Natal. Foto: DR

A quadra Natalícia, principalmente no universo cristão, é época de festa jubilosa, de pulcra beleza, de plena convivialidade, de grandes pitanças, de outrora os remediados tirarem a barriga de misérias, dos pobres alegrarem os comeres mercê das dádivas obtidas juntos dos vizinhos, gente esmoler e, às vezes, por que os atrevidos retiravam anonimamente, produtos animais e vegetais sem os donos o perceberem, deglutindo-os avidamente, sem remorsos a levá-los ao confessionário no dia imediato ao nascimento do Menino-Deus.

Os ainda lembrados do catecismo entendiam a acção realizada, tal qual o sucedido à Sagrada Família, passou a noite sem qualquer conforto, uma vaca e um burro minoravam o áspero frio sofrido pelo Casal e o Menino, soprando os seus bafos de forma a gruta em Belém ficar mais confortável. Os bens surripiados assim deviam ser entendidos. Uma oferta do Filho da Virgem Maria.

O escritor Ramalho Ortigão, a Ramalhal figura, escreveu um minucioso texto onde enumera as preciosidades comestíveis que os burgueses endinheirados tinham ao seu alcance nas mercearias, confeitarias e pastelarias lisboetas. Uma lista memorável que relembro na esperança de algum leitor procurar lê-la. Se o fizeram ganham duplamente, sabedoria e contacto com um homem de letras praticamente esquecido nos dias de hoje.

Nos dias que correm a ceia e o almoço de Natal são refeições a reflectirem as transformações ocorridas em Portugal após o 25 de Abril, a aparição dos supermercados e grandes armazéns de alimentação, sem esquecer o envelhecimento das populações a necessitarem de comeres baseados nas normas de nutrição, levando ao abandono de preparos culinários que para muitos não passam de saudosa memória.

De qualquer modo continuam os receituários da cozinha tradicional e popular a suscitarem viva procura, mesmo que minimalista, pois o tempo de carniça assada, cozida, estufada, frita, grelhada, guisada e ao vapor em doses avantajadas já lá vai para os velhos desdentados ou donos de dentaduras artificiais. Os bolos, os cremes, os pastéis, os pudins, as tortas e tutti-quanti amenizam o desgaste do corpo.

Os novos vivem o dilema de optarem por comerem segundo os ditames da noite solene ou darem largas ao seu contentamento saboreando a comida denominada fast-food a qual é estaladiça, macia, gordurosa, repleta de molhos sápidos e a suscitarem repetição. O ensaísta Roland Barthes escreveu obra de tomo acerca desta maviosa comida.

Não gosto da fast-food, comia-a durante alguns dias enquanto estive na Finlândia, de qualquer modo, a dita comida foi concebida para agradar às crianças daí o êxito das casas onde se vende. As crianças mandam muito, mesmo muito nas sociedades, principalmente nas urbanas, os pais também as acompanham, as várias cozinhas – burguesa, de autor, da modernidade, nobilitada, experimental, étnica, e minimal –, têm os seus público-alvo, já a pizza, o hambúrguer, o cachorro, o taco, a pasta e as tapas falam global, universal, a bordejar o totalitarismo do acto de comer. A indústria está atenta. O bolo-rei aguenta-se por ser rei. Vá lá!

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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