Lídia Jorge recebeu o Prémio Blibliotecando 2022, em Tomar. Fotografia: Daniel Mordzinski

Lídia Jorge foi professora no Liceu de Tomar algum tempo antes de eu ali ter sido aluno e eu nunca o soube, nem o soube a cidade, nesses anos em que todos os meus dias eram de prodígios ao encontro de livros e pessoas.

Mas vamos ao início. Nascida em Boliqueime, num Algarve que nesse quase meio do século XX era ainda uma das zonas mais remotas de Portugal, Lídia Guerreiro Jorge estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde efectuou a sua licenciatura em Filologia Românica.

Durante esse período, em Tomar, vivia-se a gestação de uma escola de ensino liceal que suprisse as necessidades que eram sentidas pela população de um estabelecimento de ensino público do ciclo a que hoje chamamos secundário. Existia aqui, desde 1965, uma secção do Liceu Nacional de Santarém, a única do país que tinha autorização para ministrar esse que era então denominado por terceiro ciclo. Mas sentia-se a urgência de uma escola local.

E ela surge, com o nome de Liceu Nacional de Tomar, por decreto-lei de 25 de Outubro de 1971. As obras dessa nova escola, augurando bons auspícios, iniciaram-se logo em Janeiro do ano seguinte, mas (que isto são coisas que já vêm de há muito tempo, meus amigos), iriam derrapar por mais de três anos, um período de tempo ainda superior ao que o Estado Novo se aguentaria no poder.

Oficializado em letra de forma, em 2 de Outubro de 1972 fez-se a abertura solene das aulas, pela primeira vez, no Liceu. Talvez vos pareça que me estou a afastar um bocadinho do motivo desta prelecção, mas é importante registar estas datas para sublinhar que estão agora mesmo a comemorar-se os 50 anos deste estabelecimento de ensino.

Servem também para nos ajudar a situar nessa época. O Liceu seria visitado poucas semanas depois, a 21 de Outubro, pelo então ministro da Educação Nacional, Veiga Simão. Curiosamente, na sua visita a Tomar, que durou o dia inteiro, um dos temas em discussão foi a necessidade de mais uma escola, no caso o Instituto Politécnico. Teve aí um papel importante Júlio Dias das Neves, que recentemente nos deixou, à época deputado na Assembleia Nacional e que acabaria por fazer parte do grupo de fundadores desta casa, década e tal depois.

Aqui eu entro na história pela mão do meu pai, com quem fui ver a pompa e circunstância com que o governante foi recebido, ao final da tarde, na minha aldeia, Linhaceira, onde a Telescola chegara pouco antes.

Com a jovem Lídia, porém, não me cruzei. Recém-licenciada, ela fora colocada na secção de Tomar do Liceu de Santarém (que então funcionava no edifício onde estivera a Escola Industrial e Comercial e que hoje pertence ao Instituto Politécnico de Tomar, ao fundo da Avenida Cândido Madureira), fora colocada aí, dizia, no início do ano lectivo 1970/1971, onde foi professora de Português até final do ano lectivo seguinte e, entre outras actividades, promoveu a criação de uma página com textos dos alunos no jornal Cidade de Tomar. 

Recém-licenciada, ela fora colocada na secção de Tomar do Liceu de Santarém no início do ano lectivo 1970/1971, onde foi professora de Português até final do ano lectivo seguinte e, entre outras actividades, promoveu a criação de uma página com textos dos alunos no jornal Cidade de Tomar. 

Ou seja, no rigor dos papéis, provavelmente, nunca terá chegado a ser docente do Liceu Nacional de Tomar, embora na prática o tenha sido no Liceu, em Tomar.

Depois disso teve a sua experiência africana, na senda do que antes haviam feito o pai e o avô, tendo estado em Angola e Moçambique nos anos seguintes. Ninguém o sabia na altura, talvez nem ela própria o pressentisse, mas essa experiência ultramarina haveria de ter um papel decisivo na sua obra.

Em 1980, quando eu finalmente já chegara ao Liceu (que, todavia, se chamava então Escola Secundária de Santa Maria do Olival), Lídia Jorge estampou pela primeira vez o seu nome na capa de um livro: “O dia dos prodígios”, nos livros de bolso da Europa-América. Um romance passado numa hipotética aldeia, demasiado longe do mundo para entender em toda a sua essência o que fora o 25 de Abril que agora lhe chegava pelas mãos dos soldados e que a autora afirmou ter escrito pela “urgência de captar o passado rural em vias de extinção”.

Uma temática que de alguma forma volta a ser abordada no volume seguinte, “O cais das merendas”, em que a identidade comunitária e a aculturação estão no centro da trama e os habitantes locais, perante a invasão turística, precisam de se embriagar para usarem a língua materna.

Ao terceiro livro, Lídia Jorge afasta-se espacialmente das dores de crescimento do Algarve e centra os seus personagens num ambiente mais urbano, ainda que chame ao romance “Notícia da cidade silvestre”, uma Lisboa que daí para a frente será cenário frequente das suas ficções.

E, em 1988, publica aquela que se transforma numa das suas obras mais marcantes, “A costa dos murmúrios”, centrada precisamente na África que fora chamada de portuguesa, na época em que soldados roubados ao vigor da juventude defendiam um império já anacrónico. O reconhecimento pelo público e pelos pares, conseguido com os romances anteriores, teve com este um recrudescimento.

E, nesse mesmo ano, a escritora fez parte da delegação portuguesa presente no festival literário Les Belles Étrangères, que se realizou em Paris. 

Foi também o ano em que me cruzei finalmente com ela, noutra escola, mas disso vos falarei mais à frente.

Num excelente documento para quem queira ampliar os seus conhecimentos sobre a obra de Lídia Jorge, o nº 205 da revista Colóquio Letras, datado de Setembro a Dezembro de 2020, Agnès Levécot afirma que “o silêncio que invade temática e textualmente” os seus romances “é geralmente devido a uma insuficiência, a uma inadequação da linguagem” e que “o impedimento de dizer manifesta-se em quase todas as [suas] narrativas”. Refere ainda que “a autora manifesta grande compaixão pelos seres que sofrem do peso desse silêncio, em particular pelas mulheres” mas que não se limita a chamar a atenção para isso, “investiga-lhes as causas”, residindo aí o “leitmotiv” de grande parte da sua obra, de que dá exemplos, para além dos já referidos, como “a falta de consciência ideológica” em “O jardim sem limites”, “o trauma da experiência colonial” em “A noite das mulheres cantoras”, “o neocolonialismo” em “O vento assobiando nas gruas” ou “a memória perdida da revolução” em “Os memoráveis”.

No fundo, sintetiza, Lídia Jorge tem três preocupações principais: “a defesa daqueles que não têm voz, o consequente questionamento da verdade estabelecida pelos poderosos e a luta contra o esquecimento”.

Há duas semanas, Lídia Jorge recebeu mais um dos inúmeros prémios que lhe têm sido outorgados, incluindo as mais importantes distinções literárias nacionais, e diversas no estrangeiro. Desta vez, tratou-se do Prémio do Clube das 25, atribuído em Madrid e que não se destina especificamente a escritoras ou artistas, mas a mulheres que tenham tido um papel determinante na luta pela igualdade de género, pela visibilidade das mulheres em lugar de destaque de todos os sectores e pelo trabalho sobre questões que afectam particularmente o género feminino.

Sendo um reconhecimento pela sua importância enquanto uma das escritoras mais relevantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é também uma distinção atribuída a quem se tem esforçado por dar voz a tantas mulheres que a não conseguem fazer ouvir, fazendo-o através de uma obra que é das mais consistentes da nossa língua escritas no feminino. Que é uma forma de dizer, porque também a identidade de género, em particular na peça de teatro “A maçon”, tem sido questionada na sua obra.

Um dos meus livros preferidos de Lídia Jorge é “A Instrumentalina”, um pequeno volume, pois de um conto se trata, em que o centro da acção se desenrola em volta de uma bicicleta, com esse curioso nome que nos remete para a música antes de sabermos que era mais uma forma de lhe chamar instrumento diabólico. Em meras 30 páginas, faz-me sempre sonhar (“um conto breve faz um sonho longo”, diz a autora na epígrafe), tal como “O meu tio”, o filme de Jacques Tati, com o qual aliás tem vários pontos de contacto, como o fascínio de um garoto ou de uma garota por um tio de espírito jovem e desligado do mundo dos adultos, e pela sua inseparável bicicleta.

Um dos meus livros preferidos de Lídia Jorge é “A Instrumentalina”. Em meras 30 páginas, faz-me sempre sonhar (“um conto breve faz um sonho longo”, diz a autora na epígrafe)

Não me encontrei de bicicleta com a Lídia Jorge. Nesse final dos anos oitenta, em Lisboa, usávamos preferencialmente o autocarro. Em 1987, eu, miúdo tomarense que fora para a Faculdade de Letras como aspirante a escritor, como ela fizera no ano em que eu nasci, tivera o privilégio de ter tido um conto premiado por um júri que, entre vários escritores de renome, a incluía.

No ano seguinte, com uma cadeira pendente para terminar a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (nome moderno da antiga Filologia), tive novo privilégio, dessa vez o de a encontrar como professora no recém-criado 5º ano para quem pretendia especializar-se na área do ensino.

Foi assim que a convidei, um dia, para uma entrevista a publicar no Diário de Notícias (onde então colaborava) a propósito do atrás referido festival Les Belles Étrangères. Ela acedeu amavelmente e encontrámo-nos num pequeno café no Campo Grande, ao lado de um velho pavilhão da Faculdade de Ciências onde decorriam as nossas aulas da Faculdade de Letras.

A conversa fluiu, entusiasmada, até que me apercebi que o botão do gravador já tinha saltado. Aos mais novos, posso explicar que o modelo, um Sony bastante avançado para a época, parecido com os walkman, utilizava uma cassete de fita que tinha que se trocar de lado ao fim de 30 ou 45 minutos.

Virei a cassete, carreguei de novo no botão do play e continuámos animadamente a conversa. No final, agradeci a amabilidade, despedimo-nos e fiquei por ali a organizar as minhas coisas. Para grande pesar meu, percebi que não iria conseguir escutar logo a entrevista, pois as pilhas tinham chegado ao fim. Mas fui de imediato comprar outras. E foi então, ao colocá-las, que tive a fatal revelação: o gravador estava sem pilhas desde o início, não tinha gravado absolutamente nada, e só o meu entusiasmo me tinha impedido de ver que o botão voltara a saltar mal eu o tinha premido a primeira vez.

Num ápice, tomei uma decisão. Voltei rapidamente ao café, sentei-me na mesma mesa e, apelando a toda a minha capacidade de memorização (que, não sendo famosa, era então pelo menos melhor do que é hoje), resgatei, tanto quanto me lembrava, as vozes inaudíveis daquela entrevista.

No dia seguinte, entreguei à professora Lídia Jorge o texto passado a limpo, expliquei-lhe o ocorrido e pedi que, se me achasse digno dessa deferência, o lesse e me dissesse se estava correcto ou precisava de acertos. Com a sua habitual simpatia, ela leu-o com atenção e disse-me que estava tudo certo.

E assim publiquei a entrevista com a escritora que eu admirava mas que não imaginava então que dera aulas no meu liceu, nem que, no século seguinte, iria descobrir que, em síntese, o que ela fazia na sua obra era precisamente o resgate das vozes inaudíveis, ao mesmo tempo presentes e exiladas em si próprias.

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Nuno Garcia Lopes

Natural de Tomar, é escritor, contador de histórias e comunicador. A sua obra, distinguida com vários prémios, inclui poesia, conto, literatura infanto-juvenil e monografia. Mais informações sobre o autor em www.nunogarcialopes.pt

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