Em adolescente li muitos de aventuras no mar nos quais surgiam polvos gigantes de olho lúbrico (o bico córneo na cabeça) e fortes braços a chicotearem os desgraçados apanhados e seguros pelas duas fileiras de ventosas. Um pavor que Júlio Verne servia em doses sabiamente temperadas de heróis.
Normalmente os polvos não ultrapassam 100 centímetros de comprimento e raros são os apanhados com mais de 2 quilos, no entanto, já os vislumbrei e ajudei a comer alguns mais pesados, relativamente aos tentáculos é verdade que os mesmos se enrolam nos braços de quem os apanha ou pesca.
Membro da família dos moluscos, antes de ser cozinhado a sua carne tem de ser muito bem batida pois é duríssima, a seguir branqueada, devendo a sua preparação igual à do lavagante, assim o asseguram os especialistas na matéria, refiro-me em concreto aos galegos exímios no seu preparo. Uma das preparações galegas cuja fama ultrapassou os oceanos é à moda da feira, isto: cozido até ficar tenro, quanto a manteiga, cortados às rodelas, polvilhadas com sal grosso e colorau, regado com um fio de azeite e servido sobre uma tábua redonda, às vezes rectangular.
Existem outras maneiras de o polvo ser preparado, no Norte são afamados os filetes fritos em polme finíssimo a realçar a sua sapidez, também se apresenta cozido na companhia de batatas e couves, grelhado, estufado, assado no forno, ou ainda salteado com alho e servido com arroz branco.
Nas tabernas e casas típicas transmontanas o polvo frito servido frio era extremamente requerido nas merendas de tarde e nos mata-bichos da manhã, muitos desses estabelecimentos deviam (devem?) a sua prosperidade ao medonho e misterioso polvo cuja monstruosidade é fruto da imaginação dos escritores, mas tal como no caso das bruxas, que nas profundezas do mar vivem semiadormecidos os maiores, acredito que vivam.
Gosto de polvo cozido coadjuvado com batatas na mesma cozedura, avermelhando-as, concedendo-lhe igualmente um sabor peculiar, ao que não é alheio o alho picado e azeite de grande qualidade. Obviamente, o troço de polvo tem de ser substancial, pontas delgadas aproveitam-se para o arroz malandrinho a escorregar prato fora.
Importa realçar o facto de o polvo se comer de Consoada nas casas nortenhas, além de responsável pela fama das alheiras de Mirandela. O comboio nos finais do século XIX só chegava àquela cidade, transportava cestos de polvos em meia cura ou secos, porque não se podiam perder tais cestos eram devolvidos para o Porto contendo as referidas alheiras. A fama vem daí.
