O empresário abrantino Domingos Chambel é o novo presidente da associação empresarial da região de Santarém, Nersant. Créditos: David Belém Pereira

Os efeitos diretos, indiretos e colaterais da guerra na Ucrânia estão a ser “uma espécie de tsunami” na região de Santarém, afirma o presidente da Nersant, Domingos Chambel, em entrevista ao mediotejo.net.

No distrito de Santarém, explica, grande parte das empresas “a sul desenvolve a parte alimentar e agro alimentar, e a norte a transformação”, havendo “muitas empresas que importam produtos e outras que exportam, tanto para a Ucrânia como para a Rússia” e, no complexo industrial da região, contam-se “grandes importadores de cereais que precisam dos mesmos para fazer a transformação para os seus produtos agroalimentares e rações animais”.

Domingos Chambel assegura não estarem criadas condições para que as empresas nacionais, designadamente as do distrito, recebam “as quantidades de produtos que estavam habituadas a receber para a transformação”. Aponta como causa as sanções impostas à Rússia, determinadas pela União Europeia, situação agravada pela recente paralisação de transportes de longo curso em Espanha. Na importação, “algumas empresas pararam essa transformação, por não terem produtos suficientes, e outras fecharam por falta de matéria prima”.

Só nos primeiros 15 dias de março houve um aumento de 408% no preço das matérias-primas, em relação ao mesmo período do ano passado

Na exportação, o presidente da Associação Empresarial fala numa situação “extremamente grave” para a região, tendo em conta o volume de negócios para a Rússia. A Nersant dá conta de empresas com “35% da sua faturação parada” porque “não podem exportar” para aquele país, referindo os setores mais atingidos: pedra, curtumes e indústria da cortiça.

A indústria da cortiça é uma das mais afetadas pelo embargo de exportações para a Rússia. Créditos: Unsplash

“Neste momento não têm possibilidade alguma. As encomendas foram encerradas, não há condições logísticas, nem a lei o permite. São empresas extremamente prejudicadas porque, de um momento para o outro, foram cessadas do bom funcionamento de exportação que tínhamos na região, tendo em consideração não só a guerra, que não permite que os produtos lá cheguem, como a própria legislação europeia proíbe os produtos, dentro da União Europeia, de serem exportados para a Rússia”, afirma.

Fala em repercussões na nossa economia, “sistémicas diretas e reativas”, que “criam disrupções em termos de bom funcionamento, de alimentação de matérias primas às nossas empresas que são transversais a todas aquelas que têm relações com estes dois grandes países: a Rússia e a Ucrânia”.

Num inquérito da Nersant, realizado aos associados para compreender de que forma as empresas estão sentir estes agravamentos de custos, conclui-se que, com o eclodir da guerra na Ucrânia, está já colocada em causa a continuidade de muitas empresas, por não terem condições de absorver esses custos ou de os fazer repercutir aos seus clientes.

Em alguns destes fatores de produção, no primeiro trimestre do ano, os aumentos das matérias primas já se sentiam de forma bastante “pesada”. Casos do ferro, com um aumento de 58%, de 98,29 USD, para 155,36 USD; do níquel, que aumentou 103%, de 1.401 USD para 2.849,90 USD; do gás natural, com um aumento de 18%, de 3,9572 USD para 4,656 USD; e do Brent (petróleo), com um aumento de 58%, de 66,49 USD para 104,80 USD.

Refinaria de petróleo. Os valores do barril de crude não estavam tão elevados desde a crise petrolífera dos anos 1970. Créditos: Pixabay

Mas mais significativo, considera a Nersant, é o aumento global de 408% nos preços das matérias primas verificado na primeira quinzena de março de 2022, quando comparada com o mesmo período de 2021.

Os números “são dinâmicos”, e de dia para dia a situação tem vindo a agravar-se, explica ao nosso jornal Domingos Chambel, dando conta de um aumento de 200% do ferro, o que faz com que o setor da construção civil “esteja praticamente parado” devido à volatilidade dos preços e da entrega dos material em armazém. Neste momento o níquel – do qual a Ucrânia é grande exportador – já sofreu um aumento de 400%, exemplifica.

“Não temos instrumentos para contornar estes problemas. Os combustíveis, de 2021 para 2022, nomeadamente o gasóleo e a gasolina, subiram perto de 100%. O gás subiu mais de 300%. Temos casos de gás a subir 600%, a eletricidade em certos contratos subiu acima dos 400%. Ora isto faz disparar a inflação para 5,3%, ou seja quase mais 3% do que tínhamos em 2021 e isso vai-se refletir em toda nossa economia”, assegura Domingos Chambel.

No inquérito da Nersant às empresas da região constata-se que os valores elevados da energia afeta 80,7% das empresas. Quando se analisa o peso média da fatura da energia no produto final, em 40,3% dos casos é inferior a 10%, mas para 37,1% significa 11 a 20% e para 13 % das empresas o peso é superior a 30%.

As repercussões dos preços elevados da energia nos transportes/logística afeta 80% das empresas. Numa análise do peso médio da fatura dos transportes no produto final, 40% das empresas têm uma repercussão inferior a 10%, mas 46% tem uma incidência entre os 11 e 30%.

No que respeita às matérias-primas, 94,8% já verificam os respetivos aumentos. Quando se analisa o peso médio destes aumentos, 45% regista uma variação até 20%, enquanto que para 33,3% das empresas já é superior a 30%.

As repercussões dos preços elevados da energia nos transportes e logística afeta já 80% das empresas da região

As empresas também manifestaram preocupação com alguns aspetos, nomeadamente com o facto de a banca pressionar cada vez mais os financiamentos, para que seja possível suportar o brutal aumento das matérias primas e produtos acabados. A maioria dos inquiridos também revelou ter dificuldade em cumprir prazos devido a falta de existência de materiais e equipamentos.

Face à atual situação, Domingos Chambel defende “medidas excecionais” a tomar pelo Governo. “Entendemos que o Estado tem de baixar urgentemente o IVA, não só nos impostos dos combustíveis e nos produtos energéticos mas também nos consumos essenciais, porque só assim é possível minimizar o impacto das empresas e não reduzir tão significativamente a nossa competitividade e até possibilitar aos nossos trabalhadores manterem o poder de compra”, diz, manifestando “sensibilidade” quanto a esta questão.

A solução passará, em seu entender, por uma intervenção governamental “profunda em termos de impostos, porque há países na Europa que já reduziram significativamente o IVA”, como aconteceu em Espanha, e outros países europeus que “simplesmente baniram o IVA nesta situação excecional”.

Domingos Chambel vinca a necessidade de “medidas proporcionais”, uma vez que a energia apresenta-se no mercado a preços “insuportáveis”. Exemplifica com o caso da EDF – elétrica pública francesa –, que “ontem estava a pagar 5.400 euros o megawatt hora. No ano passado, o preço estava à volta de 100 euros. São preços insuportáveis e as nossas empresas não conseguem repercutir esses aumentos no produto final, especialmente aquelas que estão dentro de uma corrente de fornecimento, como as ligadas à indústria automóvel, e que têm contratos firmados com preços fixos durante 3, 4 ou 5 anos. Neste momento, o mercado grossista da energia tem leilões de hora a hora”, sublinha.

Por isso defende “uma forte intervenção” do Estado no sentido de evitar o encerramento de empresas e o colapso da economia.

Fábrica da Mitsubishi Fuso no Tramagal, Abrantes. As repercussões dos preços elevados da energia está a afetar já 80% das empresas no distrito de Santarém, segundo a Nersant. Foto: MFTE

Quanto à quebra de consumo diz “não ser de agora”, pois essa tendência iniciou-se com o fim das moratórias. No entanto, admite que a guerra na Ucrânia “empurra o consumidor e também as empresas para uma situação de ponderar muito bem se vale a pena comprar e produzir”.

Lembra que a CIP – Confederação Empresarial de Portugal, e outras associações empresariais, pressionam o Governo no sentido de avançar novamente com a “lay off” simplificada porque há “problemas estruturais há muitos anos e esta situação, que é conjuntural, veio somar aos que já tínhamos. E portanto a nossa situação cada vez é mais grave para que haja motivação para novos investimentos e até para a laboração normal das empresas”.

Nota que, mesmo se a guerra na Ucrânia acabar amanhã, “os nossos problemas não se resolvem no próximo ano, porque a União Europeia estava formatada para um tipo de energia que neste momento não está disponível, e não está preparada para um corte substancial, como decidiu ter, e isto vai-se refletir no preço das mercadorias e no funcionamento das empresas”.

“Mesmo se a guerra na Ucrânia acabar amanhã, os nossos problemas não se resolvem no próximo ano”

O presidente da Nersant critica a União Europeia pela falta de um “plano B”, ou sequer de “uma solução plausível para a falta do gás da Rússia”, no sentido de “acautelar os efeitos destruidores sociais e económicos” de uma guerra.

Aponta ainda o dedo aos decisores políticos ocidentais pela “falha grave de capacidade de análise”. Considera que tal, “em conjunto com as pretensões da Rússia, vai provocar realinhamentos económicos, políticos e bélicos, redesenhando uma nova ordem mundial”. Ou seja, declara, que os empresários “têm consciência do grande falhanço de toda a organização da União Europeia”.

Refere que “mesmo que os Estados Unidos da América exportem para a Europa mais 15 mil milhões de metros cúbicos de gás em cima dos 50 mil milhões que já põem, isso não corresponde a 10% da energia de que a Europa precisa”.

Sobre o futuro, Domingos Chambel antevê “um panorama muito negro, não só para a economia nacional mas para toda a Europa”.

Nersant coordena integração de refugiados no mercado de trabalho

Com o eclodir da guerra na Ucrânia, a Nersant deu o primeiro passo para apoiar os refugiados que chegassem à região, consultando a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e a Comunidade Intermunicipal da Lezíria sobre o que poderia fazer.

A Nersant ficou, então, responsável pela empregabilidade dos refugiados desta guerra, enquanto as Comunidades Intermunicipais ficaram responsáveis pela habitação, educação e integração social. Segundo Domingos Chambel, foi comunicado ao primeiro-ministro, à ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, ao ministro dos Negócios Estrangeiros e ao ministro da Administração Interna a disponibilidade de “empregar [no distrito de Santarém] grandes quantidades de recursos humanos, de mulheres ou homens que viessem da Ucrânia”. 

Entretanto, o Governo criou um site para as empresas se inscreverem dando conta das necessidades e disponibilidade em receber essa mão de obra.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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