Romãs. Foto: DR

O Setembro chegou, o Verão terminou, avisava a canção na época em que se cantava em português, as estações do ano correspondiam ao preceituado no Borda d’Água, sem esquecer o aparecimento das primeiras chuvas, do prenúncio de frios, do reencontro quantas vezes desencontro irado, choroso do início das aulas, sendo os choros motivados porque durante as férias grandes (podiam durar quase quatro meses) as paixões ganharam caruncho levando à devolução de alianças, anéis e bugigangas representativas de promessas e juras de fidelidade para todo o sempre.

Ora, o Outono é a estação mais radiosa no tocante a frutos terrestres e marítimos (Setembro tem R), frutos, esses, sumarentos, gulosos, que pinturas de excelsas naturezas mortas (vejam-se as de Josefa de Óbidos) estão fixadas como prova/provada da prosperidade outonal caso o Rei-Sol não se porte mal, caso deste maléfico ano.

Os figos seivosos (uns colhem os figos a outros rebentam-lhe os beiços) que abundam no Ribatejo e deles as Mestras Cozinheiras os empregam em numerosas preparações culinárias, os pasteleiros bolaria pudins e confeitos, os peritos na destilação do fruto das traiçoeiras figueiras licores e aguardentes. Ah, as uvas do nosso contentamento até excessivo, das Vinhas da Ira, ou dos tremendos trabalhos, dramas e dor registados no livro Vindima por Miguel Torga o qual é, nome de Escolas, mas que merece mais leitores.

Pois os frutos secos tão reconfortantes a acolitarem uma bebida, a concederem sabores esquisitos a enchidos, queijos, peixes e carnes também os saliento, nesta crónica prólogo deste Outono, que segundo os e as pitonisas ameaça continuar a assar-nos o espírito.

Já os corpos vão exalando suores escorridos do Estio inflacionado concedendo pingues lucros ao governo tão glutão quanto Gargântua no dia de São Martinho a provar o vinho novo, comer castanhas assadas e mastigar pinhões raquíticos e caros em virtude da mais que lamentada escassez da milagreira água.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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