O crânio fóssil humano descoberto em 2014 na Gruta da Aroeira, em Torres Novas, estará temporariamente em exposição no novo espaço museológico da cidade.

No âmbito das comemorações do 39.º aniversário de elevação a cidade, Torres Novas inaugurou no dia 8 de julho o Núcleo de Arqueologia Cerca da Vila. Gerido pelo Museu Municipal Carlos Reis, está sediado num edifício próprio, no centro histórico, e tem como missão salvaguardar, divulgar e valorizar o património arqueológico do concelho.

Descerrada a placa inaugural, e após um momento musical protagonizado pela soprano Carla Frias e pelo barítono Tiago Amado Gomes, o presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Pedro Ferreira, enalteceu o “papel da família Alvarenga” na concretização desta obra, através da doação do imóvel ao município.

O autarca torrejano agradeceu ainda a toda a equipa envolvida neste projeto e manifestou a sua satisfação com o resultado obtido. De seguida, teve lugar uma visita inaugural pelo Núcleo, que se estrutura em três espaços distintos.

“Arqueologia do Almonda: uma janela sobre meio milhão de anos de história” é o título da exposição inaugural de curta duração que está patente no Piso 1. A mostra é dedicada às investigações que se desenvolvem há 36 anos nas grutas do Almonda, tendo João Zilhão como arqueólogo responsável – um local que se revelou singular para o estudo da Pré-História em Portugal e na Europa.

Pela primeira vez, encontra-se em exibição o crânio humano fóssil com 400 000 anos encontrado na Gruta da Aroeira em 2014 (e divulgado ao mundo num artigo científico em 2017). Conhecido como ARO3, este crânio é um dos mais antigos do Ocidente Europeu, revelando informação crucial para o estudo da evolução humana.

A importância mundial do crânio encontrado numa gruta do Almonda


É no chamado Plistocénico Médio (o período de tempo entre 700 000 e 125 000 anos antes do presente) que, a partir das primeiras formas humanas aparecidas em África há 2,5 milhões de anos (os Homo erectus), se dá a emergência de populações com capacidades cranianas que entram dentro da margem de variação do Homo sapiens, entre as quais se contam os antepassados de toda a Humanidade atual.
É neste contexto que o crânio descoberto na rede cársica da nascente do Almonda, em Torres Novas, se revela de extrema importância. Quando no dia 14 de julho de 2014 os arqueólogos escavavam um depósito na gruta da Aroeira (que, através de trabalhos de datação anteriormente realizados, sabiam corresponder há cerca de 400 000 anos) para “alcançar o calcário de base e obter uma visão completa da sequência estratigráfica”, atingiram acidentalmente este crânio, “criando o buraco circular que nele se observa, a importância do achado foi imediatamente reconhecida”, explica a equipa num artigo científico publicado em 2017 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences USA.
Utilizando maquinaria apropriada, “a brecha que embalava o crânio foi cortada em bloco e transportada para laboratório, onde se procedeu a um laborioso trabalho de restauro e estudo”. Desde então, o crânio da Aroeira tem sido estudado em todo o mundo, uma vez que a sua datação é muito mais precisa que a dos outros (poucos) fósseis humanos conhecidos desta época – o que o transformou num padrão de referência –, e a combinação de traços morfológicos que nele se observa é única, provando que a evolução humana foi, neste período, um processo bastante mais complexo do que até aqui se pensava.
Nas grutas do Almonda podem ainda fazer-se “mais 200 anos de investigação”, explicou em 2018 o arqueólogo João Zilhão, responsável pelos trabalhos de arqueologia na zona desde a descoberta da jazida da Gruta da Oliveira, em 1989. Ali é possível traçar o retrato do Homem, a meio caminho entre o ‘Homo erectus’ e os Neandertais da Europa, e as escavações no sistema de grutas têm permitido ainda recolher dados para o estudo da evolução do clima, através das estalagmites, que são “arquivos das alterações climáticas, muito precisos”, lembra o investigador.
O estudo da zona cársica do Almonda tem permitido ainda compreender melhor o uso do fogo, a alimentação e as movimentações sazonais daquelas comunidades. “Deslocavam-se ao longo do rio Almonda, entre a foz e o nascente. E isso explica o consumo de peixe, no final do Paleolítico”, altura em que Portugal albergava cerca de 10% a 15% da população europeia, concentrando-se 50% da população na zona da atual Península Ibérica.

No Piso 0 está patente outra exposição, esta de longa duração, em que a narrativa tem como fio condutor o rio Almonda, considerado “fundamental para a fixação das populações humanas” no território torrejano. “Um rio, um território, uma história humana” fala-nos de acontecimentos desde a Pré-História (c. de 400 000 anos) até ao final da Idade Média (século XV).

Também no Piso 0 tem lugar a “Oficina”, onde se desenvolve o trabalho de investigação e inventariação do espólio arqueológico que faz parte do acervo. Esta área funcional é visitável mediante marcação prévia.

Núcleo de Arqueologia Cerca da Vila | Situado no Terreiro do Arco do Vento, junto aos antigos Paços do Concelho e ao castelo, pode ser visitado no horário de verão (abril a setembro), de terça a domingo, 10h00-13h00 e 14h00-18h00; no horário de inverno (outubro a março), 09h00-13h00 e 14h00-17h00. Entrada gratuita.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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