Pego da Rainha, Mação | Foto: Joana Santos

As cavacas. O presunto. O peixe do rio. As ribeiras. O Ocreza. As praias fluviais. O Parque do Brejo. A Anta da Foz do Rio Frio. As Águas Quentes. As Pessoas. Mação, nem sempre gostei de ti.

É quinta-feira, o dia quase a meio, já devia ter escrito e enviado esta crónica, registo e desisto, uma, duas, muitas vezes, a vida sempre a suspender as frases que alinhavo na cabeça, faltam-me o tempo e o embalo, sobra-me a preguiça. Sucedem-se os arranques logo travados por melhores ideias, ou talvez não, ganhou esta, a ver no que dá.

Faz tempo que quero escrever sobre isto. Nem sempre gostei de Mação, nem da minha aldeia, não é uma coisa bonita de dizer, mas é preciso assumi-la. A vila, mínima, mais pequena a aldeia, minúscula, o pinhal gigante, dominador, claustrofóbico, só cabeços e pinheiros a sangrar resina, o verão como chapas de zinco em brasa, o inverno feito de geada e frio e desconsolo. E as moscas, sempre tão chatinhas, todo a ano – fazer o quê?

Mas foi ali que cresci, não me foi dado escolher, e se pudesse, pois então, eu não escolheria Mação. Era menina, ingénua, agora sei que também impaciente e ingrata. Aos três A’s, famosa trindade composta por Ar, Água e Azeite, somava sonhos com todas as letras do alfabeto, planos infinitos para sair dali, depressa.

Finalmente chego a Lisboa, cidade capital. Denuncia-me a pronúncia, desde logo, mas ninguém sabe onde fica o sítio de onde venho. Muitos confundem Mação com outras vilas mais a norte; pois não, é distrito de Santarém, Beira Baixa, esclareço; outros têm ideias vagas, terra-mártir, os incêndios e pouco mais.

Os anos passam, fermentam as saudades. A vindima, a safra da azeitona, a matança do porco, a festa de verão, tão só o ar puro, o campo, a floresta, o silêncio. De longe, é diferente o que os olhos veem, o coração sem miopia, só foco e precisão, a vida a afinar-se.

Há 20 anos que aqui estou, longe da aldeia, eternamente na aldeia, finalmente de pazes feitas com o sítio onde cresci. Dissequei a vergonha e a inferioridade, dois apêndices do portugalinho profundo, a ingenuidade, o rancor.

Troquei tudo isso, perceba-se, por gratidão e orgulho. Só há pouco voltei a ver, talvez com os olhos de quem já viveu mais, que estava errada. E agora o que mais vejo é grandeza. Nem sempre gostei de ti, Mação, mas aprendi a gostar, como tu também aprendeste a mostrar-te e a valorizar-te.

As cavacas: deliciosas. O presunto: o melhor dos melhores. O peixe do rio (lampreia, enguia, carpa, sável, fataça), oh bendita cozinha regional. As ribeiras: fabulosas, felizmente muitas delas ainda selvagens e relativamente preservadas, e as cascatas, encantadoras, como as do Pego da Rainha, da Fadagosa ou da Azenha do Cavaco. O Ocreza: vale encantado povoado por gravuras rupestres, fauna e flora admiráveis. As praias fluviais: três tesouros a descobrir. O Parque do Brejo: tanto para desfrutar, sozinho ou em família. A Anta da Foz do Rio Frio: lugar mágico ao nascer e ao pôr do sol, uma viagem no tempo com o Tejo por companhia. As Águas Quentes: fonte centenária de saúde e bem-estar desde o reinado de D. João V. As Pessoas: o segredo de tudo isto.

Mação: verbo ir (e voltar).

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

Entre na conversa

1 Comment

  1. De Tipicamente de um Lisboeta “IDIOTA ALFACINHA” daquele tempo a 19 de Abril de 2009 às 08:24

    A Biblioteca e os P.S & P.S.D de Vila de Rei

    Qualquer autarca eleito democraticamente pelo povo tem o dever de promover o desenvolvimento do seu município. Em Vila de Rei a estratégia por vezes aponta nesse sentido!

    O crescimento económico e social harmonioso aliado à sustentabilidade é o grande objectivo. Um exemplo da captação de valor para o concelho é a promoção da educação, ou seja, a redução do analfabetismo e da iliteracia. Como é óbvio, a existência de uma biblioteca bem apetrechada ao dispor da população contribui para a obtenção dos objectivos que enunciei e certamente será uma boa alavanca educativa para o futuro. Tudo estava a correr bem: o financiamento comunitário foi concedido, a adjudicação foi efectuada, sendo certamente concedida à empresa que apresentou a proposta econômica mais vantajosa!

    Tudo estava a “correr sobre rodas” não fosse a decisão tomada acerca do nome escolhido para esta obra tão importante para Vila de Rei – José Cardoso Pires. Se fossemos analisar exclusivamente o curriculum vitae do senhor, creio que todos estaríamos de acordo. É considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, tendo nascido em Vila de Rei, mais precisamente em São João do Peso, no ano de 1925.

    O que parecia ouro sobre azul poderá ter sido uma falta de visão de quem tomou esta decisão.

    As pessoas são grandiosas pelos seus actos e pelo amor que têm pelas coisas. José Cardoso Pires foi um grande escritor (basta ver os prémios que ganhou) e nunca esqueceu Vila de Rei.

    Tinha era na sua memória uma ideia muito peculiar desta terra localizada no centro do País.

    Para não termos dúvidas basta lermos a entrevista que ele deu a Fernando Assis Pacheco para o Jornal de Letras, Artes e Ideias a 3 de Março de 1981 onde dizia: “Aquilo que consta Vila de Rei é uma terra de ‘pês’, “P” … só deu padres e pedras, pinheiros, putas, paneleiros, porteiros, palermas, politicos, pacificos, pastleiros, provincianos, padeiros e polícias.

    E sobretudo transpira subserviência (…) É eu não gostar das raízes que tenho.

    Nunca gostei.

    Tudo o que me cheira à Beira Baixa, àquela Beira é pior que…(…) Para mim tudo o que vem dali é mau (…)”.

    OLHA PAR ISTO É TIPICAMENTE DE QUEM ABUSOU O SISTEMA AO MÁXIMO E CONTINUA DEPOIS DO 25A , MAS NÃO NUNCA DISSE ISTO ANTES DE 1974 … WAW ??????????????

    O QUE PODEMOS ESPERAR MAIS, DE UM ALFACINHA LISBOETA QUE SEMPRE FOI.

    Antigamente era o Lisboeta maniento vs a Aldeia. Agora é o Sua Excelência Senhor Doutor (Dr:) vs o XCultivadores.

    Como é que se podem homenagear alguém atribuindo o seu nome à biblioteca municipal que viveu sempre a sombra do sistema SALAZARISTA. Se essa pessoa não gosta dessa terra e transmite o seu sentimento sem qualquer pudor? Esta decisão é completamente disparatada e pode ser considerada uma ofensa para todos aqueles que gostam de Vila de Rei.

    A única desculpa válida para a escolha deste nome é que hoje Vila de Rei está diferente, ou seja, os “P´s” mudaram ou são outros. Contudo, se o Dr. José Cardoso Pires regressasse a Vila de Rei, teria uma ideia distinta, ora vejamos: os padres foram-se embora ficando apenas um; as pedras foram destruídas (como é o caso das conheiras) e, outras deram lugar ao alcatrão, os pinheiros foram consumidos pelos incências, e; os polícias estão de abalada porque ao que parece o posto da GNR vai ser encerrado. Mas será que já não temos “P´s”? Claro que temos! Continuamos a ter palermas e patetas a tomar decisões sem competência e sem visão, temos os paus queimados dos pinheiros e quase que tivemos mais “P´s” não fosse o falhanço da repovoação da população com brasileiros(as). Além disso, vamos ser certamente inundados de “P´s” através dos milhares de páginas de livros que a nossa biblioteca terá. Resta saber se o Dr. José Cardoso Pires teria uma melhor opinião da nossa terra com os “pés” actuais. Duvido!!!!

    Das palavras do Dr. José Cardoso Pires uma coisa se mantém – a subserviência. O servilismo ao poder instalado (político e religioso), foi provavelmente reforçado com a mudança dos tempos e com o poder acumulado por alguns. Para conseguirem sobreviver muitos necessitam de se dar bem com o sistema!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *