Manuel Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, no MIAA - Museu Ibérico de Arte e Arqueologia. Fotografia: mediotejo.net

Estão aí as Festas da Cidade. Dois anos após o cancelamento provocado pela pandemia. O que significa para si este momento?

Havia uma ansiedade enorme, e julgo que todos pensávamos quando é que teríamos de volta as nossas festas. Porque eram sinónimo de vermos ultrapassada uma fase muito difícil para o mundo inteiro. Uma fase que, num período inicial, foi muito complexa, pela gravidade de situações de saúde, do número de mortes que tivemos por via do covid-19, com os hospitais cheios, com a reorganização do nosso Hospital de Abrantes, a tornar-se hospital de referência covid, que ajudou de forma muito efetiva com todos os seus profissionais, quer na área da saúde, quer noutras áreas… Houve um envolvimento de tanta gente, que conseguimos corresponder dentro do possível e de forma satisfatória a toda esta complexidade imensa. Foram tempos muito difíceis. Recordo-me quando o hospital de Abrantes se tornou referência covid para ajudar a nossa comunidade, socorremos e apoiámos várias unidades hospitalares do país. Foram momentos muito difíceis e, nessa altura, o que se pensava era quando é que sairíamos deste processo…

O setor da cultura e dos eventos em concreto – porque além dos artistas, há todo o trabalho de bastidores, na montagem de palcos, no som, câmaras, há toda uma logística e atividade económica em torno dos eventos – foi muito afetado. E todas as outras dinâmicas, da restauração e gastronomia, da hotelaria, todo esse universo económico foi afetado. Bem como as pessoas e as suas vidas, e as das nossas organizações – e é por isso que decidimos homenagear no Dia da Cidade as nossas IPSS, que fizeram um trabalho extraordinário a apoiar sobretudo os nossos idosos e quem tinha maior fragilidade, caso dos cidadãos portadores de deficiências.

As festas são a expressão desta retoma que todos desejamos, porque a economia também teve graves problemas e houve muitas atividades profissionais que viram as suas vidas suspensas

Houve muitas atividades profissionais que estiveram de forma muito exaustiva e sacrificada neste apoio ao país, à humanidade, às pessoas e comunidades. Queremos libertar-nos desses momentos muito difíceis e a retoma das Festas é o símbolo de que as coisas melhoraram, de forma muito significativa. Não passou, mas melhorou. É por isso que no próprio enquadramento das Festas pretendemos criar situações diferentes e novas, sobretudo na utilização de alguns espaços, para tentar continuar com este sinal de que as coisas não passaram totalmente, ainda precisamos estar atentos às orientações da Direção-Geral de Saúde. O nosso figurino das Festas tem alguns apontamentos que revelam isso mesmo.

Um exemplo desta nova linguagem que a pandemia nos trouxe é um novo copo reutilizável, personalizado, individualizado, que iremos lançar para reforçar a preocupação com questões ecológicas e também por uma questão de preocupação com a saúde pública e segurança, com a utilização de copos próprios.

As Festas arrastam consigo o gasto de milhares de copos de plástico que depois vão para o lixo e obrigam a mais custos de tratamento. Este é um bom exemplo de adaptação às nossas circunstâncias.

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As Festas são uma mostra da identidade de Abrantes, mas antes de tocarmos esse tema, gostaríamos de saber um pouco mais sobre a identidade do Presidente de Câmara. Nasceu em Tramagal, residiu em Vale das Mós, fixou-se em Rossio ao Sul do Tejo. Como foi crescer do outro lado do Tejo, com a cidade vigilante no horizonte?

Sou um homem do meu concelho. Sempre tive uma relação com Abrantes, nunca me vi noutro lugar. Nasci aqui e procurei sempre regressar. Mesmo durante os estudos, quase todos os fins-de-semana vinha ao meu concelho e à minha cidade. Foi aqui que fiz a minha vida, casei, tive os meus filhos… tenho toda a minha vida aqui. É aqui que tenho os meus pais, os meus familiares, os meus irmãos também vivem todos em Abrantes. A minha aposta foi Abrantes, sempre. Tive a felicidade de poder fazer isso.

É uma paixão como a de muitos outros. Todos os abrantinos são orgulhosos de o ser. Uns têm a felicidade de conseguir cá estar, outros nem tanto. E é isso que procuro também fazer, como presidente: criar as melhores oportunidades para tentar fixar o maior número de pessoas. E conseguir captar novos habitantes. Vejo muita gente que não é de Abrantes e que se apaixonou por esta cidade.

É uma paixão como a de muitos outros. Todos os abrantinos são orgulhosos de o ser. Uns têm a felicidade de conseguir cá estar, outros nem tanto. E é isso que procuro também fazer, como presidente: criar as melhores oportunidades para tentar fixar o maior número de pessoas.”

Como muitos alunos da ESTA, que querem continuar a ficar entre nós, e isso é muito bom. A presença da ESTA tem também uma importância relevante nesse contexto da formação e fixação de pessoas nos quadros das nossas empresas. É por isso que queremos muito a nova ESTA ligada ao Parque de Ciência e Tecnologia, para encadear todos os processos e criar relação entre as empresas e o ensino superior, depois o mercado de trabalho.

Uma das coisas que acho mais brilhante e que nos enriquece imenso, mesmo que aparentemente possa haver alguma disputa, é a diversidade cultural e social das diferentes freguesias. A valorização dessas características é um desafio. O nosso concelho é muito grande. Costumo dizer que é do tamanho da ilha da Madeira, e é até um bocadinho maior. São 714 quilómetros quadrados, com muitas freguesias dispersas, com características muito próprias, e cada vez mais as pessoas têm este conceito maior de Abrantes, enquanto cidade e concelho.

Foto: mediotejo.net

Nas minhas intervenções tenho puxado pelo slogan ‘juntos somos mais fortes’, ou ‘a união faz a força’, e tenho esperança que vamos conseguir, com o tempo, e sem forçar demasiado a vontade de cada um, mas de forma livre e quase espontânea, suscitar esta identidade maior que é Abrantes e o nosso concelho.

Que imagens e memórias tem da infância nas localidades por onde passou?

Tenho memórias extraordinárias, de um miúdo rebelde, pouco sossegado. Mas sempre fui educado e de fácil trato. Sou muito transparente, sou mesmo assim. Digo aquilo que penso. Procuro não magoar ninguém. Sempre fui bastante irreverente e irrequieto porque desejo sempre também mais.

O nosso concelho é muito grande. Costumo dizer que é do tamanho da ilha da Madeira, e é até um bocadinho maior. São 714 quilómetros quadrados, com muitas freguesias dispersas, com características muito próprias: uma riqueza imensa”

A minha vontade de ser presidente de Câmara, e ter assumido estas funções, foi algo que não foi pensado. Fui convidado há quase 20 anos pelo Dr. Nelson de Carvalho, presidente da CM na altura, para fazer parte da sua equipa enquanto vereador. E depois fui fazendo o meu caminho, de forma sempre descontraída, sou professor efetivo numa das nossas escolas em Abrantes. Fui fazendo este trajeto sempre com esta inquietude e vontade de fazer mais e melhor. E ninguém faz nada sozinho. Procurei e procuro ter as melhores pessoas a acompanhar-me nestes projetos e sou extremamente ansioso e intranquilo na busca de fazer mais e melhor.

Tem que haver espírito de confiança, é o que sinto mais no exercício destas funções. As pessoas por vezes estão desacreditadas, e desconfiam, e é por isso que luto na forma como tento transmitir o que penso, de forma transparente, para que as pessoas percebam as dificuldades que temos nos procedimentos.

Fotografia: mediotejo.net

As últimas eleições foram um exemplo flagrante da confiança que os abrantinos depositam em mim e na equipa que apresentámos a escrutínio, nas eleições autárquicas de 2021. Tivemos a maior votação de sempre desde 1974, exceto no segundo mandato do Dr. Nelson de Carvalho.

Foi uma vitória que nos enche de responsabilidade, para corresponder às expetativas. O que desejo é que, no final deste mandato, tenha conseguido de acordo com o plano e estratégia que apresentámos a votação, ter posto em prática tudo aquilo que queremos construir. Estamos num tempo com algumas dificuldades, a Guerra da Ucrânia é um exemplo flagrante das dificuldades, as nossas despesas aumentaram de forma brutal. A energia, os combustíveis, os equipamentos e materiais… Estamos a sofrer esse impacto da guerra.

É uma pessoa que sempre esteve ligada ao desporto e ao associativismo. Foi professor de Educação Física… aliás, é. Nunca se deixa de ser professor, concorda? Tem saudades de exercer?

Sou professor de Educação Física, sou e serei sempre e com muito gosto. Tenho algumas saudades de exercer. Não faço nada por favor. Sou presidente da CM Abrantes com muito gosto e muito orgulho.

Sei que não faço tudo bem e que não consigo resolver tudo ao mesmo tempo e em todo o lado. Mas faço-o de forma determinada. Tento agradar a todas as pessoas, tento não magoar ninguém e ajudar toda a gente. Mas não sou dono da cidade nem do concelho. Sou o representante das pessoas e depois tenho as leis e os tribunais a dizer-me o que devo fazer.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes. Fotografia: mediotejo.net

Faço isto com muita determinação, como quando era professor. Eu sempre quis ser professor de Educação Física. Era o meu sonho. Fiz o meu curso de forma muito empenhada, e os meus professores e colegas sabem bem que estive em todos os momentos lúdicos de festividade, mas quando chegava a hora de trabalhar, estudar e entregar trabalhos coletivos, estava sempre presente e cumpri com muita responsabilidade também a minha tarefa enquanto aluno.

Sou professor há cerca de 30 anos, há 20 anos que ocupo cargos públicos/políticos. Não tenho receio nenhum de voltar a dar aulas. Tenho alguma saudade, fui durante 10 anos professor e sempre me senti muito bem a fazer aquilo que fazia.

Que relação tinha com os seus alunos?

A perceção que tenho é que as pessoas gostavam de mim enquanto professor. Os alunos, os colegas eram meus amigos e sempre tive uma boa relação com eles, com os auxiliares de ação educativa, com a comunidade educativa.

Os alunos abordam-me sempre na rua. Costumava dizer: ‘Quando eu for velhote, não passem para o outro lado da rua quando se cruzarem comigo’. E não tenho essa sensação hoje, pelo contrário. Abordam-me muitas vezes. Por vezes surge um problema, porque passaram alguns anos e a malta vai mudando fisicamente de aspecto, outros ganham barba… tive alunos que hoje são pais e têm até já filhos crescidos. Às vezes não consigo identificar muito bem quem são, mas acabo sempre por descobrir onde foi meu aluno.

Tenho boas memórias da escola. Eu fazia aquilo que mais gostava, que era ser professor de Educação Física. Eu tentava ajustar-me à realidade territorial onde dava as aulas, e enquadrar as diferentes possibilidades de conteúdos com a realidade escolar.

“Lembro-me, no segundo ano que dei aulas, há mais de 20 anos, andei o primeiro período a capinar com os alunos para criarmos um campo para jogarmos basquetebol e futebol. Passados estes anos, aquela escola está a ser alvo de uma intervenção de fundo”

E isto leva-me a pensar no que mudou em 25 anos no nosso parque escolar. Também tenho orgulho em ter feito parte deste processo. Temos as nossas escolas completamente modificadas.

Fui treinador do Benfica de Abrantes, no Barro Vermelho, sem o mínimo de condições, com campo de terra batida, ainda me lembro do saudoso Virgílio Rapazote, o esforço que ele fazia e a dedicação que tinha ao clube, para criar as melhores condições, mesmo com tantas dificuldades. Ainda assim, fomos campeões, subimos ao Campeonato Nacional de Iniciados, com uma equipa excelente de jovens. Um deles, que era capitão de equipa, o Nuno Gomes, hoje trabalha no serviço de Desporto com a Câmara.

Hoje temos cinco ou seis campos relvados, temos o Estádio de relva natural, pistas de atletismo, piscinas cobertas de água quente, pavilhões com condições que nunca tivemos. Houve ao longo destes últimos anos uma grande alteração estrutural.

Com as obras no novo centro escolar em Alvega, com o novo centro escolar em Abrantes, no antigo Colégio de Fátima, com a requalificação que pretendemos para a Escola Duarte Ferreira, no Tramagal, ficamos com um parque escolar de excelência, extraordinário.

“O facto de ter sido professor e ter conhecido realidades e fragilidades em diferentes infraestruturas onde trabalhei, obriga-nos a pensar de que forma podemos melhorar e dar melhores condições para quem vem a seguir.”

Já não sou um menino muito novinho. Tenho 57 anos, tenho esta experiência enquanto profissional, professor, e enquanto cidadão. Fui dirigente de clubes, sempre andei envolvido no associativismo local – uma das caraterísticas mais extraordinárias do nosso concelho. Temos um potencial enorme em torno das associações. Temos 186 associações desportivas, culturais e sociais que fazem um trabalho extraordinário. Também fiz parte desse universo e estou muito atento e procuro estar muito próximo.

Estou certo que, num território tão vasto e tão grande como o nosso, um dos nossos pilares e elementos fundamentais é esta diversidade e quantidade de instituições que temos sempre a obrigar o concelho a manter dinâmica e a estar ativo. Em todas as nossas freguesias, numas mais, noutras menos, temos dinâmicas desportivas, sociais, culturais, importantíssimas para a vitalidade e união que nos tem que caraterizar.

As nossas instituições ajudam muito a valorizar a nossa identidade, o estarmos juntos, e dessa forma conseguirmos ir ultrapassando as adversidades normais da vida em comunidade.

A questão da união normalmente tem muito a ver com a vida e vivência desportiva… vem daí essa influência?

O desporto tem muita coisa que nos deixa a todos preocupados, também tem coisas menos boas, desde os problemas com as claques desportivas, o doping, e tantas outra situações que não são muito saudáveis.

O desporto é uma escola de cidadania. E eu, enquanto professor e treinador, sempre disse que não podíamos ganhar a qualquer custo. Temos de ter dignidade e temos que ensinar os jovens a perceber isso o mais cedo possível. Há valores e princípios que não devemos perder. É uma das minhas preocupações: temos que consolidar alguns princípios, alguns valores, a ética… há questões que não se podem ultrapassar ou esquecer.

A expressão da união tem um sentido de grande registo não só nos desportos coletivos, como também nos individuais. Porque se cruzam com o espírito de equipa, também uma modalidade individual precisa de uma equipa e grupos de pessoas que se juntam em torno de um objetivo.

O desporto tem essa faculdade também, tal como a área cultural e social. Ter objetivos, estarmos focados e a forma de vencer parte do pressuposto que, se estivermos juntos, todos a trabalhar para esse mesmo objetivo, a vitória é mais fácil de alcançar.

O desporto ensina-nos muitas coisas que, do ponto de vista prático, se cruzam na nossa vida. E há outra coisa que o desporto também nos ensina: para apreciar uma vitória, é preciso saber perder também. A vida não é só feita de vitórias, também tem derrotas. Temos de saber saborear com dignidade as vitórias e saber encaixar as derrotas, quando elas acontecem.

“O desporto ensina-nos que a vida não é só feita de vitórias, também tem derrotas. Temos de saber saborear com dignidade as vitórias e saber encaixar as derrotas, quando elas acontecem.”

Com a pandemia o desporto assumiu-se como uma atividade importante para o bem-estar físico e mental. Continua a praticar alguma modalidade com regularidade?

Eu procuro fazê-lo, primeiro para me responsabilizar a mim próprio. E depois, não basta dizer para os outros fazerem, temos de dar o exemplo. Tento fazer, mas tenho muito pouco tempo. As pessoas às vezes não têm noção, mas temos uma vida… além da exposição, temos muito pouco tempo para nós. Já lá vai o tempo em que eu corria, andava de bicicleta, jogava à bola… Mas não me estou a queixar. Estou como muitas pessoas que não têm o tempo que desejariam para o seu lazer.

Cada um tem a sua missão, é a vida. Não me posso queixar, existem muitos outros profissionais muito mais penalizados e condicionados, caso de médicos a trabalhar horas e horas no hospital, professores e directores de escola massacrados com sobrecarga de trabalho, muitas pessoas até têm de ter uma segunda atividade profissional porque o seu ordenado muitas vezes não chega…

Sou uma pessoa que procura promover a prática da atividade física a todo o tempo, dando condições para tal, caso dos campos de padel, da dinamização de caminhadas, cicloturismos, todas as dinâmicas que impusemos na cidade e concelho em colaboração direta com as associações, promovendo hábitos saudáveis de vida.

Foto: mediotejo.net

Alguma vez lhe tinha passado pela cabeça vir a candidatar-se a presidente de Câmara e, efetivamente, ser presidente de Câmara?

Até à altura da saída da ex-presidente de Câmara, a Dra. Maria do Céu Albuquerque, eu não pensava nessa questão. Tinha sido convidado para ser vereador, fazia parte daquela equipa. Sabia, porque era o número 2 da lista, que isso poderia acontecer, mas nunca dei relevância a esse assunto. Houve um momento em que isso me foi colocado e houve a necessidade de me chegar à frente e assumir as funções de presidente… e não deitei a toalha ao chão, mesmo perante algumas dificuldades do momento, achei que seria uma desonra e falta de honestidade para com os cidadãos se não aceitasse, estando em segundo lugar na lista.

Assumi essas funções, durante dois anos e meio fui presidente de Câmara num contexto nada fácil, apanhei logo a pandemia, foi preciso tomar decisões difíceis e existiram momentos muito conturbados. O tempo foi passando e chegámos a um momento em que era preciso construir as equipas candidatas à CM Abrantes, e eu surjo como candidato porque as pessoas me foram dizendo que era a pessoa mais indicada para assumir a liderança no PS e ser candidato à CMA… e aceitei esse desafio.

A assinalar praticamente três anos à frente dos destinos da CM Abrantes, como foi pegar no leme e que balanço faz ao dia de hoje?

Neste momento sinto-me com muito mais legitimidade no assumir destas funções, porque fui eu que fui a eleições. Este resultado obriga-me a pensar dessa forma. O resultado é dirigido a toda uma equipa. Não vejo o facto de ser autarca como uma liderança individual e expressão pessoal. Eu faço parte de uma equipa, tenho a minha responsabilidade e tenho o peso que tenho, mas é só isso. Não me vejo lá sozinho. A equipa que temos é uma equipa forte, feita de gente com muito talento, muita dedicação e determinação nas diferentes áreas de ação. Ninguém faz tudo bem, ninguém resolve tudo ao mesmo tempo e em todo o lado. Mas há algo que é inquestionável: a nossa dedicação, o nosso trabalho, o nosso esforço. Temos 600 pessoas a trabalhar com o executivo municipal, diretamente. Temos equipas de trabalho extraordinárias, e todos os dias ajudam a resolver problemas da comunidade. É a organização de toda uma comunidade, é extremamente complexa e tenho muito orgulho de ser uma das pessoas da equipa e que lidera este processo.

“Ninguém faz tudo bem, ninguém resolve tudo ao mesmo tempo e em todo o lado. Mas há algo que é inquestionável: a nossa dedicação, o nosso trabalho, o nosso esforço.”

São três anos de muito trabalho, de muita dedicação, e muita transparência. Conseguimos mais uma vez posicionar-nos no ranking dos Anuários Financeiros, no segundo lugar a nível nacional, e continuamos a fazer investimento, e continuamos todos os dias a responder a questões sobre a pandemia e outras, de forma muito rigorosa e equilibrada.

Temos ambição em meia dúzia de projetos muito relevantes, e temos que continuar a manter as nossas infraestruturas, os nossos investimentos já feitos, como foi o caso do MIAA.

Há um equilíbrio que tem de ser feito e há um bom senso que tem de ser criado. A melhor prova da qualidade do exercício de dois anos e meio foi a votação que tivemos há oito meses, nas eleições autárquicas.

Se uma criança ou jovem lhe pergunta o que faz um presidente de Câmara, o que lhe responde?

O que respondo sempre: ‘Olha, eu trabalho muito para que tu tenhas uma vida o mais simpática e o mais fixe possível’. Que me farto de trabalhar, e às vezes as pessoas não percebem isso. O dia-a-dia de um presidente de Câmara é uma coisa muito complexa. Porque o território e grande, porque existem muitas instituições, porque existem muitas necessidades sempre, porque nunca está tudo feito. Existem sempre coisas a acontecer.

Ontem saí de casa às 8 da manhã e cheguei à meia-noite. A vida dos autarcas é muito exigente. Nós resolvemos um problema hoje, amanhã já temos dois por resolver.

Porque essa é que é a grande verdade. Aquilo que eu faço é tentar que as nossas crianças sejam o mais felizes possível no concelho. Ainda existem crianças hoje que não têm casa de banho… E é isso que digo: ‘Ando a tentar resolver problemas de crianças que têm muito mais problemas que tu’.

O meu dia-a-dia é lutar contra problemáticas destas. Essa será sempre uma luta minha, a favor da humanidade, da igualdade, de criar as condições para que todos tenham as mesmas oportunidades. É por isso que valorizo muito o papel das escolas e as condições que oferecem em todo o concelho. As nossas crianças têm que ter todas as mesmas oportunidades.

“Quando um jovem me pergunta o que faz um presidente de Câmara, eu costumo dizer: ‘Olha, eu trabalho muito para que tu tenhas uma vida o mais simpática e o mais fixe possível’. 

Estando Abrantes integrada na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, quais os grandes desafios que se colocam ao trabalho concertado com a região envolvente nos próximos anos?

Se houve coisas que nos ajudaram a transformar a forma como olhamos para os nossos territórios, e de forma positiva, foi a constituição das comunidades intermunicipais. Mesmo que haja sempre necessidade de devidas correções. Aliás, neste momento, temos uma luta no Médio Tejo, juntamente com a Lezíria e com o Oeste, para criação de uma nova região. Porque do ponto de vista estrutural temos alguns défices de operacionalidade. O Médio Tejo responde em termos de quadros comunitários à CCDR Centro, em Coimbra, a Lezíria responde à CCDR do Alentejo, há uma disfuncionalidade. Nós pertencemos a Lisboa e Vale do Tejo e depois vamos buscar fundos comunitários à CCDR Centro, a título de exemplo.

Precisamos desta nova zona, e até lá temos trabalho para fazer, mas procuraremos esta nova região para que a Lezíria, o Médio Tejo e o Oeste se possam potenciar numa nova configuração para valorizar definitivamente este nosso território. Há coisas que já não podem ser interpretadas de forma individual. Cada uma das cidades, por si só, e de forma isolada a trabalhar para si, não nos leva a lado nenhum. Temos de estar juntos e trabalhar estruturalmente para conseguirmos ter uma organização mais capaz e com maior potencial. Ao nível do turismo, as pessoas não podem vir eventualmente só a Abrantes. Têm de ir a Fátima, passar por Santarém, ou pelo Oeste. Para mobilizar e cativar as pessoas temos de lhes criar várias formas de atratividade e dar oportunidades de experiências diferentes. Este território é riquíssimo no seu todo. Individualmente torna-se muito mais difícil captar as pessoas. Julgo que esta agregação de muitos pontos de interesse é muito mais valiosa do que cada um a trabalhar por si.

Nós precisamos de uma nova região para reforçar a identidade de um novo conceito regional, mas sobretudo para consolidar ou melhor todos os mecanismos de operacionalidade a favor das populações e comunidades

A articulação da região é importante a vários níveis, e o potencial de cada concelho deve ser colocado ao serviço de uma região maior, e é esse trabalho que a Comunidade Intermunicipal tem que fazer. Faz sentido apostarmos em projetos comuns e ligarmo-nos uns aos outros.

Estamos no centro da cidade, num museu recentemente inaugurado e que ao longo dos últimos anos fez parte do plano de Abrantes para a História, as Artes e a Arqueologia. Enquanto autarca, que acompanhou a génese deste projeto e já que foi sob a sua égide que se deu a abertura ao público e inauguração, sente que o MIAA veio corresponder às expetativas da comunidade enquanto polo cultural? Que futuro se prevê para este espaço, que abordou já como sendo um “centro cultural de excelência”, e que dinamização se pode esperar além dos conteúdos e exposições que disponibiliza permanentemente?

Este edifício estava a ruir, os telhados em derrocada. E houve uma transformação extraordinária no edificado. Antes da inauguração houve a consolidação da intervenção, e estive muito próximo da forma como foram organizados e dispostos os conteúdos. O acompanhamento de tudo, incluindo a museografia, fez-me perceber desde cedo que estávamos perante uma estrutura de excelência.

As pessoas que têm visitado, e sobretudo pessoas da área e consensualmente reconhecidas, dizem que temos um museu extraordinário e que cabia em qualquer parte do mundo. Isso deixa-nos muito satisfeitos. Transmite confiança no contexto da nossa rede de museus, onde está o Museu Metalúrgica Duarte Ferreira (Tramagal), que foi Museu do Ano em 2018, e onde está o renovado Panteão dos Almeida em Santa Maria do Castelo e agora também o Museu de Arte Contemporânea, no Edifício Carneiro, que esperamos inaugurar brevemente. É esta constelação de espaços culturais e museológicos que nos dá um grande ânimo. E o MIAA é o elemento central de toda esta linguagem de museus e espaços de visitação.

O MIAA incluirá aqui centrado o posto de turismo, para darmos uma nova linguagem e dinâmica e nos obrigar a fazer uma gestão mais cuidada daquilo que são os profissionais nestas áreas e criarmos uma divisão de Cultura capaz de corresponder às nossas expetativas e daqueles que nos visitam.

Muitos dos objetos do período romano expostos no MIAA foram encontrados na zona de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O MIAA nasce da vontade de João Estrada em oferecer o seu espólio e coleções que foi conseguindo ao longo dos anos. A partir daí lançámos a possibilidade de requalificação do Convento de São Domingos. Depois a coleção Maria Lucília Moita veio dar um embelezamento e mais oxigénio a este grande espaço e, ultimamente, com a coleção Figueiredo Ribeiro, temos a arte contemporânea a permitir a dinâmica de agitação e exposições que se vão renovando de forma sistemática, e inclui-se também a nossa coleção municipal, no domínio da arqueologia, que é também valiosa, o que vai permitindo que as pessoas tenham vontade de voltar ao MIAA.

O MIAA é um núcleo de novos tempos para a cidade, para o concelho e para a região. E neste enquadramento da Comunidade Intermunicipal, todos sabem da presença do MIAA e a força que tem para captar fluxos turísticos, científicos e académicos para a região.

Será no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA) que decorrerá a cerimónia oficial do Dia da Cidade?

Sim. Também com a vontade de puxar pelo próprio MIAA. Responsabilizar este edifício enquanto ator das nossas vidas. Porque não basta ter os edifícios requalificados e com conteúdos lá dentro. É preciso dar-lhes vida. Também colocar o MIAA à disposição do Dia da Cidade e provocar dinâmica. Se o edifício falasse, iria agradecer por esse dinamismo que queremos criar nestas estruturas.

Que sensações lhe despertam a visita ao MIAA?

Orgulho por todos os que fizeram este trabalho ao longo de 15 anos. Houve muitos presidentes de Câmara, vereadores, cidadãos, historiadores, cientistas, chefes de divisão, técnicos… Muita gente que trabalhou para que isto pudesse acontecer. É um orgulho enorme. Quem olha só de fora ainda pode pôr em causa o que quer que seja. Quem entra, perde qualquer possibilidade de pensar que não está perante algo extraordinário. Temos indicações que este é e será um museu reconhecido mundialmente pela sua qualidade, beleza, pelos conteúdos, pela sua disposição e enquadramento. Os abrantinos, a região e até mesmo o país devem-se orgulhar da requalificação deste edifício e seus conteúdos.

Entre as coleções, há alguma que lhe desperte mais a atenção?

Gosto de tudo. Gosto particularmente da parte mais histórica, da arqueologia, da sala do ouro. É muito bonito e interessante e transmite-nos conhecimento dos antepassados. Mas tenho uma paixão pela obra da nossa conterrânea, a pintora Maria Lucília Moita. E tenho muito gosto e estamos muito reconhecidos à coleção Figueiredo Ribeiro, porque é uma coleção de um homem que tem feito um investimento brutal naquilo que é a arte contemporânea, na valorização dos nossos artistas, e é uma coleção cada vez mais valiosa e que tem uma dimensão extraordinária e capacidade de atrair muita gente para visitar este espaço. A combinação entre o passado e o futuro, aqui no meio com a presença da pintora Lucília Moita.

Uma questão: estão são as Festas da Cidade por excelência para os abrantinos… ou são pensadas numa ótica mais expansiva, a título regional, afirmando-se a cidade na região com este evento anual?

As duas coisas. São pensadas para os abrantinos, na sua disposição e arquitetura. Temos um palco na Praça Barão da Batalha dedicado às nossas associações, bandas e coros, ranchos folclóricos e grupos de cantares. Este ano vamos relançar as marchas populares. Mas depois no Jardim da República teremos as tasquinhas com as associações e a gastronomia do concelho. Depois temos o artesanato disposto pelas várias praças, com estruturas mais qualificadas para garantir melhor apresentação dos artigos. Todas as festas são muito compreendidas e interpretadas para os abrantinos. Mas é evidente que depois temos um cartaz que atrai gente de fora e todo o programa também é desenhado para conseguirmos captar aqueles que nos conhecem e os que não nos conhecem.

Estas Festas são para todos. Para os abrantinos e para quem nos vier visitar.

O que destaca deste cartaz e qual é o investimento financeiro do município neste programa?

O cartaz tem muito a ver com o que foi desenhado há três anos. Porque muitos destes concertos estavam alinhados para as festas de 2020. Tivemos de avançar financeiramente com alguns dos contratos que tínhamos estabelecido. Depois a pandemia não nos permitiu concretizá-los. No fundo, estamos a dar resposta a contratos feitos há três anos. No primeiro dia, 9 de junho, abrimos com o concerto com Rita Guerra e Héber Marques acompanhados de orquestra num concerto inédito, no Aquapolis Sul, junto ao hipódromo dos Mourões. No segundo dia temos o Mickael Carreira como cabeça de cartaz. Depois a Bárbara Bandeira no dia 11. Dia 12, destaque para o Luís Trigacheiro, e dia 13 teremos o José Cid. No dia 14 vamos ter os HotPlay, sendo o dia dedicado à dinâmica cultural do concelho, com o Dia da Cidade, do concelho e dos nossos artistas. Terminamos no dia 15 com Os Quatro e Meia.

As Festas têm também um conjunto de iniciativas desportivas e outras que se misturam nesta configuração. O facto de termos um palco jovem na Praça da Câmara, dedicado à juventude, e ter no Jardim da República as tasquinhas, ter na Praça Barão da Batalha os concertos dos nossos artistas locais, e depois retomar o Largo 1º de Maio para os grandes concertos, até por questões de segurança. E nas ruas ter o artesanato. Ter no jardim da ESTA um espaço dedicado às crianças e famílias. E a própria animação de rua que vamos tentar promover, dá uma caraterística muito especial às nossas festas. São diferentes por este contexto e este esquema que temos montado e tem servido de estrutura há alguns anos tem tido bastante sucesso. É isso que nos carateriza e importa, ano após ano, ir valorizando e melhorando aspetos que merecem ser considerados nessa ótica.

Para as Festas da Cidade vai convidar algum membro do Governo?

Estão a ser feitos convites oficiais, temos um convite que gostávamos muito que pudesse ser correspondido, com a presença do Senhor Presidente da República. Não está fácil e estamos na expetativa que isso possa acontecer.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da CM de Abrantes, num encontro da Presidência da República com vários autarcas, em Belém.

Há algum recado que queira aproveitar nessa ocasião para transmitir à Administração Central?

Não, até porque tivemos o jantar que reuniu autarcas portugueses com o Presidente da República e criou-se uma oportunidade para tal (risos). O convite específico ao Presidente da República foi feito com intenção de o trazer aqui ao MIAA, uma vez que a inauguração foi muito condicionada, apesar de termos tido a presença da então Ministra da Cultura e da Ministra da Agricultura e ex-autarca de Abrantes.

Uma questão que ficou para trás… Falámos aqui do homem, do político, do autarca, do professor, do desportista. Efetivamente, a pessoa de trato fácil, como se caracterizou. É sobejamente conhecido por Neo. De onde surgiu a alcunha?

Todas as pessoas me conhecem por Neo, é o diminutivo de Manuel Jorge. O meu irmão, que só tem um ano de diferença de mim, na altura era muito pequenino e não conseguindo dizer Mané Jorge ou Mané Jó, dizia Neo e, claro, acharam graça e fiquei baptizado dessa forma.

Tenho muito gosto que me tratem por Neo. Não é pelo facto de ser presidente de Câmara que deixaria de o ser. Não faria sentido nenhum deixar de ser Neo, ou deixar de ser como sou. Todos temos que nos ajustar a determinados momentos e circunstâncias mais formais da nossa vida e responsabilidades. Mas não pretendo descaracterizar-me. Ninguém me perdoaria se o fizesse. Tento ser como sempre fui, e gosto que me chamem Neo.

“Não pretendo descaracterizar-me. Ninguém me perdoaria se o fizesse. Tento ser como sempre fui, e gosto que me chamem Neo.”

Que desejos tem para o futuro o Neo, que é também presidente de Câmara?

O meu maior desejo era conseguir responder de forma positiva ao desejo das pessoas. Às vezes ainda existe muita descredibilidade sobre a ação política. E é um desejo enorme que tenho, de destruir e desmistificar essa ideia. Nós somos todos homens e mulheres que tentam fazer o melhor ao serviço da sua comunidade. E o meu maior desejo era conseguir que a cidade e o concelho se valorizassem, criassem mais oportunidades para todos, que se olhasse de forma cuidadosa para cada um dos nossos cidadãos, para cada uma das nossas pessoas. Que olhássemos para os mais idosos com o carinho e atenção devidos. Que olhássemos para as crianças com expectativas de futuro. E que consigamos ir respondendo aos desafios de todos os dias da melhor forma possível.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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