Ilustração de Ricardo Cabrita

Nos dias 28 e 29 de maio de 2025, o auditório do novo Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, em Abrantes, foi palco de um evento denominado “Médio Tejo – A Visão de uma Região Europeia Emergente”, organizado pela MédioTejo21 – Agência Regional de Energia e Ambiente, em parceria com a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo.

Mais do que um simples encontro técnico, esta iniciativa representa a consolidação de uma visão estratégica de longo prazo que o Médio Tejo tem vindo a seguir rumo ao desenvolvimento sustentável, posicionando-se gradualmente no panorama regional, nacional e europeu. Numa região composta por 11 municípios e cerca de 210 mil habitantes, o Médio Tejo beneficia de uma localização privilegiada entre Lisboa e o Porto.

Esta centralidade tem sido aproveitada com inteligência, através de uma abordagem inovadora que alia a transição energética ao desenvolvimento regional, com o envolvimento de todos os actores da região. Permitam-me, no entanto, destacar a presença do TAGUSVALLEY – Parque de Ciência e Tecnologia de Abrantes, um centro de desenvolvimento tecnológico e inovação de referência, único na nova NUT II, juntamente com o Instituto Politécnico de Tomar, que tem um papel relevante na formação de recursos humanos especializados em sectores-chave. Acresce ainda o papel da NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém, enquanto estrutura de apoio às PME da região, estabelecendo pontes entre empresas, autarquias, fundos europeus e redes de inovação, reforçando a coesão económica regional e o dinamismo do sector privado.

Recordo que o encerramento da central termoelétrica a carvão do Pego, em 2021, poderia ter representado um revés económico. No entanto, foi encarado como uma oportunidade estratégica. O Médio Tejo é, hoje, uma das três regiões portuguesas beneficiárias do Fundo para uma Transição Justa, com um financiamento de 65 milhões de euros. Este apoio está a ser canalizado para projetos estruturantes, como a instalação de 365 MWp de energia solar, 264 MW de energia eólica com armazenamento integrado, e um eletrolisador para a produção de hidrogénio verde, que será fundamental para a região se afirmar no desenvolvimento da cadeia de valor do hidrogénio – desde a produção ao armazenamento, distribuição e consumo.

Destaco também a participação da CIMT, em conjunto com a agência MédioTejo21, em projetos como o Hy2Market, que envolve 38 parceiros de 10 países europeus. Um exemplo prático foi a circulação, durante oito meses, de um autocarro movido a hidrogénio pelo território, demonstrando à população a segurança e a viabilidade desta tecnologia. Refira-se igualmente a integração da iniciativa europeia Interreg, com a designação UNLOCK, que complementou as intervenções do segundo dia do evento e que tem como objetivo promover mudanças políticas e estratégicas no sector, ao nível europeu, em territórios emergentes na área do hidrogénio.

Convém sempre lembrar que o episódio nacional do recente apagão leva-nos a valorizar, ainda mais, a existência na região de uma ligação directa à rede eléctrica nacional, com 38.463 megavolt-amperes de capacidade instalada – mais uma grande vantagem competitiva decisiva para o desenvolvimento de projetos de energias renováveis. Portugal dispõe de nove interligações transfronteiriças, estando integrado no mercado ibérico de electricidade – realidade que permitiu ao Médio Tejo assumir um papel de destaque nesse apagão, com a Barragem do Castelo de Bode a dar o impulso inicial para o restabelecimento da normalidade energética em todo o país.

Em conclusão, o Médio Tejo demonstra, cada vez mais, que é possível conciliar competitividade económica com sustentabilidade ambiental, tecnologia com património, e desenvolvimento local com cooperação internacional. Estou certo de que os próximos passos exigirão o reforço do trabalho em rede, a consolidação de objectivos concretos e uma ambição renovada. Estou igualmente certo de que este evento não foi apenas uma celebração do que já foi feito, mas um compromisso claro com um futuro ainda mais sustentável, inovador e europeu – um futuro que esta região do Médio Tejo ambiciona alcançar, face à realidade dos novos tempos que vivemos.

Arquiteto (Universidade Lusíada, 1997), foi Presidente do Núcleo do Médio Tejo da Ordem dos Arquitetos e vogal da Secção Regional Sul (2005-2008) e do Conselho Diretivo Nacional (2020-2023), sendo Conselheiro do Conselho de Supervisão da Ordem dos Arquitetos. Exerce a profissão na MODO Associados, de que foi fundador, tendo sido Vice-Presidente das Câmaras Municipais de Abrantes e Tomar (2009-2016). É atualmente Presidente da NERSANT – Associação Empresarial de Santarém.

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