Feira do Fumeiro de Vinhais. Foto arquivo: (Rui Manuel Ferreira / Global Imagens)

Pese embora ter grande consideração por cães (acolhi um sem casota e côdea durante anos até à sua morte) e gatos (duas vivem de cama e pucarinho portas dentro), considero o porco o nosso melhor amigo. Parafraseando o célebre gourmet Grimod de la Reynièrre o que seria de nós sem linguiças, de chouriças, de toucinho para cozinhar, de presuntos bem fumados, de chouriços escuros, de alheiras, de farinheiras, de paios, de butelos, de paiolas, de azedos ou tabafeias, de chouriços doces com mel ou açúcar escuro, de pés de porco cozinhados de várias formas, dos saborosos ossos da suã, dos rojões, dos torresmos do redenho?

Sim, que seria de nós sem a suculenta carne do cachaço, das costelas vindas da sepultura salgada dos porcos? O que seria dos apreciadores de cabeça de xara, das orelhas, dos beiços, das manitas? O que seria dos amigos de mastigarem rodelas de salpicões assados? O que seria de mim sem degustar salpicão da língua do suíno que uma parente faz o favor de me oferecer?

O que seria dos amigos de tasquinharem a pele estaladiças dos leitões bem constipados após exemplar assadura? O que seria dos promotores de campanhas eleitorais cujo trabalho é o de apresentarem no início dos comícios porcos a assarem no espeto?

Enfim, o que seria do Mundo sem a existência dos bácoros e bacorinhos do nosso contentamento nas cinco partes do Mundo? Claro, judeus e muçulmanos estão impedidos de o fazer devido às leis dietéticas do Talmude, e do Corão. Estas leis derivam não só de preceitos de índole religiosa, também de natureza económica derivadas dos sistemas agrícolas de onde os cochinos se domesticaram e expandiram.

Antropólogos e historiadores publicaram obras de elevado valor científico a responderem a vária e múltiplas indagações acerca do interdito porque o animal tem hábitos estranhos em matéria de alimentação em tempo de penúria (o cão também), fundamentalmente por ser voraz comendo raízes e cascas de árvores em territórios desérticos, culturas nestes e noutros locais ou zonas onde possa trincar «algo» como a senhora dos anúncios. Não enrolo a crónica referindo muitos autores, só um, o antropólogo e historiador Marvin Harris.

Os leitores sabem quão me agradam os enchidos do marroncho, nesta altura do ano realizam-se festivais e feiras de fumeiro em várias localidades do País, com destaque para as de Boticas, Montalegre (próximo fim de semana). No seguinte terá lugar mais uma edição da feira mais antiga na vigência do regime democrático, a de Vinhais, não posso aparecer em todas, irei à de Vinhais e da mesma darei novas e mandados.

Por cá quem continua a exercer a tradição sabe o gosto sápido de a continuar, os restantes ou vão às feiras ou às grandes superfícies. Se encontrarem salpicões de língua de porco façam o favor de me avisarem.

E, para beber:

Dom Cosme, reserva tinto

Degustei recentemente o vinho tinto Dom Cosme produzido e engarrafado pela Fundação Abreu Callado, sita em Benevila, concelho de Avis.

Trata-se de um tinto retinto fruto de uvas das castas Alicante Bouchet e Touriga Nacional denso, a emanar aromas a fruta preta bem madura e algum mineral, claramente indicado para coadjuvar comeres derivados da matança do porco, ainda carnes vermelhas, toda a espécie de queijos, compotas, sem esquecer fumados de carne e peixe. Digno representante dos tintos alentejanos.

Origem: Alentejo. Produzido e engarrafado pela Fundação Abreu Callado. Benavila. Graduação: 14,5º. Ano de colheita: 2015.

 

 

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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