A diretora da Unidade de Saúde Pública do Médio Tejo viveu nos últimos dois anos o maior desafio da sua carreira profissional. Créditos: mediotejo.net

No dia em que se assinalam dois anos sobre o primeiro caso positivo de covid-19 no Médio Tejo, a 16 de março de 2020, em Tomar, concelho onde se registou também o primeiro surto de covid-19, Maria dos Anjos Esperança relata como abraçou esta missão, tendo por base os conhecimentos teóricos e a sua experiência profissional, vendo-se obrigada a correr atrás do vírus e dos acontecimentos e a tomar decisões difíceis em clima de grande pressão. Com mais de 60 mil infetados e 500 óbitos em dois anos no ACES Médio Tejo, Maria dos Anjos Esperança não escapou também ela a uma infeção por um vírus em constante mutação e cuja mortalidade só foi atenuada com a descoberta de uma vacina em tempo recorde.

Testagem à covid-19 em Constância. Foto: Ricardo Escada

ÁUDIO | MARIA ANJOS ESPERANÇA, SAÚDE PÚBLICA ACES MÉDIO TEJO

Cumprem-se hoje dois anos sobre o primeiro caso na região, que balanço faz?
Faz efetivamente hoje dois anos do primeiro caso no Médio Tejo, e que aconteceu no concelho de Tomar. Passámos por algumas fases, mas no computo geral, em relação ao trabalho (embora nenhum dos profissionais de saúde se queixe do trabalho, porque estivemos no fundo a fazer aquilo para que nós estudámos e que nos propusemos fazer da nossa vida), mas foram tempos muito difíceis, de uma luta muito grande de dias e noites passados a trabalhar, mas conseguimos levar a bom porto aquilo que nos propusemos fazer, e que pensamos ter sido bem feito. Naturalmente que esse juízo ficará para outras pessoas, mas aquilo que nos propusemos fazer, e que conseguimos, era defender as nossas populações desta doença. Consideramos que chegámos a esta altura – que ainda não acabou a pandemia – já muito mais cientes daquilo que é preciso fazer e o que é preciso manter neste período todo de dois anos. Por outro lado, tivemos sempre o apoio da própria população, que, com os altos e baixos que esta situação teve, sofreram muito também, sobretudo antes de haver a vacinação. Houve muitos casos em que nós sofremos também, ao lado das pessoas que tinham perdido os seus entes queridos com esta doença.
Tivemos sempre o apoio das instituições, dos meios de comunicação local, da imprensa escrita, da imprensa falada, foi realmente uma luta que não foi só uma luta dos serviços de saúde, foi a luta de uma comunidade inteira, com todos os seus intervenientes. Penso que todos devem estar orgulhosos de ter participado e de continuarem – porque como disse, a pandemia não acabou, mesmo que se entre em endemia, a situação continua com necessidade de ser combatida – e, portanto, acho que todos devem estar orgulhosos de ter contribuído para que em termos de mortalidade, que era aquilo sempre que nos preocupou mais, esta não fosse maior no nosso Médio Tejo.

Disse há pouco que se lembrava bem do primeiro caso de covid-19 no Médio Tejo, a 16 de março de 2020. Esta senhora de Tomar está bem neste momento?
A senhora está bem, mas na altura, quando começou a pandemia, ainda se faziam os chamados testes de cura, em que a pessoa só regressava ao trabalho depois de ter um teste negativo. E esta senhora demorou bastante tempo a ter um teste negativo para poder regressar ao trabalho. Lembro-me como se fosse hoje quando nos sinalizaram que havia o primeiro caso positivo, era uma funcionária da Câmara Municipal de Tomar, e eu estava aqui no serviço e fui à Câmara com a enfermeira Ana Lourenço. Íamos as duas pelo caminho a pensar o que dizer, como teríamos de nos comportar, as indicações que tínhamos de dar… íamos a fazer uma revisão da matéria que já tínhamos lido e ouvido por parte da DGS, e estivemos lá, no local de trabalho dessa senhora, que estava em casa já a ser encaminhada pelo seu médico de família.
A nós, unidade de saúde pública, preocupava-nos os contactos das pessoas e não as pessoas doentes – essas seriam pelo médico de família – e já lá estava a senhora presidente da Câmara de Tomar, e tivemos o maior apoio por parte da autarquia, todas as pessoas foram ouvidas, ficámos com os contactos das pessoas, a todos se fez os testes, todo aquele departamento da Câmara fechou naquela altura, as pessoas foram para casa, não tivemos mais casos. Mas até nessa altura nós, mesmo os profissionais de saúde, que já tínhamos os conhecimentos teóricos de como atuar, nessa altura precisámos de fazer aquela revisão da matéria, e lembro-me que estávamos com as pessoas a tirar os contactos, números de telemóvel e tudo aquilo que nós achámos que era preciso, as moradas para a polícia e proteção civil se fosse necessário ir levar alguns bens a casa, e dizíamos às pessoas: ‘Olhe não se aproxime muito, estejam afastados…’ Portanto, até os profissionais de saúde tinham que estar a pensar o que era preciso.
Depois essas situações entraram na rotina, com o avançar do tempo. Tivemos alturas em que nos preocupámos muito, especialmente em casos de surtos em lares em que ainda não tínhamos as pessoas vacinadas, mas fomos andando, atualizando os nossos conhecimentos, chamando sempre e agradecendo sempre a toda a colaboração que tivemos de toda a gente, e chegámos ao dia de hoje em que os casos não são poucos, naturalmente, mas temos agora a proteção que as vacinas nos dão. Os surtos que temos agora, mesmo em estruturas residenciais para idosos, é-nos sempre referenciado que as pessoas não têm sintomas, ou têm uma ligeira tosse.

Sardoal, 22 de janeiro de 2021. Fotografia de Paulo Jorge de Sousa

Doutora, pedia-lhe uma leitura de um ponto que mais a tenha marcado, o momento mais difícil e um dos momentos que entenda por bem realçar em termos de gesto ou atitude por parte da comunidade…
Em relação aos momentos mais tristes, sobretudo quando os infetados eram pessoas idosas, que vivam sozinhas, e que não tinham ninguém. Nós preocupávamo-nos em ligar todos os dias, o médico de família ligava para saber os seus sintomas, nós ligávamos para os contactos… houve situações assim, sobretudo com idosos e casais de idosos que viviam sozinhos, que nos preocupavam muito. Eu tive um caso que me sensibilizou muito, que foi o caso de um casal em que um senhor de 76 anos ficou positivo, e deixou a casa dele e foi viver para outra casa que tinha. Sozinho. Era um senhor diabético, um senhor muito ansioso e que me telefonou várias vezes durante o dia e durante a noite. Ele é que estava positivo e para proteger a esposa foi-se embora para outra casa. Ainda teve de ir ao hospital porque, apenas por ansiedade, estava com falta de ar. Foram situações destas que nos sensibilizaram e que nos puseram mais sensíveis.
Naturalmente em que também houve outras situações em que as pessoas não entendiam bem o que nós dizíamos, ou melhor, achavam que não era necessário estar a fazer aquilo que nós dizíamos e, enfim, tivemos algumas situações em que tivemos de pedir a colaboração da polícia para que não saíssem de casa. O nosso primeiro surto do Médio Tejo, em empresas, que foi também no concelho de Tomar, com um número muito alto de casos, em que até água engarrafada nos pediram porque não queriam beber água da torneira… enfim, são situações que vão passando e vamos entendendo. Na altura nós não entendíamos e tínhamos tanto que fazer que pensávamos: ‘Porque é que me hão-de estar a pôr a problema da água?’. Mas hoje em dia sabemos que as pessoas quando ficam aflitas e quando estão doentes, e sobretudo com uma doença que ninguém conhecia ainda, também reagem com os seus medos.

Foi preciso lidar com uma doença desconhecida, com o vírus também a sofrer mutações e a obrigar as autoridades de saúde a correrem atrás do vírus e, muitas vezes, imagino, a ter de tomar decisões difíceis praticamente na hora?
Sim, sim, praticamente na hora, como costumamos dizer, de tomar as decisões ‘em cima do joelho’, e se calhar ao outro dia já tomaríamos uma decisão diferente, mas sempre cientes de que estávamos a fazer o melhor que sabíamos e que podíamos fazer para proteger as outras pessoas. E depois também ficámos doentes, porque os profissionais de saúde também adoeceram com covid, e mesmo assim tivemos de continuar em teletrabalho.

Foi o caso da Dra Maria dos Anjos Esperança, que também foi afetada pelo vírus…
Fiquei positiva em dezembro de 2020, na altura tive que estar em casa 14 dias, tive que esperar que o teste fosse negativo para voltar ao serviço. Mas naturalmente que os telefones servem para isto, e eu tinha e tenho uma das melhores equipas de saúde pública que há no país e fomos continuando sempre o nosso trabalho, sempre a dar apoio a todas as pessoas que era preciso.

Dois anos depois do primeiro caso de covid-19 na região, o que destacaria? O avanço da ciência, que permitiu criar uma vacina tão rapidamente, algum ato de solidariedade?
Eu destaco como positivo e como negativo, as vacinas. Como positivo porque os nossos cientistas conseguiram fazer efetivamente uma vacina tão rapidamente que nos protege de uma doença em que a mortalidade foi sempre muito alta, sobretudo para pessoas idosas e com outras morbilidades, e destaco pela negativa as pessoas que ainda hoje não se querem vacinar. Não é admissível que alguém pense em não se proteger e muito menos admissível é não pensar em proteger o próximo, porque estando a pessoa vacinada está a proteger o próximo. Por alguma coisa há a imunidade de grupo que as vacinas dão. É aquilo que eu destaco em relação a esta situação. A evolução da ciência, que foi de uma forma incrível, que todos os dias nos punha na mão ferramentas para podermos trabalhar, esclarecimentos para dúvidas que tínhamos, e realmente a vacina, pela positiva. Pela negativa as pessoas que ainda hoje não se querem vacinar.

Como vê as manifestações de carinho para com o trabalho desenvolvido pelas autoridades de saúde, nomeadamente quando o anterior presidente do CHMT disse que devia ter uma estátua, e também num dia em que vai receber uma distinção dos Rotários de Tomar?
Eu sou muito agradecida, acho que este prémio, este louvor, todas as manifestações, não se podem entender como sendo para mim. Serão efetivamente personalizados, são a uma pessoa que representa os profissionais de saúde, mas sempre para todos os profissionais de saúde e também para todas as instituições, para todos os meios de comunicação, para todas as autarquias, para a população em geral. Portanto, são manifestações de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, mas que diz respeito a todos nós. Ninguém trabalha sozinho e, portanto, todos nós demos o melhor que sabíamos e todos nós demos o nosso contributo para que esta situação não tivesse sido tão grave e tão má como poderia ter sido.

Portanto partilha este reconhecimento público com uma vasta equipa?
Com todos.

Créditos: Pixabay

Chegando ao dia de hoje, em que ponto estamos relativamente à pandemia?
Estamos na mesma, com o aparecimento de muitos casos, até por causa das mutações que este vírus tem tido. Ainda hoje tivemos mais de 400 casos aqui no Médio Tejo, e vão continuar a aparecer. Mas há um alívio das restrições, a DGS já revogou muitas das orientações que seguíamos, uma das quais, por exemplo, o referencial das escolas, que era o documento de como as escolas deviam agir e o que deviam fazer em situação de pandemia. Esse foi um documento feito pela DGS e pelo Ministério da Educação que foi revogado ontem. Nesta altura estamos a aliviar as restrições, no entanto eu digo que fruto desta pandemia que vivemos desde há dois anos, e se por um lado de início todos cumpriram muito bem porque todas as pessoas estavam assustadas e ninguém sabia muito bem o que a doença vinha fazer, depois com o aparecimento da vacina, com o evoluir da situação, as pessoas começaram a ficar um pouco menos preocupadas. No entanto eu devo lembrar que o número de casos ainda é grande, o nosso RT [índice de transmissão] ainda é elevado, e não devemos de forma alguma esquecer as medidas que pusemos em prática de uma forma muito séria no início e que devemos continuar a ter agora, pelo menos algumas. O uso da máscara é quase obrigatório em muitas situações, e eu peço às pessoas que não se esqueçam do uso da máscara e dos afastamentos, alguns são ainda precisos.

Mantêm-se as três regras básicas, portanto…
A higienização de mãos e superfícies, o uso de máscara e a etiqueta respiratória, e o afastamento nalgumas situações, sobretudo em locais mais fechados.

Centro de Vacinação de Abrantes. Foto arquivo: CMA

Para o futuro, o vírus vai ficar entre nós, uma vacina anual poderá ser o expectável…?
Sim, o vírus ficará entre nós. Vai tendo algumas mutações, todas elas, ultimamente, com sintomatologia mais ligeira, e irá ficar entre nós, provavelmente. Sobre a vacina, caberá aos cientistas definir e decidir, em função das vacinas que já temos da gripe sazonal, se faz sentido incorporar ou ter outra vacina para o SARS-CoV-2, de forma a continuarmos a proteger-nos. Não podemos de forma alguma é voltar ao tempo em que víamos a mortalidade a aumentar, sobretudo na nossa população idosa.

Foram dois anos muito intensos para o país e para o mundo, que hoje se assinalam no Médio Tejo. Quer deixar uma última mensagem?
Quero deixar sobretudo uma mensagem de agradecimento por terem tido sempre a paciência de nos ouvir e a vontade de cumprir aquilo que nós pedíamos. E agora, quase praticamente no fim da minha carreira na função pública, deixo o desejo muita saúde e o desejo de que escutem sempre os profissionais de saúde e os conselhos que eles têm para dar.

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Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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