Em Xcaret, na península mexicana do Iucatão, os cemitérios são muito diferentes daqueles que conheço – embora, felizmente, conheça poucos. São coloridos, originais e até um pouco extravagantes, têm caveiras e outros objetos decorativos sobre os túmulos, quadras divertidas e uma alegria impossível de encontrar nos cemitérios portugueses.
Em pequena, lembro-me de passar meios-dias ziguezagueando entre as campas e jazigos do da cidade de Abrantes, olhando as fotografias desbotadas, as letras e as homenagens que ainda não sabia decifrar.
Sempre que era preciso ir ao hospital, e enquanto a minha mãe levava o meu irmão a mais uma consulta pediátrica, eu e a minha avó matávamos o tempo entre gente morta. Nesta altura, eu já tinha assistido a vários velórios e funerais, de familiares e não só, e aos meus olhos nenhum cemitério era um sítio assustador. Os meus pais nunca me esconderam que a morte faz parte da vida.
Quando eu era pequena havia na minha aldeia a tradição de dar pão às crianças aquando da realização do funeral de alguém. Os familiares faziam essa oferta pela remissão dos pecados do falecido numa ação de misericórdia que convocava novos e velhos.
No México, ao que sei, as tradições são muito diferentes das nossas. Numa mistura única de rituais indígenas e influências cristãs, os mexicanos celebram a morte com festa e alegria. No cemitério onde estive todas as campas estavam pintadas com cores fortes e muitas tinham objetos alusivos à vida que quem ali fora sepultado.
Lembro-me particularmente de uma com uma mini tenda às riscas brancas e vermelhas e uns enormes sapatos azuis de palhaço, e de outra com uma pipa de vinho e uma torneira sobre a qual se podia ler a seguinte inscrição: se deixarem esta torneira a pingar, com sorte ainda posso ressuscitar. Ali, as casas dos mortos prolongam aquilo que eles viveram, fizeram, eram.
Em forma de concha, o cemitério mexicano tem uma arquitetura em espiral, que termina numa pequena elevação onde três fitas coloridas, nada de luto, ondulam ao vento presas a três mastros de madeira. Tudo é cor e leveza, uma aura difícil de explicar.
No México, no Dia dos Mortos, famílias inteiras juntam-se nos cemitérios, onde jantam e dormem, para celebrar a vida daqueles que já partiram. Diz-se que comem, bebem e celebram alegremente, numa festa onde nem todos os convidados estão vivos. Há mariachis, música e irreverência com fartura, nada de tristeza.
A minha avó morreu há quinze dias, de velhice, serena e em paz, contrariando estoicamente o vaticínio médico de que não passaria o Natal connosco. Mas passou, celebrou o ano novo e cumpriu mais um aniversário.
Despedi-me dela durante um bonito pôr-do-sol com as linhas soltas do poema que ela me cantarolava em pequena dentro do bolso do casaco. Ao seu jeito, a minha avó era uma sábia e, se fosse mexicana, por mim, a porta da sua última morada seria coroada com um poema sobre
mouras e fadas
vindas pelas madrugadas, em jardins de pasmar.
