Há produtos com aumentos de preço superiores a 100%, havendo já racionamento de óleos vegetais e de farinhas nalguns locais. Fotografia: Unsplash

Os efeitos da guerra nas empresas da região são um “tsunami”, disse Domingos Chambel, presidente da Nersant, em entrevista ao mediotejo.net. As empresas do distrito, que registavam um aumento contínuo dos custos das matérias-primas desde 2021, estão a lidar neste momento com preços considerados incomportáveis, e que já se fazem notar no bolso dos consumidores. As empresas da área alimentar são das mais afetadas, mas também a construção civil “está praticamente parada”, com aumentos de 200% no ferro, por exemplo.

Num inquérito realizado pela Nersant junto das empresas com sede no distrito de Santarém, os impactos da guerra foram logo evidentes: só nos primeiros 15 dias de março houve um aumento de 408% no preço das matérias-primas, em relação ao mesmo período do ano passado.

Esta terça-feira, 31 de maio, foram revelados pelo Eurostat os dados oficiais da inflação na Zona Euro, que disparou para 8,1%, mais 0,7 décimas do que em abril, com o índice de preços no consumidor a chegar aos em 7,4%. O preço da energia é o grande responsável pela aceleração do “cabaz dos preços”, que serve de base à definição deste índice, tendo subido 39,2% em maio, em relação ao mesmo período do ano passado.

Outros componentes do cabaz da inflação ficaram mais caros, como a comida, o álcool e o tabaco, cujos preços subiram 7,5% em termos homólogos.

A inflação em Portugal subiu para os 8% em maio, de acordo com a estimativa publicada pelo Instituto Nacional de Estatística esta terça-feira, quando era de 7,2% em abril. É o valor mais elevado registado desde fevereiro de 1993.

Aumento do preço dos cereais tem “impacto brutal” nas rações

“No espaço de um ano, tivemos aumentos superiores a 100%, tendo-se a situação agravado com a guerra na Ucrânia”, confirma Luís Guilherme, Administrador da empresa Petmaxi e Diretor Geral das Rações Zêzere, em Ferreira do Zêzere.

O aumento contínuo do preço dos cereais, matéria prima principal no fabrico de rações, tem reflexos “brutais” na produção de rações para animais de consumo e de estimação. Em entrevista ao mediotejo.net, este responsável dá conta dos diferentes fatores que têm contribuído para a atual situação no seu setor, com tendência para agravamento.

Luís Guilherme, administrador da empresa Petmaxi e Diretor Geral das Rações Zêzere, em Ferreira do Zêzere. Foto: Região do Zêzere

“Já antes da guerra vínhamos a registar grandes subidas, devido às alterações climáticas na América do Sul, dificuldades de fretes marítimos, e uma crise energética que já se vinha a sentir”, elenca.

As consequências de tudo isto não se fizeram esperar: “O impacto é brutal, pois os principais custos das empresas de rações são as matérias primas e a energia, outro um dos setores mais afetados com esta guerra”.

Contudo, quer a Petmaxi quer as Rações Zêzere têm-se preocupado em aliviar o impacto na carteira dos consumidores. Luís Guilherme refere que a empresa tem optado por “suportar uma parte desses custos, para que a situação não seja ainda mais grave para os clientes”.

“Já antes da guerra vínhamos a registar grandes subidas, devido às alterações climáticas na América do Sul, dificuldades de fretes marítimos e uma crise energética que já se vinha a sentir”

A juntar à guerra na Ucrânia, as greves de transportes em Espanha também têm causado muitas dificuldades às empresas, uma vez que os camiões que tentam passar com produtos têm estado a ser vandalizados pelos grevistas, impossibilitando a chegada de produtos que têm de passar por Espanha.

Quando questionado sobre medidas que preconizam para mitigar estes problemas, Luís Guilherme aponta “a aprovação de importações de milho dos EUA, que neste momento não são possíveis pelo facto de a Europa demorar muito tempo a aprovar OGM [Organismos Geneticamente Modificados], a redução do IVA do petfood de 23% para 13% (em Espanha é de apenas 10%) e o desvio dos cereais dos biocombustíveis para alimentação animal, entre outras medidas”.

Fundada em 2015, a Petmaxi dedica-se ao fabrico de alimentos secos para cães e gatos. Na altura, 50% da ração para animais de estimação consumida em Portugal era importada, maioritariamente de Espanha. Foi um projeto pioneiro em Portugal, no fabrico de rações premium e super premium, com capitais e sócios 100% nacionais. Atualmente a empresa exporta para cerca de 30 países e continua a crescer e apostar na inovação. Mais antiga é a empresa Rações Zêzere, fundada em 1981, dedicando-se ao fabrico e comercialização de cereais, misturas e alimentos compostos para animais de criação. É também uma empresa de capital 100% português e emprega cerca de 65 colaboradores.

Traçar cenários para o futuro do setor das rações não é tarefa fácil tendo em conta a incerteza dos tempos conturbados que estamos a viver. “Ainda estamos em tempo de guerra, e sem saber o que vai acontecer na Ucrânia será difícil prever [a evolução do mercado]. Neste momento, a nossa maior preocupação é garantir produtos para continuarmos a laborar e satisfazer os nossos clientes”, explica o administrador da Petmaxi e Rações Zêzere.

Padarias Pereira sobem o pão esta semana

A partir desta quarta-feira, 1 de junho, o pão vai estar mais caro nas Padarias Pereira. “No ano passado aumentámos a bola de 17 para 20 cêntimos, no início de 2022 passou para 22 cêntimos e agora vai subir para 25 cêntimos”, adianta Rui Pereira, um dos gestores deste grupo familiar fundado por Manuel Pereira há 29 anos em Milreu, Vila de Rei, e que hoje detém uma fábrica de padaria e pastelaria na zona industrial de Abrantes e várias lojas “Sabores do Ti Pereira” distribuídas por Abrantes, Ponte de Sor, Chamusca e Sardoal, fornecendo ainda produtos de padaria e pastelaria para Santarém, Almeirim, Coruche, Elvas, Castelo Branco, Fundão, Idanha-a-Nova e Badajoz.

O grupo, que facturou 9 milhões de euros em 2021, tem também 32 carros a trabalhar na distribuição pelas grandes superfícies e na venda porta a porta, empregando cerca de 170 pessoas.

Manuel Pereira diz que os constrangimentos provocados pelo aumento da matéria-prima, por via da guerra na Ucrânia, fizeram-se logo notas nas primeiras duas semanas do conflito, com um aumento de mais de 100% do preço da farinha, a que se juntou logo o aumento do custo do gasóleo. “Não está fácil”, confessa. 

Padaria/Pastelaria “Sabores do Ti Pereira”, no Sardoal. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

“As vendas quebraram na ordem dos 20 a 30 mil euros por semana”, acrescenta um dos seus filhos, Rui Pereira, que com o irmão Tiago assume parte da gestão desta empresa familiar.

Os custos de produção não páram de aumentar. “Em abril do ano passado, comprávamos 20 toneladas de farinha por 6.900 euros, em abril deste ano pagámos 13.200 euros… Nos ovos, também houve um aumento superior a 100%. Custavam 0,85 cêntimos a dúzia, agora custam 1,75€”, enumera Rui Pereira, explicando porque têm de voltar a subir o preço de alguns produtos, e nomeadamente do pão. “Aumentámos 10% em janeiro e vamos aumentar 10% agora em junho, são 20% no preço ao consumidor, mas os nossos custos aumentaram mais de 100%, é difícil fazer esta gestão”, lamenta.

“Em abril do ano passado, comprávamos 20 toneladas de farinha por 6.900 euros, em abril deste ano pagámos 13.200 euros…”

No Monte do Salvador, em Milreu, no concelho de Vila de Rei, onde criam bovinos, também já se notam alguns constrangimentos com aumento do custo de produtos e matéria-prima. Ali faz-se engorda de gado bovino que depois é vendido para matadouros. Manuel Pereira recorda os mais de 200 hectares de silagem de fenos para o gado que semeou no ano passado, notando que “duas carradas de adubo custaram 15 mil euros e este ano, pela mesma quantidade, já pagámos 36 mil euros” – ou seja, o preço mais do que duplicou.

O mesmo aconteceu com a ração, com aumento na ordem dos 80 a 90%, e mesmo que o preço do gado tenha subido ligeiramente, acaba por não compensar o investimento perante as vendas, que também caíram 15 por cento.

Manuel Pereira com os filhos, Tiago e Rui Pereira. Fotografia: Grupo Pereira

Apoios para enfrentar esta crise, não há. Aliás, Manuel Pereira frisa que nunca teve apoios de ninguém. “Nunca ninguém me deu nada, nunca recebi apoios de lado nenhum. Tem-se feito tudo com muito sacríficio. A puxar de um lado e a pôr do outro”, garante.

Manuel Pereira recorda a última candidatura que apresentou, com um projeto de obras na padaria na Zona industrial de Abrantes, onde investiu quase 2 milhões de euros. “Não foi aprovado”, diz, lamentando que a maioria dos apoios acabam por ser dirigidos apenas para “grandes empresas”. 

Os empréstimos à banca têm sido a única solução para alavancar os negócios e prosseguir com o plano de investimentos do Grupo Pereira. Por isso, o fundador refere que, na atual conjuntura de crise em crescendo, o caminho terá de ser fazer com “sacrifícios”. 

“Temos que ir para a luta. Não há outra maneira. Eu comecei do nada, sei o que custa, toda a vida trabalhei para ter o que tenho.”

Num momento de grandes incertezas, o que parece certo é que a crise que atualmente vivemos não passará de um dia para o outro. Como refere Domingos Chambel, presidente da Nersant, mesmo se a guerra na Ucrânia acabasse amanhã, “os nossos problemas não se resolvem no próximo ano”.

Preços aumentam todos os dias nos supermercados

À saída de um hipermercado no Entroncamento, Rui Gomes, operário de 35 anos, olha com desalento para o saco que leva na mão, queixando-se do “aumento generalizado” de preços que encontrou. “Nota-se muito, em tudo. No pão, no óleo, nos produtos para as crianças…”, comenta ao nosso jornal.

Elsa Lopes, enfermeira de 54 anos, notou sobretudo um aumento no preço da fruta, e Henrique Dias, reformado de 72 anos, mostra o pão que comprou, um exemplo dos bens essenciais que têm um custo cada vez mais elevado. Guilherme Gonçalves, também reformado, aponta sobretudo “o preço da carne e do peixe”, e Isabel Dias, professora de 53 anos, ainda não se refez do preço que pagou por um garrafão de óleo alimentar: “Custava 5,10€, agora paguei 7,29€.”

Fotografia: Unsplash

Em Torres Novas, Beatriz e Nuno Reis, de 22 e 27 anos, à porta de outro estabelecimento comercial, confirmam que trazem muito menos coisas para casa com o orçamento que têm para os bens essenciais. “Notámos muito o aumento nos detergentes, por exemplo”, diz Nuno, empregado numa empresa da região.

Nas prateleiras não se notam grandes faltas – embora existam alguns racionamentos de farinha e óleo, por exemplo – mas na dispensa dos portugueses não se pode dizer o mesmo. “O dinheiro não estica”, como comenta Maria Otília, reformada. Com o evoluir da inflação, a lista de compras vai forçosamente diminuindo e o seu carrinho de compras, quase vazio, espelha bem as dificuldades que milhares de famílias já sentem, e que se têm agravado de semana para semana.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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