Foto: DR

E os Reis Magos levaram ao Menino incenso, ouro e mirra. O incenso induz-nos a recordar, os que se recordam, as cerimónias religiosas onde a queima desta goma proveniente de uma árvore parecida com o loureiro, transformada em especiaria é indirecta após ter sido colocado no turíbulo e o sacerdote venera em frente do altar e perfuma o espaço. Por isso mesmo o termo – incensar – saltou os degraus do sagrado e prontamente quando é utilizado vai no sentido de lisonja, de vénia ao outro ou outros, ao modo de salamaleques.

Substância que na época dos Reis Magos só estava ao alcance dos possidentes ou manipuladores de plantas aromáticas, a par da mirra eram insubstituíveis nos ofícios de culto, especialmente em funerais e cremações. Uma simples consulta às enciclopédias via Internet o informam, já não o fazem no tocante às diferenças simbólicas desses mesmos cultos, tão bem estudados por Mircea Eliade nas suas obras, preferencialmente na fundamental História das Religiões.

O médico e botânico Dioscórides escreveu no seu tratado que o incenso clarifica a vista, misturado com alcatrão e vinagre repele as verrugas, não se devendo beber pois potencia a loucura. Seguramente, muitos deputados já o beberam.

Se o leitor já entrou em espaços onde crepitam paus de incenso, ou seja, em queima directa, em zonas de pouca salubridade, os seus vapores amenizam o ambiente e defendem as pessoas das picadas dos mosquitos. Esses mesmos vapores exalando cheiro adocicado e exótico para a pituitária dos ocidentais encontra-se frequentemente em restaurantes de cozinhas asiáticas de comeres puxavantes a fazerem estalar a língua e o rosto ficar repleto de gotas de suor. Os amigos dos comeres oriundos da Índia e Paquistão (os mais conhecidos entre nós) sabem quão aplacante térmico é o incenso, embora um amigo meu acrescente as virtudes da cerveja em detrimento dos vinhos e concentrados alcoólicos. Seja como for, quando contemplo o excessivo das reverências a pessoas, a imagem do incensário surge-me de imediato, advertindo-me que a penetrante essência nada tem a ver com hipocrisias mais ou menos interesseiras.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *