Farto de ouvir queixas antigas, pôs-se o meu pai a caminho de Mouriscas para aviar umas dúzias de tijolo burro rústico, feito hoje como há 50 anos, sempre artesanalmente, e, até que enfim, rematar a lamúria.
Aproveitando as horas da sesta e os afrontamentos do tempo, a empreitada terminou em menos de nada, pouco mais do que duas tardes molengonas e perícia quanto baste, até parece que não é preciso saber e engenho para empoleirar tijolos curvos até deles ver nascer um arco perfeito.
Para mim, que não sou perita em coisa nenhuma, é geometria complexa, e ainda hoje faço suposições sobre como se consegue fazer uma abóboda daquelas, tijolo após tijolo, num equilíbrio prodigioso do chão ao teto. Para o meu pai, mestre pedreiro, é coisa simples.
Acontece, porém, que além do forno novo, o meu pai meteu-se também a fazer promessas: de o estrear com uma fornada de pão à maneira, coisa para impressionar a família inteira, olaré, tragam de lá a farinha, o alguidar de barro e a malga com água morna.
Certo é que a minha mãe desconfiava daquela prontidão como das manhas do forno antigo, e respondia-lhe que aquilo era ladainha velha e gasta, já lá vão 40 anos de conversa fiada, burro velho não aprende línguas, mas sim senhor, era ver para crer.
Diga-se, pois, que terminado o forno, o meu pai cumpriu a promessa com desvelo e mérito. O pão saiu de categoria, sorte de principiante, diz-lhe até hoje a minha mãe, tiveste sorte com o lar. O ‘padeiro’ contrapõe: isso querias tu, mas é preciso algum curso ou quê?
Talvez não, talvez não seja, de facto; sobre isso pouco sei, confesso. O que eu sei é que ter uma fornada de pão ainda quente a sair do forno a lenha mal chego à aldeia é coisa para derreter mais do que a manteiga no miolo, é mensagem de boas vindas sem palavras nem abraços.
Quantas formas tem afinal o amor?
Certos dias tem a feição de um punhado de amoras silvestres, noutros de uma cesta cheia de ameixas, noutros ainda de um ramo de orégãos apanhados à beira dos caminhos. Naquele dia, pois bem, ganhou forma de pão, servido justamente pelo meu pai, que é um analfabeto emocional à moda antiga.
Que bela fornada! À mesa, farta, escasseiam as palavras, sobretudo os elogios, insuficiência crónica da tribo, mal generalizado que afeta sobretudo os mais velhos. E será que fazem falta, as palavras e os elogios? Fazem falta.
Nenhum de nós foi ensinado a expressar sentimentos, nem tristes nem felizes, é com embaraço que lidamos com gestos de ternura, demonstrações de carinho ou palavras de amor, e, no entanto, o amor está sempre subentendido. Até numa simples fornada de pão; porque, parecendo que não, o afeto é prato de sustança.
A propósito: este fim de semana, terceiro de julho, há leilão de fogaças na minha aldeia. Pão, queijos curados e queijinhos frescos, mel, azeite, vinho, bolos fintos e lêvedos, suspiros, tigeladas e enchidos, tudo caseiro, são licitados de braço no ar como manda a tradição. Quer isto dizer, portanto, que a esta hora já é grande a azáfama com as fornadas de bolos e pão.
Aceita uma fatia com geleia de marmelo? O ponto de encontro é no Largo da Festa, domingo à tardinha. Lá o espero.
