O médico Paulo Vasco, em Torres Novas. Créditos: mediotejo.net

Há detalhes da vida que podem dizer-nos quase tudo sobre uma pessoa. Como este, vivido pelo médico Paulo Vasco, 72 anos, que venceu o Prémio Literário Florbela Espanca por unanimidade do júri, distinção que recebeu no passado dia 29 de março, em Vila Viçosa. O livro ‘O peso das borboletas’ é apresentado no sábado, 10 de maio, em Abrantes, depois de uma primeira apresentação em Torres Novas, a 12 de abril.

Ora, o prémio esteve quase para não lhe ser entregue, porque Paulo Vasco foi enviando o livro para várias editoras nacionais e houve uma que se interessou pelo seu manuscrito – por isso, comunicou de imediato ao secretariado do prémio que retirava a candidatura. Contudo, os 44 livros inéditos a concurso já estavam na Sociedade Portuguesa de Escritores, em avaliação pelo júri, pelo que lhe foi transmitido que “nem pensar!”, já não era possível desistir. Algumas semanas depois, ligaram-lhe para anunciar a vitória. E Paulo Vasco, com a modéstia que o caracteriza, ainda disse: “Eu já vou ser editado, dêem o prémio ao segundo classificado, talvez faça mais sentido…” Felizmente, mais uma vez lhe disseram “nem pensar!”

Este é o primeiro romance de Paulo Vasco, mas “escrever foi sempre um gosto”, aprofundado a partir de 2009 em cursos de escrita criativa com Pedro Sena Lino, diz-nos, em conversa no espaço do alfarrabista Adelino Correia-Pires, a livraria D’Outro Tempo, em Torres Novas, cidade onde o médico reside.

É também um grande leitor, e começou cedo, em criança. “Havia muitos livros em casa e poucas distrações.” Nas férias de Verão, na Fuseta, no Algarve, era hábito ele e a irmã Elsa falarem à noite com os pais sobre os livros que estavam a ler. Todos os dias iam avançando um bocadinho na história, e tinham de a partilhar. Mas Paulo Vasco nem sempre lia o suficiente, concede… e nos dias em que tinha feito “gazeta”, acabava a inventar a continuação da história. Acabava por ser também um exercício criativo, que ganhou raízes.

Concorda que ler é fundamental para depois poder escrever com outra substância. E viver. Sobretudo quando se quer escrever também sobre episódios que foram marcantes na infância e juventude. “Não poderia ter escrito há 20 anos o livro que agora escrevi, 50 anos depois do 25 de Abril”. Era preciso ter alguma distância dos acontecimentos.

O alfarrabista Adelino Correia-Pires apresentará o livro de Paulo Vasco no dia 12 de abril, na Biblioteca de Torres Novas. Créditos: mediotejo.net

Mas escrever o enredo que está no centro do seu primeiro romance foi sendo, cada vez mais, uma urgência. “Tinha de pôr no papel as vozes que tinha cá dentro”, explica. E essa urgência foi sendo mitigada ao longo de dois anos de escrita, permitindo a emergência no papel das personagens que poderiam contar ao mundo como era esse “outro mundo” que vivia dentro de si.

O título, diz-nos o autor, deve-se ao facto de existir um caçador de borboletas nesta história, e porque simbolicamente as borboletas são seres belos, frágeis e que têm uma vida efémera.

O livro não é autobiográfico, convém frisar, nem relata de forma exata as vidas de pessoas reais. Mas é “um retrato de um tempo” – dos anos 70 e 80, e da época do 25 de Abril – e a personagem central feminina, revela Paulo Vasco, “bebe muito na história” da sua mãe. Uma história marcada por uma detenção pela PIDE, quando ainda era muito jovem, em Coimbra, e que lhe valeu 6 meses de prisão.

Quando foi libertada, Dalila tinha perdido o emprego, na editora Coimbra, e durante anos tentou voltar ao mercado de trabalho, através de inúmeras entrevistas e concursos públicos, e nunca conseguiu. Os seus ideais de liberdade acabariam por condená-la a uma outra pena: a de ter como única profissão possível a de “doméstica”.

Era uma mulher especial, muito culta, muito bonita – com uma beleza quase cinematográfica. Não poder trabalhar “foi uma coisa que a marcou muito”, explica Paulo Vasco, que tem nas suas memórias mais queridas de infância os passeios que dava com a mãe à beira-mar, na Figueira da Foz.

Como o pai (também médico) era natural de Andreus, no Sardoal, o casal mudou-se para Abrantes em 1955. E por ali criaram os filhos, Elsa e Paulo, que haveria de seguir os passos do pai como médico na cidade – e depois em toda a região, no Centro Hospitalar do Médio Tejo, onde exerceu também funções de direcção. Reformou-se do Serviço Nacional de Saúde há dois anos e, apesar de continuar a dar consultas no privado, tem agora outro tempo para se dedicar à escrita. Depois deste “O Peso das Borboletas” há já outro romance em construção, admite. Desta vez, com a ação passada nos dias de hoje.

Mas essa é outra história, para conhecermos mais tarde. Agora é tempo de descobrir as palavras impressas neste seu primeiro livro, que será apresentado pelo alfarrabista Adelino Correia-Pires este sábado, dia 12 de abril, a partir das 16h00, na Biblioteca Municipal de Torres Novas, e nas próximas semanas em mais bibliotecas da região, como Abrantes.

Adelino Correia-Pires, um profundo conhecedor do mundo dos livros e da literatura, diz-nos que é um romance “superior”, com “uma escrita cuidada, elaborada, envolvente e melódica, onde cada personagem não é um acaso, e algumas passagens são deliciosas, por vezes poéticas”.

Um livro que se lê com um prazer raro, de um fôlego – e que é, portanto, urgente descobrir.

“O peso das borboletas”, de Paulo Vasco (Ed. Lápis de Memórias), vencedor do Prémio Literário Florbela Espanca

Tenho nesse dia vinte e quatro anos, um pé infectado, já curado por uma cartomante, literalmente trazida pelos Céus e sinto todos os meus sonhos adiados por uma decisão cujas consequências não prevejo. Faz-me falta ali, nesse exacto momento, um ombro, uma mão ou um olhar de alguém com quem partilhar as horas. Estou frágil, muito assustado e ela veio. Reparei no seu rosto, logo naquele jardim onde chegou com a amiga, e notei, como disse O’Neill, falando de outra partida, que naqueles olhos vigora agora o mais rigoroso amor. E eu recuo num segundo, vertical ao Tempo, para aquele outro Verão que não me larga, onde tenho dezoito anos, terminei o primeiro ano de História, posso já conduzir e chego à praia clara, num Mini em segunda mão, carregado de livros, sonhos e uma guitarra desafinada.”


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Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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2 Comments

  1. Para ler e reflectir, sem esquecer que há muita gente a fazer tudo o que pode para voltarmos a 24 de Abril de 1974.

  2. O livro “O Peso Das Borboletas”, de Paulo Vasco, já ganhou peso, dimensão, conteúdo, já voou pelas nossas memórias, sofrimentos e vitórias.
    Escrita com a determinação de quem quer chegar ao fundo do ser com delicadeza, sem alarde, mas lá onde dói e marca um caminho, o do tempo por onde passa a ternura, a coragem, a diferença.

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