Na quarta-feira passada iniciou-se o período da Quaresma, os católicos e outros cristãos praticantes devem jejuar durante um período de quarenta dias, os mesmos que Cristo orou no deserto privado de alimentos. Jejum total.
As principais religiões defendem o exercício o jejum aduzindo razões doutrinárias onde é patente a punição do corpo porque ao longo do ano esse mesmo corpo comete erros sobre erros, preferindo o excesso ao sacrifício, preferindo rir-se, gargalhar sobre si próprio esquecendo a oração, o cumprimento dos deveres de bom devoto.
Os antropólogos e sociólogos acrescentam outros argumentos de carácter dietético, de correcção, de purga limpadora das impurezas acumuladas durante determinado período de tempo. A bibliografia relativa a jejuns é enorme a instigar o estudioso a entrar em jejum de leitura dada a impossibilidade prática de ler, pelo menos, as obras consideradas essenciais. Daí o triunfo das enciclopédias e súmulas de assuntos via Internet, eivadas de alçapões no conhecimento, mas para o cidadão médio satisfazem completamente, e rapidamente, acrescente-se.
Na Idade-Média os bibliotecários aterrorizavam-se quando as bibliotecas recebiam de rompante uma dúzia de livros, além de terem de os ler, os copistas obrigavam-se a reproduzi-los, significando forçados trabalhos sem direito a jejum porque a palavra de Deus estava primeiro, as outras, esperavam anos se preciso fosse, sem esquecer as queimadas por impuras, blasfemas.
Ora, o Carnaval, acto imediatamente anterior à Quaresma, propiciava o extravasar da blasfémia, pecado maior porque afrontava o espírito, a sanção dos blasfemos inspirava terrores dada a crueza da punição, no entanto, aqui e acolá surgiam apóstatas de alto calibre, serenos na explicação das terríveis discordâncias (os mais perigosos), indiferentes ao castigo, amiúde inspiradores de rebeliões contra a ordem estabelecida. Alguns destes prevaricadores conseguiam o estatuto de louco ficando confinados à cela ou emparedamento até morrerem, sem jejum salvífico ou perdão. Não existia recurso.
Os jejuns estão na origem das célebres indulgências, a minha avó materna quando não cumpria o preceituado no referente a dias de abstinência costumava dizer em voz de maior volume: paguei a bula. Ela ao alterar a voz sublinhava o óbvio – receio –, porque cautela e caldos de galinha nunca fizerem mal a ninguém, a avó dela murmurava cousas sobre a Inquisição, instrumento criado para salvar os homens, entenda-se proteger os senhores do poder, e atacar os da arraia-miúda, judeus, acima de todos os blasfemos.
E se a Inquisição foi braço armado do Poder mais profano que sagrado, a mesma Igreja ao tempo amparava os doentes, os desgraçados, os miseráveis incluindo os duvidosos de tudo. No final do Carnaval um Santo Português distinguia-se no auxílio a todos os esfarrapados a vaguearem pelas ruas de Sevilha. Aquela gente empeçonhada tinha no Santo o bálsamo, o conforto possível, noutro registo os grandes senhores jejuavam cumprindo duplamente o mandado, indulgências no bolso, lampreia na mesa.
Vem a propósito lembrar o Livro do Bom Amor, no combate de D. Quaresma contra D. Carnal, a lampreia surge guerreira ao lado de D. Quaresma. E assim se cumpria o jejum!
