Antes de se meterem ao caminho, que da aldeia a Torres Novas sempre são uns bons 45 minutos de viagem – e isto a andar bem –, a minha prima, mãe de duas crianças pequenas, costuma ligar para a linha Saúde 24. O atendimento e o acompanhamento são exemplares, diz ela, queixas não há, até porque já lhe evitaram muitas deslocações desnecessárias às urgências pediátricas da região.
É sempre assim quando alguma delas, ou mesmo os pais, tios ou avós adoecem e precisam de assistência médica, ainda que a viagem possa ter como destino Torres Novas, Tomar ou Abrantes, as três cidades que servem a população do Médio Tejo ao nível dos cuidados hospitalares.
Hospitais privados só em Santarém ou Castelo Branco, embora ambos a mais de uma hora de viagem da aldeia, ainda que em menos de 10 minutos seja possível chegar dali à A23. As acessibilidades não são um problema, de facto, nem a fibra, os parques escolares ou as ofertas culturais: o campo, hoje, tem tudo isso.
É verdade que fecharam muitos serviços, mas também é verdade que outros surgiram entretanto, modernizados e polivalentes. Quem vive no interior não está a um passo de tudo, é certo, ainda que tenha tudo à distância de um clique.
Há dias em que fico com muita inveja daquela calmaria toda, assaltam-me saudades e uma praga de perguntas sobre as vantagens de tamanha pacatez. Lembro-me do quanto as minhas filhas são felizes a apanhar paus e pedras, permanentemente sujas e alegres, tão desvairadas como a passarada ao entardecer, e questiono-me.
Ainda assim, estou certa de que sucumbiria rapidamente a esse estilo de vida. Mesmo sem qualquer rede de apoio, longe das minhas raízes e da minha aldeia, da minha família e de tantas pessoas de quem gosto, ser-me-ia muito difícil regressar. Não há promessa de um emprego seguro na minha área de formação ou incentivo capaz de me convencer. Falo da mais recente proposta do governo para (a suposta) valorização do mundo rural.
Penso nela desde que foi anunciada, se funcionará e se alguém tomará uma decisão efetiva só com base no apoio financeiro concedido a quem decida mudar-se para o interior do país. Poderá alguém escolher viver ali, onde possivelmente não conhecerá ninguém, motivado apenas por esta medida?
A realidade que conheço diz-me que quem ainda opta pelo campo, fá-lo por razões afetivas, sobretudo proximidade da família, disponibilidade de terreno para construção de habitação ou apego à terra. São critérios tão válidos como quaisquer outros, e talvez até haja neles maior nobreza do que naqueles que se invocam para enaltecer as cidades.
Hoje, são milhares as pessoas que apenas necessitam de um computador e de ligação à internet para trabalhar em qualquer parte do mundo. Com uma boa rede digital, é possível criar riqueza onde quer que se esteja. Mesmo numa aldeia como Queixoperra.
Para isso, e antes de mais nada, é preciso segurar quem lá vive, quem resistiu ao abandono e contribuiu até agora pela preservação do bem mais precioso de qualquer país: a sua cultura e a sua identidade. É também graças a estas pessoas que Portugal é hoje um destino de eleição, simultaneamente fascinante e contraditório.
É preciso que quem vive no interior não seja esquecido, seja apoiado e valorizado. É preciso agarrar os agricultores e também os quadros superiores, quem tem pequenos negócios e quem tem grandes empresas, quem possa renovar as gerações e quem possa passar o testemunho. O campo precisa de todos os que (ainda) lá estão.
É preciso que não lhes faltem oportunidades de trabalho e nem saúde, até porque os hospitais ficam longe; o resto, parece-me, vem por acréscimo. É preciso que as medidas avulsas se transformem em ações transversais, bem pensadas e estruturadas. Depois, sim, poderemos ambicionar mais pessoas e novos investidores para o interior.
Quanto a mim, por muito que tantos não compreendam, faz-me falta o frenesi da cidade, a confusão das ruas cheias de gente, as construções gigantes e até a pressa. É certo que foi muito bom e enriquecedor crescer na aldeia, mas é na cidade que o meu coração se sente verdadeiramente em casa; e esse é, no fundo, o melhor lugar para se viver.
