Hunters Bar, Warmoesstraaat, perto do Red Light Foto: afeiradasvaidades2.blogspot.com

Dos livros de aventuras de história, de filmes e fotografias retirei a ideia de a Holanda – Países Baixos – ser um País de piratas das nossas navegações e negócios, mercadores exímios, calculistas, de mulheres bojudas, de carões ossudos, agarradas a canjirões de leite e queijos, calçando socos coloridos, professando o calvinismo e o luteranismo, pouco joviais, nutrindo amizade pela genebra e pela cerveja, acompanhando as bebidas comendo salsichas e queijo assado. No tocante a piadas as bicicletas assumiam o papel principal.

No plano intelectual a impressão era bem diferente, desde Erasmo aos escritores modernos, passando pelos célebres pintores e ainda por ter acolhido a massa crítica dos judeus portugueses obrigados a saírem de Portugal, sempre considerei a Holanda terra de livre liberdade.

Há quase quarenta anos rumei pela primeira para a terra das túlipas. Em Amesterdão apressei-me a visitar a Sinagoga onde o meu conterrâneo Oróbio de Castro defendeu a sua ortodoxia na qualidade de teólogo e filósofo, fiz uma romagem à casa da Menina judia, gastei horas e horas nos Museus, flanei alegremente, tomei conhecimento, pela primeira vez, com as comidas da Indonésia e de Java, adquiri livros e regressei dizendo ter visto mulheres bonitas e esbeltas.

O ter andado sem guias (na carteira deixei dois cartões destinados a um escritor e a uma cientista de nacionalidade portuguesa) ajudou-me a observar, a ver e a perscrutar. Reparei: ao passar rente às janelas dos rés-dos-chãos das casas a cortinas mexiam-se. Tal qual nos pequenos povoados portugueses. Mão invisível? Não, nada disso, curiosidade de bisbilhoteiro digo resolutamente.

Nas visitas posteriores e de natureza científica e cultural fiquei invejoso da notável rede de leitura pública holandesa, do modo como se potenciavam os patrimónios no tocante a indústrias da cultura, a forma astuciosa (dentro do parâmetro da astúcia da razão hegeliana) no granjearem créditos através da difusão dos seus bens fixos e móveis, além do crescente desenvolvimento económico. No pormenor das cortinas mantinha-se o movimento.

Das três últimas passagens por Roterdão e Amsterdão, menos demoradas, para lá das luzes vermelhas de ataque às carteiras dos turistas, da proliferação de restaurantes multiétnicos, da babel linguística adoçada pelo sotaque brasileiro, do crescimento da oferta de pacotes eivados de cromatismos, o Holandês não voador continua dentro dos parâmetros de Max Weber, puritano e só expansivo aos fins de semana.

Nos últimos dias um burocrata holandês ainda influente na Comunidade Europeia afirmou que os homens do Sul da Europa gastam tudo quanto arrebanham em mulheres e copos. Sorte a nossa, também há o direito a termos alguma, bem basta a nossa condição de pobres, periféricos e desprovidos de diamantes. A Inquisição foi a grande culpada. Pedimos dinheiro emprestado? Pedir é a antítese de roubar.

O nosso paraíso não é fiscal, é eivado de hedonismo vínico e apreciador do denominado belo sexo, mesmo que não seja bem assim. O holandês prefere o dinheiro dos empresários portugueses, nós preferimos a boa comida, a vibrante bebida, e as estrídulas farras. Já vi holandeses beberrões e a dizerem parvoíces efeito de abuso ao ingerirem brancos e tintos ordinários. Daqueles de deixarem sarro na língua e dores na nuca.

Habituados à frialdade derretida à força de gin, quando andam por cá, deslumbrados, bebem vinho até à exaustão. Pensam que se acaba! Vão ver, o trabalhista desbocado ainda vem parar ao pé de nós.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

Deixe um comentário

Leave a Reply