diga sentar, mas todos nós sabemos o que quer dizer sentar”, exemplificou.

Segundo Maria Alzira Roque Gameiro, o minderico constrói-se sobretudo através da interpretação e do contexto. “É muito difícil, é uma língua feita de metáforas.”

Para Gabriel Feitor, vereador com o pelouro da Cultura na Câmara Municipal de Alcanena, compreender o minderico implica recuar à história económica e social da vila de Minde.

ÁUDIO | Gabriel Feitor, vereador na Câmara Municipal de Alcanena

“A história do minderico está relacionada com a atividade dos homens em Minde”, explicou ao nosso jornal. “Eram vendedores de mantas, iam para o Alentejo, estamos a falar do século XIX (…). Como eram muitos, por necessidade precisavam de falar entre si.”

Esse contexto deu origem a uma linguagem própria, quase cifrada. “Começou-se a gerar um código, até para, entre eles, perceber quem era bom pagador ou mau pagador”, referiu. “Era necessário avisar para que os outros não percebessem que aquele negócio podia não ser bom.”

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Daí nasceu uma das características mais fascinantes do minderico: “Basta meia dúzia de palavras numa frase para o interlocutor não perceber o que estamos a dizer e é isso que importa”, explicou Maria Alzira Roque Gameiro. “É quase como um código secreto, para que não compreendam o que estamos a dizer.”

A escolha de apresentar O Principezinho em minderico durante o FALA não foi aleatória. “Achámos por bem este ano, como esta edição é dedicada à comunidade, ao sentido de pertença e à identidade (…), trazer aqui o minderico, que é nosso, que é património nosso”, afirmou Gabriel Feitor.

Para o autarca, a tradução do clássico francês pode representar uma nova oportunidade para aproximar as gerações mais novas desta herança linguística.

“A tradução do Principezinho é uma das formas (…) de chegarmos a públicos mais novos, às gerações que não tiveram um contacto direto com o minderico”, salientou. “É mais uma ação de preservação e divulgação do património linguístico.”

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Ainda assim, os desafios mantêm-se. “Eu tenho um certo receio que daqui por uns anos, ou as coisas estão noutro pé ou morrem”, admitiu Maria Alzira Roque Gameiro. “Por isso é que eu gostava de deixar mais coisas escritas.”

A tentativa de introduzir o minderico nas escolas não produziu os resultados esperados. “Há gente interessada e nós até tentámos transmitir nas escolas, com uma disciplina, mas sem resultado”, contou. “Porque os miúdos são dos mais variados locais e o minderico está muito enraizado. Aqueles que não são de Minde não conhecem as expressões e é muito difícil.”

Apesar disso, Gabriel Feitor acredita que iniciativas como esta podem marcar a diferença. “O Principezinho é uma dessas ações. O festival, o próprio festival e a edição dedicada ao minderico são mais dessas ações”, afirmou. “Creio que este é, sem dúvida, um marco para que não se deixe cair no esquecimento este património.” Além da apresentação de “O Principezinho” em minderico, o programa do FALA integra uma oficina dedicada a esta variante linguística e um debate sobre o minderico e o mirandês.

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A apresentação de O Terraizinho Penostra integra a edição deste ano do Festival Literário de Alcanena, que decorre até domingo e que aposta numa programação renovada, mais aberta à participação comunitária.

Segundo Gabriel Feitor, esta edição representa uma mudança significativa no modelo do evento. “Este ano o festival tem um modelo completamente diferente dos anteriores”, explicou. “A Câmara Municipal alia-se ao Gerador, que é uma grande plataforma de produção cultural (…), e que também nos permitiu dar outra alavancagem ao festival.”

Essa abertura ao exterior, sublinha, não pode acontecer à custa da identidade local. “Este subir de patamar não pode deixar em claro aquilo que é também a identidade da própria localidade, do próprio concelho”, afirmou. “E por isso essa identidade tem que ser vincada.”

Os primeiros registos do minderico remontam ao século XVII, tendo surgido entre comerciantes e fabricantes locais como uma forma de comunicação reservada aos membros da comunidade.

Com o passar do tempo, o que começou por ser um socioleto (dialeto social) profissional desenvolveu vocabulário e estruturas próprias, evoluindo para uma língua autónoma.

Entre as expressões características do minderico encontram-se palavras como “atriar” (entrar), “terruja” (terra) ou “didi” (dinheiro), exemplos de um património linguístico que permanece praticamente incompreensível para quem não pertence à comunidade falante.

O autarca salientou o trabalho desenvolvido desde 2009 por investigadores ligados ao Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), que contribuiu para documentar e divulgar o minderico, bem como para aproximar novas gerações deste património imaterial.

“Estamos neste momento a querer retomar este trabalho e as iniciativas do FALA são prova disso”, afirmou.

Esse trabalho permitiu a documentação sistemática do minderico, a criação de programas de ensino nas escolas, a elaboração do primeiro dicionário bilingue minderico-português e o desenvolvimento de recursos digitais destinados à preservação da língua.

Principezinho ganha nova vida em minderico para preservar identidade de Minde. Foto: Matilde Anastácio

O município apoia ainda iniciativas de divulgação promovidas pela Casa do Povo de Minde e está a preparar, em articulação com o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (CAORG), novas ações dirigidas ao contexto escolar.

O minderico foi reconhecido internacionalmente em 2011 como uma língua autónoma e viva e, quatro anos mais tarde, a documentação produzida por investigadores portugueses integrou o Registo da Memória do Mundo da UNESCO.

Nessa altura, os estudos apontavam para cerca de 250 falantes ativos e mil falantes passivos, números que entretanto diminuíram.

Falado sobretudo em Minde, no concelho de Alcanena, o minderico é atualmente considerado uma língua ameaçada, sendo alvo de iniciativas de preservação e revitalização por parte de investigadores, associações locais e entidades culturais.

Além da literatura, o FALA reúne escritores, músicos, jornalistas e agentes culturais em torno de debates, concertos, oficinas e encontros dedicados à palavra e à cidadania, reforçando nesta edição a ligação à comunidade e aos elementos distintivos do território.

E se O Principezinho ensinou gerações inteiras a olhar para além do visível, em Alcanena, a sua nova voz minderica recorda que há patrimónios que só sobrevivem se forem ditos, escritos e partilhados.

Porque, como ficou demonstrado na Biblioteca Municipal, preservar uma língua é também preservar a memória de quem a fala.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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