A 12ª edição do Bibliotecando decorreu a 6 e 7 de maio no Instituto Politécnico de Tomar. Fotografia: Ricardo Escada/mediotejo.net

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“Bibliotecando em Tomar”

“A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu Fernando Pessoa. Mas de que forma o exílio e a saudade da terra-mãe afeta escritores e leitores? “Exílio e presença: leituras para o diálogo” foi o tema escolhido para a 12ª edição do “Bibliotecando em Tomar”, que decorreu a 6 e 7 de maio no Instituto Politécnico de Tomar.

Lídia Jorge e José-Augusto França foram homenageados nesta iniciativa, que tem o Alto Patrocínio da Presidência da República, e Alberto Manguel, Miguel Real, Bruno Vieira Amaral e Ana Sousa Dias estiveram entre as mais de duas dezenas de convidados desta edição do Bibliotecando, que depois de dois anos de pandemia quer voltar a ser “um espaço de celebração do conhecimento, da cultura e do património, promovendo discussões e partilhas acerca da condição humana e da representação da nossa identidade coletiva”.

“Presença e exílio” serviu de base a todas as reflexões este ano porque, como referiu a organização, é “de grande atualidade num mundo constituído por uma dinâmica de mobilidade migratória, originada por múltiplos fatores: redistribuição territorial, alterações demográficas, movimentos de colonização e descolonização, revoluções, mas também pelos refugiados de guerras e outros conflitos”.

“Além dos exílios físicos existem também os exílios mentais, que importam combater.”

Anabela Freitas

Na sessão de abertura, a presidente da Câmara Municipal de Tomar lembrou ainda o isolamento forçado que a pandemia de covid-19 impôs à sociedade e como foi importante o Bibliotecando ter acontecido em 2021 nesse contexto, em formato digital. “Além dos exílios físicos existem também os exílios mentais, que importam combater”, frisou Anabela Freitas.

Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian e que preside à Comissão de Honra do Bibliotecando – muito por “razões afetivas”, por via da amizade com António Pinto da França e José-Augusto França e da ligação destes a Tomar, como lembrou ao mediotejo.net –, congratulou-se por ter sido possível voltar ao modelo presencial e lembrou que “esta iniciativa ultrapassa muito a dimensão da cidade de Tomar”, pelo facto de ter como propósito primordial “o incentivo à leitura e o desenvolvimento humano e das sociedades”.

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A apresentação do livro “Da construção de uma viagem partilhada – Bibliotecando em Tomar 10 anos” marcou o início dos trabalhos. Publicado no ano passado, “procura celebrar e deixar para a posterioridade a memória de uma década do encontro que tem vindo a reunir em debate e convívio em Tomar escritores, pensadores e muitos nomes importantes da cultura e da ciência em Portugal”, referiu então em nota de imprensa a autarquia, parceira do Bibliotecando, iniciativa que tem uma organização multipolar, formada pelo Agrupamento de Escolas Templários, Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, Câmara Municipal de Tomar, Centro de Formação “Os Templários”, Rede de Bibliotecas Escolares, Instituto Politécnico de Tomar e Centro Nacional de Cultura.

A obra sobre os primeiros 10 anos do Bibliotecando junta os contributos de vários participantes, servindo ainda de “homenagem a alguns dos grandes nomes que já partiram, mas que deixaram a sua marca na história do encontro, como António Pinto da França, o primeiro presidente da Comissão de Honra do Bibliotecando em Tomar, e o escritor e pensador Eduardo Lourenço”.

O primeiro painel da 12ª edição, com coordenação de Guilherme d’Oliveira Martins, teve como oradores o neurologista Alexandre Castro Caldas e o embaixador Marcello Duarte Mathias. Alberto Manguel, um dos nomes maiores do estudo da literatura universal, e que recentemente doou a sua biblioteca com 40 mil volumes à cidade de Lisboa, enviou um depoimento gravado.

Marcello Duarte Mathias recordou algumas histórias de escritores no exílio, como Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis, e Alexandre Castro Caldas, que estudou as diferenças existentes no cérebro dos analfabetos, falou sobre biologia e genética mas, sobretudo, sobre a importância das relações sociais – e do diálogo –na evolução cognitiva.

Os livros são uma ponte privilegiada para o pensamento do outro, podendo quebrar fronteiras sociais, espaciais e até temporais. Como lembrou Guilherme d’Oliveira Martins, citando Umberto Eco, os livros dão-nos essa maravilhosa possibilidade de interagir com o legado dos grande pensadores dos últimos cinco mil anos.

Alberto Manguel não pode estar presente em Tomar mas enviou um depoimento gravado. Fotografia: Ricardo Escada/mediotejo.net

Nesta edição foi homenageado José-Augusto França – historiador, sociólogo e crítico de arte, uma das figuras mais relevantes da cultura nacional, que morreu no ano passado e nasceu em Tomar há precisamente 100 anos. Parte do seu espólio foi doado à cidade, dando origem ao Núcleo de Arte Contemporânea e a dezenas de exposições que puseram Tomar na rota das artes plásticas, no início do século XXI.

No sábado foi entregue o Prémio Bibliotecando 2022 a Lídia Jorge, que, recém-licenciada, no ano letivo 1970/1971, foi colocada na secção de Tomar do Liceu de Santarém (hoje Escola Secundária Santa Maria do Olival), onde foi professora de Português durante dois anos.

Alberto Manguel, no início dos trabalhos, referiu que “os escritores dão aos leitores palavras para nomear o mundo”, acrescentando que “Lídia Jorge fez isso para os leitores do nosso tempo; ela deu-nos essas palavras que servem para dizer o que estamos a viver”.

“Os escritores dão aos leitores palavras para nomear o mundo” e”Lídia Jorge fez isso para os leitores do nosso tempo; ela deu-nos essas palavras que servem para dizer o que estamos a viver”.

Alberto Manguel

Na apresentação do prémio atribuído a Lídia Jorge, o escritor tomarense Nuno Garcia Lopes enquadrou a forma como a obra da autora nos ajuda a refletir sobre o tema escolhido para esta edição do Bibliotecando, centrando-se tem três preocupações principais: “A defesa daqueles que não têm voz, o consequente questionamento da verdade estabelecida pelos poderosos e a luta contra o esquecimento”.

Através da sua escrita, Lídia Jorge faz “o resgate das vozes inaudíveis, ao mesmo tempo presentes e exiladas em si próprias”.

Lídia Jorge. Fotografia: Instituto Camões

A escritora não conseguiu estar presente, ao contrário do que inicialmente previra, mas enviou um depoimento gravado. “Gostaria imenso de estar em Tomar, cidade marcante nas andanças da minha vida, e onde mantenho pessoas amigas e próximas, que sempre gosto imenso de encontrar. Do mesmo modo, gostaria de estar entre os participantes deste encontro, que tem por tema ‘o tema dos temas’ da literatura: presença e exílio. Se quisermos maximizar o sentido destes dois conceitos, eles sintetizam o motor emocional que aciona toda a literatura.”

Relembrando que é um dos temas mais utilizados e revisitados desde o início dos tempos, citou o Salmo 136/137: “Junto aos rios da Babilónia/sentámos-nos a chorar, pensando em Sião/Os que nos tinham feito prisioneiros/pediam-nos que cantássemos/tinham-nos destruído e queriam que estivéssemos alegres./Mas como era possível que cantássemos/se vivíamos exilados?/Se eu me esquecer de ti, Jerusalém,ue fique esquecida a minha mão direita.

Lembrou também “Redondilhas”, de Luís de Camões: “Sobre os rios que vão/por Babilónia m’ achei,/onde sentado chorei/as lembranças de Sião.”

Fez ainda referência à guerra que hoje dilacera a Europa, forçando a fuga de milhões de pessoas, e como é a ideia salvadora de um futuro melhor – que a literatura procura incessantemente –, bem como a força da imaginação, que nos podem salvar nos momentos mais sombrios.

“Se quisermos maximizar o sentido destes dois conceitos – Exílio e Presença –, eles sintetizam o motor emocional que aciona toda a literatura.”

Lídia Jorge

No final, leu uma passagem de “Em todos os sentidos” (Ed. Dom Quixote), livro que escreveu em 2020, depois de ter observado como era “enxotada” por todos uma “rapariga de leste”, pedindo esmola na futurista estação do Oriente, em Lisboa.

“Ninguém lhe dava nada. Quando se aproximou de mim disse a lamúria habitual. Que tinha fome, que tinha vindo de longe, que não possuía nada, que na semana anterior lhe tinha nascido um filho. O comboio não vinha, eu comecei a mexer na carteira, tirei uma moeda, entreguei-lha, mas disse-lhe – ‘Não é preciso mentir. Sabe? Porque anda a dizer que tem um filho? Isso não se diz…’
Então a rapariga de Leste, escura, enfezada, pequena, como as raparigas portuguesas da minha geração, abriu a blusa, mostrou o seio, espremeu uma mama entre os dedos e dela jorrou leite branco. Limpou o o leite, fechou a blusa. É nela que penso nesta ocasião. Espero que o filho da rapariga de Leste, e o filho do seu filho, não sejam excluídos da cidade perfeita do futuro. Quando se precisar de um pão, olhar-se para o céu e ele cair no regaço já com manteiga e tudo.”

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Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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