“A palavra é ela mesma, mais a pessoa que a usa…”
– Mário Martins (um Jesuíta da Zibreira)
Há alguns anos, neste mesmo lugar e a convite do Cineclube de Torres Novas, fiz uma breve apresentação a um filme sobre um alfarrabista. “Ramiro”, assim se chama o filme, passa-se na Rua Anchieta, em Lisboa, nome de um Jesuíta, José de Anchieta, nascido nas Canárias a 19 de Março de 1534, um dos pioneiros da cristianização do Brasil. Dizem ser dele o primeiro poema épico das Américas, ainda anterior aos Lusíadas, como é dele a “Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil”, aquando da sua permanência por lá, em contacto com os Tupis, os indígenas do litoral.
Mas o nome daquela rua, a Rua Anchieta (antiga Rua da Figueira), ao contrário do que se possa pensar, não lhe foi atribuído pela importância do Jesuíta, mas sim pelo seu homónimo naturalista do século XIX, que viajou por Angola, colecionando espécies zoológicas e botânicas que enviava para Portugal.
Contemporâneo de Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto (que aconchegam ruas vizinhas), este outro Anchieta, longe imaginaria dar nome ao local onde agora, naquela rua, os livros substituem as exóticas espécies africanas, entre páginas amarelecidas e sonhos acinzentados.
Tal como Ramiro, também eu, cinco séculos depois, tinha por hábito ir à Rua Anchieta. E por ali me cruzava com Mariano Gago, um outro homem da ciência (como um dos Anchietas) e também bibliófilo, que ali se esquecia dos iões, átomos e protões e me confessava a mim, e aos seus botões, a paixão por Florbela Espanca e pela sua poesia.
Vem isto a propósito do livro “O Peso das Borboletas”, de Paulo Vasco. Como se vê, a vida é feita de cruzamentos improváveis. Sem que o saibamos, existe afinal algo que nos liga aos outros, ou melhor, a outros, muito para além do que possamos imaginar.
Ao Paulo Vasco, o ponto de partida terá sido o meu pai, há mais de trinta anos e por circunstâncias que aqui não cabem, ou talvez caibam mais do se julga. Depois, um hiato de muito tempo em que nos cruzámos algumas vezes, nos cumprimentos fugazes que fomos trocando, nos olhares de silêncio entre duas pessoas com alguns pontos em comum. Ele, médico de renomado prestígio. Eu, alfarrabista, escrevinhando por aí.
Até que, num inesperado dia de Janeiro o Paulo me disse que escrevera um livro e me convidou a apresentá-lo em Torres Novas. Conversámos um pouco. Com um misto de surpresa e gratidão, aceitei. Agradeço ao Paulo Vasco. Faço-o com muita estima. Quero dizer-lhe que é um privilégio.
Agradeço também à Margarida Teodora que, desde a primeira hora acolheu a sugestão de que o livro fosse apresentado no lugar certo [a Biblioteca de Torres Novas ], e felicito a Lápis de Memória, na pessoa do Sr. Adelino Castro, que ousou editá-lo.
Hoje em dia, escrever um livro tornou-se algo vulgar. É sinal de democratização, de massificação, dos níveis de acesso à informação e ao conhecimento que, noutros tempos, não seria possível. Outra coisa, bem diferente, é escrever um bom livro.
E o que distingue um do outro? Quais os critérios? Quem os define? Essas são as questões que não cabem aqui debater. Não sou crítico literário. Mas não deixo de vos dizer que, enquanto livreiro, sinto alguma apreensão com os tempos que correm.
Numa época conturbada, algo esquisita até, onde o ruído tomou conta das nossas vidas, poder ler um livro é, já por si, uma tarefa difícil. E se for um bom livro, então, será quase um milagre. Senão vejamos. Levantamo-nos à pressa, saímos apressadamente, uns trabalham, outros não. Os que sim, numa correria e com problemas vários. Os que não, vivendo numa lassidão e com problemas de outro tipo. Vão-se assim somando complexidades às vidas simples, tornando-as por vezes complexas, quando, o que faria sentido, seria a desconstrução dessa complexidade, percebendo afinal que, o que é complexo, não é mais senão o somatório de pequenas coisas, elas sim, simples, se não as complicarmos.
Um livro requer algum tempo para ser lido. Serenidade e tranquilidade. Esse tempo existe. Quem diz que não tem tempo para ler, talvez nunca tenha pensado que um dia tem 24 horas. E bastam 10 ou 15 minutos por dia para que a leitura se torne um hábito. Como caminhar. Ou conversar um pouco.
Entendi falar-vos disto, antes de vos falar do livro do Paulo Vasco. Porque este livro merece ser lido. Digo mais. Este livro deverá ser lido. E se, para quem tem hábitos de leitura, sei que irá lê-lo com prazer e naturalidade, para quem os não tem, pode ser necessário uma outra abordagem mais desafiante. Talvez os tais 10 ou 15 minutos não cheguem. Mas ajudam. Acreditem que vale a pena.
Vamos então ao livro.
Começo pelo fim. Penso que já saberão que foi premiado, tendo-lhe sido atribuído por unanimidade, entre 44 obras a concurso, o prémio Florbela Espanca, do Município de Vila Viçosa. Quando o Paulo Vasco partilhou comigo a notícia, fê-lo de sorriso aberto. Natural nele. Era o seu primeiro romance e, apesar da sua especialidade ser outra, foi uma gravidez que acompanhou de perto e um parto feliz. Justo e merecido, pensei eu, mesmo sem ter lido os outros. Lembrei-me então do saudoso Mariano Gago, da Rua Anchieta, do mundo dos livros.
“O Peso das Borboletas” é um livro belíssimo, diria quase perfeito, escrito com paixão, por alguém que a ele entregou o melhor de si. Um esteta que o cuidou como tal. Que o regou gota a gota, dia a dia, todos os dias. Na forma e na substância, nas vozes e nos silêncios, nos companheiros que escolheu para a viagem. Numa viagem que também foi a sua. Num tempo que também foi o seu. Num mundo que também foi o nosso.
Passa-se numa época de final de Regime, anos 60/70 do século passado, abordando as questões que se colocavam então. As contradições e as dúvidas, a inquietação e o medo, a guerra ou a deserção. O significado do compromisso, da recusa, do amor.
Escreveu Agustina, que aos quinze anos se tem um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência e só com meio século verdadeiramente uma história.
Pois bem. Para Vicente, Fernanda ou Luís, alguns dos protagonistas do livro (todos eles filhos-família e organizados em Coimbra na mesma célula clandestina estudantil de oposição ao Regime), o futuro emaranha-se nas histórias de todos e de cada um. Porque elas se cruzam a vários tempos e em vários lugares. E é a memória, esse diário da ausência, escrito a espaços na cozedura do tempo, como que revisitado na penumbra dos dias, que permite ao autor deambular por ali, numa escrita cuidada, elaborada, envolvente e melódica, onde cada personagem não é um acaso.
Algumas passagens são deliciosas, por vezes poéticas, e figurarão para sempre nas minhas anotações (se as fizesse), para elucidar a arte de bem escrever, com sentido.
Cada personagem está meticulosamente urdida como a aranha tece a sua teia ou o pássaro constrói o seu ninho. E, sem que nos apercebamos, somos assim embalados, enredados na teia, aconchegados no ninho ou surpresos e inquietos quando, por vezes, afinal, aquele pode não ser o chão que esperávamos pisar. Nem tudo são flores. Porque é da vida que se trata.
Alguém que “… tinha a finura suficiente para ser uma espécie de entretela que dava confiança às chefias e lhes transmitia segurança…”, simulando, desiludindo, traindo, não é ficção. Existiu mesmo.
Falar de “O Peso das Borboletas” é, pois, falar de um tempo de causas e de luta, de inquietação e de dúvidas. Mas também de amor e de morte, de ausência e de perda. É falar de quem não aceitou apenas que a vida passasse por si, mas que assumiu fazer parte dela. É falar de escolhas e de esperança. De um sentido para a vida. Para a sua e a dos outros.
Qual “a função social da arte”, particularmente da escrita, questionava Fernanda descobrindo Vicente, na Granja, enquanto falavam de música e de poesia? Sim, qual então o papel da escrita? Lúdico e literário apenas, um exercício de estilo, ou pode e deve ousar ir também para além disso?
A páginas tantas, leio a propósito de “Uma Abelha na Chuva” que esse livro é uma fotografia. Apetece-me dizer: este livro dava um filme. Lembro-me então das cidades invisíveis de Calvino, onde os desejos ganham forma. Neste mundo imprevisível, é a falta deles que nos aniquila. O conformismo e o destino. Uma certa forma de estar. Uma estabilidade travestida. Que nos vai marcando o passo. Do antes assim que pior.
Não vos vou contar tudo. Não vos posso contar tudo.
Mas digo-vos, isso sim que, que um primeiro livro publicado aos vinte anos, não é, necessariamente, o mesmo que escrito cinquenta anos mais tarde. Ou, dizendo de outro modo, que este livro “… em que as personagens são fictícias e as circunstâncias que determinaram as suas vidas são reais …”, ganhou outra dimensão escrito agora, cinco décadas depois.
O mar de Sophia naquela Granja onde Fernanda se cruzou com Vicente, poderá continuar ainda num vaivém de ondas agora diferentes?
Daquela Coimbra do Tropical e de causas, de inquietação e de dúvidas, existirão ainda vestígios de gerações que definham convencidas que não?
Dos senhores de Avis, nome secular que perdurará no tempo, onde estará o Necas, neto do sapateiro, que por isso ou também por isso, ora aparece ora se ofusca ao longo do romance?
Por tudo isto (e por muito mais), “O Peso das Borboletas” é um livro belo e paradoxalmente possível. Como memória e testemunho. Para o autor que entendeu escrevê-lo, que tinha que o escrever e que em boa hora o fez.
Para os leitores, que espero, sinceramente, não deixem de o ler.
E, naturalmente para mim que já o tendo lido e relido, tive o gosto e o privilégio de o apresentar no lugar certo. Num dia de Abril, numa Biblioteca, perto de nós.
*Nota – O livro ‘O peso das borboletas é apresentado no sábado, 10 de maio, na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.



