As cavacas. O presunto. O peixe do rio. As ribeiras. O Ocreza. As praias fluviais. O Parque do Brejo. A Anta da Foz do Rio Frio. As Águas Quentes. As Pessoas. Mação, nem sempre gostei de ti.
É quinta-feira, o dia quase a meio, já devia ter escrito e enviado esta crónica, registo e desisto, uma, duas, muitas vezes, a vida sempre a suspender as frases que alinhavo na cabeça, faltam-me o tempo e o embalo, sobra-me a preguiça. Sucedem-se os arranques logo travados por melhores ideias, ou talvez não, ganhou esta, a ver no que dá.
Faz tempo que quero escrever sobre isto. Nem sempre gostei de Mação, nem da minha aldeia, não é uma coisa bonita de dizer, mas é preciso assumi-la. A vila, mínima, mais pequena a aldeia, minúscula, o pinhal gigante, dominador, claustrofóbico, só cabeços e pinheiros a sangrar resina, o verão como chapas de zinco em brasa, o inverno feito de geada e frio e desconsolo. E as moscas, sempre tão chatinhas, todo a ano – fazer o quê?
Mas foi ali que cresci, não me foi dado escolher, e se pudesse, pois então, eu não escolheria Mação. Era menina, ingénua, agora sei que também impaciente e ingrata. Aos três A’s, famosa trindade composta por Ar, Água e Azeite, somava sonhos com todas as letras do alfabeto, planos infinitos para sair dali, depressa.
Finalmente chego a Lisboa, cidade capital. Denuncia-me a pronúncia, desde logo, mas ninguém sabe onde fica o sítio de onde venho. Muitos confundem Mação com outras vilas mais a norte; pois não, é distrito de Santarém, Beira Baixa, esclareço; outros têm ideias vagas, terra-mártir, os incêndios e pouco mais.
Os anos passam, fermentam as saudades. A vindima, a safra da azeitona, a matança do porco, a festa de verão, tão só o ar puro, o campo, a floresta, o silêncio. De longe, é diferente o que os olhos veem, o coração sem miopia, só foco e precisão, a vida a afinar-se.
Há 20 anos que aqui estou, longe da aldeia, eternamente na aldeia, finalmente de pazes feitas com o sítio onde cresci. Dissequei a vergonha e a inferioridade, dois apêndices do portugalinho profundo, a ingenuidade, o rancor.
Troquei tudo isso, perceba-se, por gratidão e orgulho. Só há pouco voltei a ver, talvez com os olhos de quem já viveu mais, que estava errada. E agora o que mais vejo é grandeza. Nem sempre gostei de ti, Mação, mas aprendi a gostar, como tu também aprendeste a mostrar-te e a valorizar-te.
As cavacas: deliciosas. O presunto: o melhor dos melhores. O peixe do rio (lampreia, enguia, carpa, sável, fataça), oh bendita cozinha regional. As ribeiras: fabulosas, felizmente muitas delas ainda selvagens e relativamente preservadas, e as cascatas, encantadoras, como as do Pego da Rainha, da Fadagosa ou da Azenha do Cavaco. O Ocreza: vale encantado povoado por gravuras rupestres, fauna e flora admiráveis. As praias fluviais: três tesouros a descobrir. O Parque do Brejo: tanto para desfrutar, sozinho ou em família. A Anta da Foz do Rio Frio: lugar mágico ao nascer e ao pôr do sol, uma viagem no tempo com o Tejo por companhia. As Águas Quentes: fonte centenária de saúde e bem-estar desde o reinado de D. João V. As Pessoas: o segredo de tudo isto.
Mação: verbo ir (e voltar).
