Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

A nova Monografia de Mação “nasceu” da vontade do presidente da Câmara, Vasco Estrela, começou por dizer o historiador Paulo Falcão Tavares, autor da obra cujo lançamento decorreu a 30 de novembro. Conta com nota introdutória do autarca, que encomendou o trabalho. O livro pretende preservar a identidade e património do concelho. Depois de dois anos em investigação, levantamentos, escrita e estudo de vários períodos cronológicos, desde a pré-história até à idade contemporânea.

“Quis colocar em livro todo o passado de Mação e para isso tive o privilégio e a liberdade total de fazer um livro conforme eu achei mais indicado. O objetivo foi apenas este: que não fosse um objeto do passado mas que fosse dirigido ao futuro”, disse Paulo Falcão Tavares durante a apresentação da Monografia.

Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

Nesse contexto, muitas novidades históricas do concelho de Mação foram então publicadas em livro, com a chancela e edição do município do Mação, imensas fotografias históricas, como por exemplo as chancelas ovais dos correios de Mação, da impressão do dinheiro maçaense (notas emitidas em 1921 pela Câmara Municipal), ou do primeiro automóvel e camioneta a entrarem no concelho.

“Há muitos anos que falávamos na Câmara que havia necessidade de atualizar a nossa monografia. A monografia que temos data dos anos 1940. De lá para cá, evidentemente, muitas circunstâncias se alteraram, muito aconteceu neste concelho, de bom e de mau. Achámos que era altura de reescrever, de alguma forma, a História, ou pelo menos dar uma outra visão da História, obviamente sem renegar aquilo que foi escrito à data e sem renegar aquilo que são as evidências óbvias deste concelho”, referiu, por seu lado, Vasco Estrela.

Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

Com este livro “estamos a perpetuar a História do nosso concelho, os acontecimentos que foram relevantes, e a perpetuar o porquê de determinadas coisas terem acontecido e estamos também de alguma forma a deixar algumas pistas para que no futuro o concelho de Mação possa aproveitar muito daquilo que ali vem escrito, muitos pormenores que ali vêm escritos, muitos deles desconhecidos, para quiçá ajudar e conduzir ao desenvolvimento deste concelho. Espero realmente que este livro, se calhar mais do que nos fazer pensar sobre como fomos, nos possa fazer despertar para aquilo que podemos vir a ser”.

Segundo indicações do Município em nota informativa “são 426 páginas onde o leitor fica, ao longo de 10 capítulos, a conhecer um pouco melhor o concelho de Mação. Há história, para que fique vincada no presente e na memória, há muitas novidades em relação a tantos factos que julgávamos já conhecer, há inovação, no sentido em que são 10 os temas abordados, alguns quase de raiz, outros mais conhecidos”.

Mação “parece uma terra que parou no tempo. Mas nada disso! Demonstro exatamente o contrário. Foram dois anos de investigação, recolhi informação em praticamente todo o País, sobre tudo e sobre todos” que resultou numa obra “não só para os maçaenses mas para os historiadores em geral” não apenas por ser “inédita” mas por “ajudar” no estudo de outros concelhos, disse Paulo Falcão Tavares. No entanto, o historiador confessa não ter conseguido escrever sobre tudo e deu conta de ter material para escrever outro livro de igual dimensão ao que acabou de ser lançado.

Dois capítulos inicialmente previstos acabaram por cair por terra; um deles estava relacionado com os judeus em Mação e o outro com a escravatura em Mação.

“Esses capítulos foram retirados porque achei que não era a altura própria para falar nesse assunto… são assuntos ainda um bocadinho delicados, apesar de falar em assuntos bastante corrosivos no concelho, nomeadamente na questão da República que foi um período trágico” em Mação, referiu o historiador. No entanto, Paulo Falcão Tavares garante nunca terem existido judeus no concelho e por isso sugeriu que, relativamente à heráldica de Penhascoso, fossem retiradas as duas estrelas de David que constam do brasão da freguesia, uma vez que o brasão representa a História das famílias ou das instituições.

Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

Revelando algumas novidades, resultado da sua investigação histórica, diz existir “uma possibilidade de Luís Vaz de Camões ter visitado Mação, porque o bisavô do nosso poeta foi dono do Mação. E portanto é natural que quando Camões vem pelo rio [Tejo] e passou a Abrantes – isso está nos Lusíadas – tivesse visitado Mação. Aliás é mais provável isso do que ter visitado ou ter vivido em Constância, porque não há nenhum documento que prove que Camões tenha estado em Constância. Um dos erros, que na minha ótica, vão ter grandes dificuldades em tentar limpar essa imagem, porque na História quando tentamos aplicar uma não verdade, depois é muito difícil retirá-la”, afirmou o historiador.

Referiu também o tradicional terço da farinheira que considerou “um ato absolutamente heroico da população de Mação para conseguir rezar, porque a partir de 5 de outubro de 1910 as igrejas tinham de fechar as portas. E no Mação não era coisa pouca, que esteve a ferro e fogo, de 5 de outubro de 1910 até setembro de 1911. Mataram-se pessoas com sevelas. No Penhascoso, nas eleições em 1911, foi morta uma pessoa. As pessoas não podiam rezar e a única forma era sair para a rua sem padre. Ainda hoje acontece isso. É curiosos mas também de grande valentia porque demonstra claramente que as pessoas não tinham medo das autoridades”.

Revelou igualmente que as fofas de Mação “foram o alimento exclusivo” dos aviadores que fizeram a travessia aérea do Atlântico Sul; Gago Coutinho e Sacadura Cabral. “Apanhei isto numa notícia de jornal. Passei 3 ou 4 meses a ler todos os jornais de Mação. Foi Manuel Catarino que, em Lisboa, deu aos aviadores as fofas de Mação”. Por isso, defende que as cavacas deveriam ter essa referência comercial.

Referiu, ainda, os capotes de Mação e questionou o facto de não existir um único capoteiro em Mação sendo “um negócio florescente. Vi maior empreendedorismo no tempo do Estado Novo, do professor Salazar, em que toda a gente fazia firmas no Mação; uns viviam dos capotes, outros das botas, outros do couro, outros da lã e hoje não vejo nada, ou pouco, ainda por cima com as ajudas que a Câmara dá. Praticamente só vejo, hoje, a produção dos presuntos”.

Segundo Paulo Falcão Tavares, a nova Monografia de Mação “é um livro para aplicar ideias. É isso que gostava que fosse, porque se é um livro para pôr na prateleira, então não estivemos a fazer nada”.

Era um objetivo do livro, “percebermos algumas das nossas singularidades, fatores influenciadores, que realmente possam ser aproveitados em prol do desenvolvimento do concelho. Falou-se no [vinho] Chave Dourado, nos capotes, na heráldica, na arte rupestre, falou-se em vários aspetos que podem ser úteis para a futura administração autárquica poder desenvolver. Para além disso ficam também algumas ideias que podem, e devem ser exploradas pelos empreendedores do concelho”, explicou o presidente da Câmara.

Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

Vasco Estrela pensa que, no futuro, a população maçaense, empreendedores e empresários deve ser “espicaçados” no sentido de “poderem aproveitar algo” daquilo que foi apresentado .

Da parte da autarquia “perceber aquilo que fizemos menos bem, melhorar aquilo que já estamos a fazer, no âmbito do Museu, ver como conseguimos articular com outra entidades, nomeadamente a Misericórdia, e a Câmara poder apoiar quer os empreendedores quer outras entidades, no fundo as forças vivas do concelho para todos em conjunto podermos ajudar a alavancar esta terra. Acho uma das grandes mais-valias do livro”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA DE MAÇÃO, VASCO ESTRELA
Apresentação da nova monografia de Mação, da autoria de Paulo Falcão Tavares. Créditos: mediotejo.net

A capa do livro tem um desenho de autoria do Dr. Guimarães – médico, artista e músico – que Paulo Falcão Tavares encontrou em Santarém “ainda por inventariar, ninguém sabia daquilo, e é uma obra extraordinária. É uma grande desenhador de renome nacional. Um homem do Porto mas que fez tanto por Mação que acho que merecia um busto na vila”, concluiu o historiador. Na contracapa foi usado o azul de Mação, do anil que vinha do Brasil, há 500 anos.

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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