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Uma mulher grávida de 38 semanas, residente no concelho de Vila de Rei, deslocou-se na quarta-feira, dia 27 de julho, ao Hospital de Santarém com indícios de que estaria a entrar em trabalho de parto. Os médicos que a assistiram confirmaram uma situação de morte no útero, não sendo possível determinar neste momento se o bebé terá morrido durante a viagem – cerca de 1h mais longa do que a necessária para chegar ao Hospital de Abrantes que, segundo o portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS), e que a grávida terá consultado, tinha nesse dia os serviços de Urgência Obstétrica/Ginecológica e Bloco de Partos condicionados.

A mulher optou, assim, por deslocar-se pelos próprios meios ao Hospital de Santarém – embora, como frisa o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) nos diversos comunicados emitidos ao longo do último mês, neste períodos de contingência “apenas não são atendidas doentes urgentes transportadas por ambulância”. Ou seja, não é negado atendimento a quem recorra, pelo próprio pé, à unidade hospitalar em situação de urgência obstétrica ou ginecológica.

O Centro Hospitalar do Médio Tejo esclareceu ao nosso jornal que esta utente não era acompanhada no Hospital de Abrantes e que não há qualquer indicação de que tivesse procurado ser ali assistida no dia de ontem. Esta grávida deslocou-se apenas a 18 de julho ao Hospital de Abrantes para realizar um exame de rotina (um CTG), sendo o único registo da sua presença ali.

Pensando não poder ser atendida em Abrantes, as opções mais próximas da grávida residente em Vila de Rei eram o Hospital de Santarém ou o de Castelo Branco.

“Durante todo o período de contingência, o Serviço de Urgência de Ginecologia-Obstetrícia do CHMT é assegurado por uma equipa de profissionais de saúde, constituída por um médico obstetra, três enfermeiros especialistas, entre outros elementos (como assistentes operacionais e técnicos de diagnóstico e terapêutica), contando também com o apoio dos Serviços de Cirurgia Geral e de Anestesiologia, que prestarão cuidados de saúde circunscritos a situações de risco de vida iminente”, sublinha o centro hospitalar.

Por outro lado, o procedimento em caso de condicionamento por falta de profissionais que assegurem os turnos do serviço leva a que “as grávidas e utentes com patologia ginecológica urgente que se desloquem ao Serviço de Urgência de Ginecologia-Obstetrícia do CHMT serão transferidas para outras unidades do SNS da região, num quadro de articulação e funcionamento em rede, que envolve o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM e a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo”, sendo que o CHMT tem assumido o compromisso de “garantir o transporte das utentes em ambulância, com toda a segurança e o acompanhamento de um enfermeiro especialista da instituição”.

Desde junho, têm-se sucedido os encerramentos e condicionamentos dos serviços de urgência de Ginecologia e Obstetrícia um pouco por todo o país, por dificuldades em assegurar escalas, sendo que no espaço de um mês o serviço do CHMT já esteve cinco vezes nessa situação.

Centro Hospitalar abre inquérito

Perante o mediatismo que o caso está a assumir, o CHMT abriu um inquérito para averiguações formais, ainda que, segundo fonte da instituição, da realização do exame efetuado no hospital de Abrantes não tenham existido resultados que indiciassem problemas de saúde com o bebé ou com a mãe.

Também o Hospital de Santarém se pronunciou em comunicado divulgado pela imprensa, referindo que a gravidez não foi acompanhada ou vigiada pelo Serviço de Ginecologia e Obstetrícia daquele hospital, e que a mulher recorreu, por iniciativa própria, àquela instituição por suspeita de início de trabalho de parto, tendo a equipa diagnosticado a morte do feto no útero.

Segundo informação atualizada a 22 de julho no portal do SNS, e que a mulher terá consultado, indica-se que o Serviço de Urgência Obstétrica/Ginecológica e Bloco de Partos estaria condicionado na segunda, terça e quarta-feira, dias 25, 26 e 27 de julho, retomando a normalidade de funcionamento a partir das 21h00 desta quinta-feira, dia 28, situação que se deverá manter até domingo.

De todo o modo, e em esclarecimento dado pelo CHMT ao nosso jornal, a mulher não se terá deslocado ao Hospital de Abrantes nesta quarta-feira, dia 27 – dia em que, no Hospital de Santarém, se verificou a perda do bebé – não havendo qualquer registo em Abrantes além do exame feito no dia 18 de julho.

O Conselho de Administração do CHMT – Centro Hospitalar do Médio Tejo “apresenta as sentidas condolências à utente e à sua família, pela perda irreparável que enfrentam. Impõe-se que, neste momento difícil, a dor da família seja respeitada”, refere em comunicado.

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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1 Comentário

  1. Eu e o meu filho também fomos vítimas, (em Viana do Castelo) num parto que demorou demasiado tempo para ser realizado, porque não me quiseram fazer cesariana estando o meu filho em sofrimento fetal visível, onde resultou na sua morte …e quase na minha. Perante a inércia de uma sociedade, que Nada faz para proteger os seus…lamentavelmente assistimos a mais vítimas, deste sistema corrupto e mentiroso… A pergunta é, quantas mais crianças e mulheres precisaram de morrer?!?

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