Nas inquerições realizadas no ano passado sobre os hábitos alimentares de algumas comunidades rurais, ao perguntar sobre os comeres consumidos no Carnaval, a resposta está dada no título desta crónica.
A quadra festiva carnavalesca inspira e inspirou os povos desde a Antiguidade, a dita inspiração não podia esquecer a fonte de energias – a comida – daí as centenas de milhares de composições consoante cada País, região, cidade, vila, aldeia, lugarejo, sendo tais preparos culinários impregnados de ritos, rituais, manifestações religiosas e pagãs, singulares e de multidões, obscuras e às claras, ridentes e tenebrosas, sempre acompanhadas de muita comida, mais e mais bebidas de todos os géneros e expressões.
É absolutamente impossível registar uma ínfima parte das ditas representações numa crónica deste género, por essa razão limito-me a alertar o leitor para o interesse em pensarmos um pouco sobre o tema no intuito de melhor o compreendermos e entendermos.
O Carnaval é o marco finalizador de um período temporal caracterizado pelo grande bródio, segue-se o tempo da morigeração, todos os povos têm o seu ponto alto de actos deste género, o grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveu um magnífico poema onde manifestava o seu desejo em emigrar para a Pasárgada onde «há Carnaval todo o ano».
No respeitante a comeres de Entrudo em Portugal o porco é o grande sacrificado, em enchidos de vários géneros, orelheiras se possível fumadas, pés também preparados do mesmo modo, cachaço, vísceras, tudo, pois o benfazejo animal come-se da ponta do focinho à ponta do rabo, debaixo das várias cozeduras em uso.
Se a carne é a vitualha mais desejada, dando vazão ao dito – come-se tudo – assim é, ovos em variadas preparações salgadas e doces, cogumelos onde os há, doces e lambiscos de diferentes urdiduras, sendo de destacar os de cunho rural contendo alusões eróticas. É que no Carnaval pecava-se muito, como sabemos já não existem pecados, no entanto os doces continuam a agradar aos palatos, sendo extremamente benéficos para os idosos, dos pecados só já possuem a ideia, as doçuras suavizam a saudade o que é grandiosa obra de misericórdia.
Antes a expiação dos excessos cometidos no Entrudo começava na quarta-feira de cinzas, extirpada a pena, os novos pensam na continuidade da festança pelo ano fora, os carregadores de anos a fio, atacados pelas maleitas esquecem-nas no dia de Entrudo, porque no Carnaval nada faz mal, nada fica mal. Fazer mal faz, mas que se lixe, nada fica mal porque já nada fazem.
Armando Fernandes
