Foto: João Marques Alves

“Ponto Contraponto” é o nome da exposição artística da autoria de Martim Brion, considerado um dos nomes mais promissores da arte contemporânea em Portugal, que está em exposição em Vila Nova da Barquinha (Galeria do Parque), até sábado, 28 de maio. Embora prestes a sair de cena, o catálogo da exposição é lançado publicamente em setembro, altura em que Martim Brion conta estar presente, pelo que o mediotejo.net lhe esteve à conversa com o artista sobre esta exposição, em particular, e sobre a arte, em geral.

A mostra, comissariada por João Pinharanda e que surgiu no âmbito da parceria da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha com a Fundação EDP, combina ecleticamente textos e esculturas, pelo que Martim Brion, artista que se divide entre a capital lisboeta e a alemã de Munique, quis apresentar um trabalho que fosse “representativo” da sua pessoa “como artista e individuo” e que “estivesse à altura do espaço e de todo o trabalho de qualidade em termos artísticos que tem sido feito no mesmo e em Vila Nova da Barquinha”.

Martim Brion. Foto: Dieter Hammer

De Vila Nova da Barquinha, Martim Brion diz levar uma boa impressão, do espaço, das pessoas que o acolheram e… do peixe que comeu, pelo que diz ter “todo o gosto” em voltar a expor no concelho barquinhense.

Que relação pretende estabelecer entre os textos e as esculturas? Qual é a ideia última por detrás desta exposição? Que mensagem pretende passar?

As esculturas digamos que é o meu trabalho “normal” e os textos são uma conceptualização do objecto de arte. É a descrição de um objecto, que poderá ou não existir mas que não está à vista. Portanto o texto torna-se no objecto, o conceito do objecto vira o objecto. Uma subversão/comentário ao processo de descrição de objectos em arte e como nós descrevemos o mesmo e depois como o interpretamos sem pistas visuais. Ao mesmo tempo é uma critica ao processo de abstracção de conceitos e de ideias que leva a um total desapego da realidade e que se interpretado/utilizado não como um exercício intelectual mas como algo real e aplicável em termos práticos cria normalmente um serie de problemas e conflitos e promove ignorância e mau entendimento. Mais concretamente em relação às esculturas feitas em tubos, são uma aproximação ao lado prático, à utilização de objectos de uso mais corrente, não sendo no entanto “ready-mades”, para criar algo menos prático. Portanto como mensagem, é a minha opinião como individuo e artista, uma opinião textual mas fundamentada visualmente ou uma opinião visualizada. 

O que quis trazer a Vila Nova da Barquinha?

Quis apresentar um trabalho que fosse representativo da minha pessoa como artista e individuo e que estivesse à altura do espaço e de todo o trabalho de qualidade em termos artísticos que tem sido feito no mesmo e em Vila Nova da Barquinha.

Como tem sido expor em Vila Nova da Barquinha? É um local que pode vir a acolher futuros trabalhos seus?

Gostei muito, confesso que não conhecia, e gostei muito da Vila, é um lugar bonito, bem cuidado, com uma relação com o rio também muito bem trabalhada. E para além disso e mais importante ainda fui muito bem recebido por todas as pessoas que tive o prazer de conhecer. E o peixe, também gostei muito de comer o peixe. Terei todo o gosto a voltar a expor em Vila Nova da Barquinha.

Qual a(s) sua(s) fonte(s) inspiradora(s) e que materiais privilegia nos seus trabalhos?

As minhas fontes inspiradoras, são num sentido lato, a minha vida ou a vivência da minha vida, o que filtro da mesma e consigo transformar em conceitos e objectos artisticos que me sejam interessantes/atraentes. Em termos de materiais, não tenho nenhum material preferido, mas tenho utilizado bastante tinta de poliuretano, PVC e MDF, mas não especificamente porque goste mais desses materiais, apenas porque são os melhores, dentro de determinada constelação de factores, para chegar ao objecto final. 

Quando sente que está pronto para começar uma obra e como sabe que já concluiu um trabalho?

É um processo constante, estou normalmente sempre com um foco, mesmo que não consciente ou não em primeiro lugar, em “criar” algo, pelo que de vez em quando algo “aparece”, uma ideia ou forma que merece ser explorada e desenvolvida. Sinto que este processo termina quando em termos de objeto, o mesmo tem uma boa composição e me apraz esteticamente. Em termos de conceitos, sinto que o mesmo está finalizado quando desenvolve tudo o que eu quero dizer e que faz sentido em relação ao meu trabalho. Em termos fotográficos, é algo mais imediato, são pequenas visões de locais por onde vou passando ou onde estou. Ultimamente estes dois processos distintos têm-se vindo a fundir e a ficar mais plásticos, para além de se estarem a expandir para outras técnicas.  

Tem uma ‘visão’ prévia do que quer/vai fazer ou começa e depois depende muito da imaginação e do improviso?

Depende. Por vezes sim, já tenho uma ideia outras vezes não. Por exemplo com estes trabalhos de texto, desenvolvi o conceito mas os textos em si foram “aparecendo” ao longo de uns meses. Por vezes é bom ter já um espaço para o qual se vai fazer as peças, pois ajuda a criar um corpo de trabalho mais conceptualmente homogéneo e dai esteticamente também. Portanto varia bastante, mas no geral pendo mais para o pré-conceptualizado. 

A exposição em Vila Nova da Barquinha termina no dia 28 de maio, mas o catálogo é lançado publicamente na Barquinha em setembro. Vai estar presente nesse momento? Qual a importância de um bom catálogo?

Eu espero sim poder estar presente, como não vivo em Portugal por vezes é me complicado estar presente, mas sim espero e conto poder estar presente. Um bom catálogo, para além de ser um objeto que complementa uma exposição e as obras em termos estéticos, também é no fundo o que fica da mesma para o futuro, pelo que é também muito importante em termos documentais. 

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Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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