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O casal de Vila de Rei que perdeu o bebé esta quarta-feira, dia 27 de julho, esteve afinal dois dias antes no Hospital de Abrantes, contrapondo a informação dada pelo Centro Hospitalar do Médio Tejo, que diz ter apenas registo da sua presença no dia 18 de julho, para realizar um exame de rotina. O mediotejo.net confirmou junto da família que na segunda-feira, dia 25 de julho, a grávida deslocou-se ao hospital de Abrantes porque tinha uma carta da sua médica particular para entregar naquela unidade hospitalar, onde planeava realizar o parto, encontrando-se na última semana de uma gravidez considerada de risco. Contudo, a médica recusou atendê-la, uma vez que o serviço de Obstetrícia estava condicionado desde as 9h00 – situação que se prolongou até esta quinta-feira, dia 28, pelas 21h00.

O CHMT reafirma não existirem registos de admissão, que esta gravidez não era acompanhada pelo hospital e que a mulher só terá estado em Abrantes a 18 de julho para realizar um CTG, sendo que esse exame não indiciava qualquer problema no feto.

Não existe registo de admissão no dia 25 de julho porque a grávida falou com a médica informalmente, no corredor, que recusou também receber a carta que a utente levava consigo, alegando que não a podia atender por não se tratar de uma urgência. A obstetra indicou também que, durante toda esta semana, caso fosse necessário, deveriam seguir para o Hospital de Santarém, porque o serviço de Urgência Obstétrica e o Bloco de Partos estariam condicionados em Abrantes. Assim, na quarta-feira, quando a grávida sentiu que poderia estar em trabalho de parto, o seu marido transportou-a de imediato para Santarém, sem passar por Abrantes.

O casal diz ter cumprido com as indicações da médica mas, perante a situação e os constrangimentos de atendimento dois dias antes de perderem o bebé, não descartam que isso possa ter conduzido ao mais trágico dos desfechos.

Esta informação foi confirmada ao nosso jornal pelo vice-presidente da autarquia de Vila de Rei, Paulo César Luís, que indicou que a família está a ser acompanhada pelo Serviço de Psicologia do município.

O autarca diz que a família ficou transtornada não só, obviamente, pela perda do bebé, como também por entender não ter sido atendida convenientemente pela médica obstetra na segunda-feira em Abrantes. “É a mágoa deles”, diz Paulo César Luís, notando que o casal esperava que a médica, no mínimo, analisasse a situação da gravidez de risco ou abrisse a carta encaminhada pela médica que havia colocado a grávida de baixa.

Acabou o casal por dirigir-se por iniciativa própria para Santarém na quarta-feira, na sua viatura, assim que começaram as primeiras contrações, seguindo o conselho da médica de Abrantes – porém, mesmo em período de contingência os serviços devem garantir o atendimento a grávidas num quadro de emergência, se estas se deslocarem diretamente (e não de ambulância) à unidade hospitalar, e essa informação não terá sido transmitida ao casal.

O Hospital de Santarém fica a mais de uma hora de viagem de Vila de Rei, quando até Abrantes o percurso de carro se faz em 20 minutos.

Só a autópsia ao feto, bem como os inquéritos já instaurados pela Inspecção Geral de Saúde e pelo CHMT, poderá esclarecer se faria diferença caso a grávida tivesse sido assistida de forma mais célere a 27 de julho, ou se uma avaliação médica em Abrantes, dois dias antes, poderia ter evitado este desfecho.

Mais casos?

O mediotejo.net ouviu o testemunho de duas pessoas que assistiram à aflição de um casal que acorreu ao Hospital de Abrantes na quarta-feira, dia 27, tendo-lhes sido comunicado que “o serviço estava encerrado” e que deviam seguir para o Hospital de Santarém. No episódio relatado ao nosso jornal, entre as 23h00 e a uma da manhã de quarta-feira, um homem surgiu a pedir auxílio para a mulher grávida, que estava dentro do carro, à porta do hospital, em situação aflitiva e de dor, indicando que estaria com contrações. Nas urgências terão afirmado nada poder fazer.

Segundo as mesmas testemunhas, a médica de serviço terá recusado também chamar uma ambulância, indicando que o casal deveria deslocar-se em viatura própria para o Hospital de Santarém, cujos serviços estariam a funcionar normalmente. Um bombeiro que presenciou a situação reprovou a atitude da médica e foi em auxílio do casal, tendo aconselhado que, caso seguissem para Santarém na viatura própria, solicitassem no caminho apoio do INEM.

As pessoas que assistiram a esta situação, e perante o mediatismo com a perda do bebé de uma mulher residente em Vila de Rei, dizem ter ficado incomodadas com a postura dos profissionais de saúde do Hospital de Abrantes, em especial da médica obstetra de serviço, temendo que o pior pudesse vir a acontecer pela falta de prestação de cuidados àquela grávida e ao seu bebé.

Questionado pelo nosso jornal sobre este caso, o CHMT diz desconhecer a situação e reafirma que os serviços respondem a “situações urgentes”, encaminhando-as para outros hospitais quando tal é necessário.

O mediotejo.net solicitou também mais esclarecimentos ao Hospital de Santarém, mas até ao momento ainda não obteve resposta.

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Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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